Em 2019, nove milhões de vidas foram silenciadas pela poluição — uma em cada seis mortes registadas no planeta naquele ano. O estudo da Lancet Commission on Pollution and Health revela que o ar contaminado, a água envenenada e os produtos químicos tóxicos matam mais do que a guerra, a malária e o VIH juntos, e que 90% dessas mortes recaem sobre os países mais pobres do mundo. É uma crise que cresce na sombra da indiferença política, enquanto as mortes por poluição atmosférica e química aumentaram 66% em duas décadas.
Poluição matou 9 milhões de pessoas em 2019, revela estudo da Lancet
A poluição mata mais pessoas que guerra, malária e VIH combinados
Como é que chegaram ao número de nove milhões de mortes? É uma estimativa ou uma contagem direta?
A Lancet Commission fez uma análise abrangente dos dados de mortalidade global associados a três tipos de poluição — ar, água e química. Mas sim, é uma estimativa baseada em estudos epidemiológicos e dados de saúde pública, não uma contagem direta de cada morte.
Exatamente. E é importante notar que este número de 2019 é praticamente idêntico ao de 2015, segundo o próprio estudo. Portanto, não há uma tendência clara de piora ou melhoria no total global.
Mas o estudo diz que as mortes por poluição do ar e química aumentaram 66% em duas décadas. Como é que isso se concilia com o número total estar estável?
Porque houve uma compensação. As mortes por poluição associada à pobreza — água suja, ar doméstico contaminado — diminuíram. Mas esse ganho foi anulado pelo aumento de mortes por poluição industrial e do ar exterior.
E isso reflete uma mudança geográfica e económica real: países que saíram da pobreza extrema, mas que se industrializaram rapidamente sem regulações ambientais adequadas. É um padrão que vemos repetidamente.
O estudo menciona que 90% das mortes ocorrem em países de rendimento baixo e médio. Isso significa que a poluição é um problema principalmente desses países?
Não exatamente. Significa que é onde o impacto é mais devastador. Mas a poluição é global — muitas vezes produzida num país e transportada pelo ar ou água para outro.
E há um aspecto que o estudo não detalha muito: quanto dessa poluição é importada, no sentido de que países ricos produzem bens que são fabricados em países pobos com regulações fracas. A responsabilidade não é tão simples quanto a geografia das mortes sugere.
As recomendações do estudo — painel intergovernamental, mais financiamento — parecem realistas?
São sensatas, mas dependem de vontade política. A comissão está a pedir essencialmente que a poluição seja tratada como uma prioridade internacional, ao nível do clima ou da saúde global.
O desafio é que a poluição é invisível para muita gente nos países ricos. Não é um problema que apareça nas notícias da mesma forma que uma pandemia ou uma guerra. É crónico, silencioso, e afeta principalmente quem tem menos poder político.
The Pulse
- A poluição tornou-se o maior fator ambiental de risco para a saúde humana, superando doenças historicamente temidas e conflitos armados em número de vítimas anuais.
- As mortes ligadas à pobreza diminuíram, mas esse progresso foi engolido por um aumento brutal nas mortes causadas pela poluição industrial e pelo ar exterior contaminado.
- A desigualdade é devastadora: 90% das mortes ocorrem em países de rendimento baixo e médio, onde a proteção ambiental é mais frágil e a exposição mais intensa.
- Apesar de décadas de evidências científicas, a prevenção da poluição permanece negligenciada nas agendas internacionais, sem financiamento adequado nem estruturas de governança eficazes.
- A Lancet Commission propõe um painel intergovernamental dedicado, maior financiamento e monitorização global como primeiros passos para travar uma crise que ameaça a sustentabilidade das sociedades modernas.
Em 2019, nove milhões de vidas foram silenciadas pela poluição — uma em cada seis mortes registadas no planeta naquele ano. O estudo da Lancet Commission on Pollution and Health revela que o ar contaminado, a água envenenada e os produtos químicos tóxicos matam mais do que a guerra, a malária e o VIH juntos, e que 90% dessas mortes recaem sobre os países mais pobres do mundo. É uma crise que cresce na sombra da indiferença política, enquanto as mortes por poluição atmosférica e química aumentaram 66% em duas décadas.
Em 2019, a poluição foi responsável pela morte de nove milhões de pessoas — quase uma em cada seis mortes registadas no mundo naquele ano. Os dados, publicados pela Lancet Commission on Pollution and Health, posicionam a contaminação do ar, da água e por produtos químicos como o maior fator ambiental de risco para a saúde humana, superando em mortalidade a guerra, a malária, o VIH e a tuberculose combinados.
O estudo não revela apenas uma tragédia estática. Desde a análise anterior da comissão, em 2015, o total de mortes manteve-se semelhante, mas a sua composição mudou profundamente. As mortes associadas à pobreza — água insalubre, fumo doméstico — diminuíram. Porém, esse ganho foi inteiramente anulado pelo crescimento das mortes causadas pela poluição do ar exterior e pela exposição a químicos tóxicos de origem industrial. Em duas décadas, essas mortes aumentaram 66%.
Os números são precisos na sua crueldade: 6,67 milhões de mortes atribuídas à poluição atmosférica, 900 mil ao chumbo, 870 mil a acidentes tóxicos. E 90% de todas estas mortes ocorreram em países de rendimento baixo e médio — uma distribuição que expõe a dimensão política e económica do problema. O professor Philip Landrigan descreveu a poluição como "a maior ameaça existencial à saúde humana e planetária".
O autor principal Richard Fuller alertou que, apesar dos impactos comprovados, a prevenção da poluição continua largamente ignorada na agenda internacional. A comissão apresentou oito recomendações, entre elas a criação de um painel intergovernamental dedicado ao tema, maior financiamento para controlo da poluição e uma monitorização global mais rigorosa. O que está verdadeiramente em causa, sublinhou a coautora Rachael Kupta, é a capacidade das sociedades modernas de se sustentarem a si próprias.
Em 2019, a poluição matou nove milhões de pessoas. Esse número — quase uma em cada seis mortes registadas no planeta naquele ano — vem de um estudo da Lancet Commission on Pollution and Health, e coloca a contaminação do ar, da água e química como o maior fator ambiental de risco para doença e morte prematura em escala global. Para ter dimensão do que isto significa: a poluição mata mais pessoas anualmente do que a guerra, a malária, o VIH, a tuberculose, as drogas e o álcool combinados. Representa 16% de todas as mortes mundiais.
Este não é um fenómeno novo. A comissão havia feito uma análise anterior em 2015, e o número de mortes por poluição mantinha-se praticamente inalterado desde então. O que mudou, porém, foi a composição dessas mortes. Enquanto as mortes associadas à pobreza — água contaminada, ar doméstico poluído — diminuíram, esse ganho foi completamente compensado por um aumento acentuado nas mortes causadas pela poluição do ar exterior e pela exposição a produtos químicos tóxicos, frequentemente ligados à contaminação industrial. Nas últimas duas décadas, as mortes por poluição atmosférica e química aumentaram 66%.
O professor Philip Landrigan, coautor do estudo, descreveu a poluição como "a maior ameaça existencial à saúde humana e planetária", comprometendo a sustentabilidade das sociedades modernas. Os números refletem isto: a poluição atmosférica foi responsável por 6,67 milhões de mortes; o chumbo contribuiu para 900 mil mortes prematuras; acidentes tóxicos causaram 870 mil óbitos. Mas há um detalhe que torna o quadro ainda mais grave: 90% destas mortes ocorreram em países de rendimento baixo e médio. A poluição não mata de forma democrática.
Richard Fuller, autor principal do estudo, apontou que apesar dos impactos enormes na saúde, sociais e económicos da poluição, a sua prevenção permanece "largamente negligenciada na agenda internacional de desenvolvimento". O fenómeno é alimentado pela urbanização descontrolada, pelo crescimento populacional desmedido e pela dependência contínua dos combustíveis fósseis. Apesar de os efeitos na mortalidade estarem comprovados há anos, as mudanças políticas e estruturais têm sido mínimas, agravando o problema.
A comissão apresentou oito recomendações para enfrentar a crise. Propõe a criação de um painel intergovernamental dedicado à poluição, maior financiamento para o seu controlo, apelos a filantropos para doações, e uma melhor monitorização e recolha de dados sobre o fenómeno. Rachael Kupta, coautora do estudo, sublinhou que a poluição "é uma ameaça planetária" e que é imperativo definir medidas globais para lidar com os efeitos de todos os principais poluentes modernos. O que está em jogo não é apenas um número de mortes — é a capacidade das sociedades modernas de se sustentarem.
Notable Quotes
A poluição é a maior ameaça existencial à saúde humana e planetária e compromete a sustentabilidade das sociedades modernas— Professor Philip Landrigan, coautor do estudo
Apesar dos seus enormes impactos na saúde, sociais e económicos, a prevenção da poluição é largamente negligenciada na agenda internacional de desenvolvimento— Richard Fuller, autor principal do estudo