O Brasil, reconhecido mundialmente por suas políticas bem-sucedidas contra o tabagismo tradicional, enfrenta agora uma contradição histórica: enquanto o cigarro convencional recua entre adultos, os dispositivos eletrônicos para fumar avançam com força entre adolescentes, quase dobrando sua prevalência em cinco anos. É o paradoxo de uma nação que dominou um combate e se vê despreparada para o seguinte — não por falta de experiência, mas por velocidade de transformação. O que está em jogo não é apenas uma estatística de saúde pública, mas o legado de décadas de conquistas e o futuro de uma geraç
Políticas antifumo devem reforçar combate aos cigarros eletrônicos
Os vapes encontraram espaço ilimitado onde o cigarro foi controlado
Por que o Brasil, que foi tão bem-sucedido em reduzir o tabagismo tradicional, está vendo os eletrônicos explodir justamente entre os jovens?
Porque as políticas antigas funcionaram exatamente onde foram aplicadas — na TV, no rádio, nos eventos. Mas os vapes encontraram um espaço que não estava regulado: as redes sociais. É um canal completamente diferente, muito mais disperso e difícil de controlar.
Espera. A Anvisa proibiu os eletrônicos em 2009. Se havia proibição, por que estão tão disponíveis? Isso é um fracasso de fiscalização ou a proibição nunca foi realmente efetiva?
Provavelmente os dois. A proibição existe no papel, mas a fiscalização não acompanhou a velocidade da inovação. Os produtos entram pelo comércio online, pelas redes sociais, por importação. É muito mais difícil controlar do que era controlar a publicidade na TV.
Os números mostram que 29,6% dos adolescentes usam eletrônicos agora. Isso é realmente um problema de saúde pública ou é uma mudança de preferência — pessoas que fumariam cigarro tradicional agora fumam eletrônico?
É ambos. Mas o mais preocupante é que muitos adolescentes que nunca teriam fumado cigarro tradicional estão começando com eletrônico. E a taxa geral de fumantes subiu em 2024 pela primeira vez em anos. Isso sugere que os vapes não estão apenas substituindo o cigarro, estão trazendo mais gente para o hábito.
Mas quanto dano real os eletrônicos causam? O relatório da OMS menciona que o Brasil deveria melhorar a tributação, mas não diz explicitamente que os vapes são tão prejudiciais quanto o cigarro. Estamos comparando riscos equivalentes?
Não sabemos ainda o impacto de longo prazo dos eletrônicos. Mas sabemos que criam dependência de nicotina, que afetam os pulmões em desenvolvimento de adolescentes, e que a maioria dos usuários jovens acha que não fazem mal — o que é o maior risco.
Então a solução é simplesmente proibir e tributar mais?
Não é tão simples. O relatório da OMS sugere que políticas interdisciplinares — saúde, educação e economia juntas — funcionaram bem com o cigarro tradicional. Precisamos fazer o mesmo com os eletrônicos, mas mais rápido, porque a expansão está acontecendo muito mais depressa.
E quanto aos adultos? Os dados mostram que 11,6% dos maiores de 18 anos fumam agora, a maior taxa em anos. Quantos desses estão usando eletrônicos? Porque se a maioria dos novos fumantes é jovem, mas a taxa geral subiu entre adultos, há algo mais acontecendo.
Ótima pergunta. Os dados não desagregam isso claramente. Mas é possível que alguns adultos que pararam de fumar cigarro tradicional tenham voltado aos eletrônicos, achando que era mais seguro. Isso seria um fracasso duplo das políticas.
El Pulso
- O uso de vapes entre adolescentes de 13 a 17 anos saltou de 16,8% para 29,6% em apenas cinco anos, enquanto a taxa de fumantes adultos registrou em 2024 sua maior alta desde o início do monitoramento.
- A proibição da Anvisa desde 2009 não conteve a expansão dos eletrônicos, que encontraram nas redes sociais um canal de promoção praticamente sem restrições — território onde as políticas tradicionais não chegam.
- Jovens subestimam os riscos dos vapes, alimentados pela narrativa de que são menos prejudiciais que o cigarro, criando uma janela de vulnerabilidade que as políticas atuais não conseguem fechar.
- O SUS, já pressionado pelo envelhecimento populacional, enfrenta a perspectiva de uma geração de fumantes jovens que elevará a carga futura de doenças crônicas e câncer.
- Especialistas apontam que o Brasil tem a estrutura e a experiência para agir — mas a urgência é adaptar políticas interdisciplinares de saúde, educação e tributação antes que a janela se feche.
O Brasil, reconhecido mundialmente por suas políticas bem-sucedidas contra o tabagismo tradicional, enfrenta agora uma contradição histórica: enquanto o cigarro convencional recua entre adultos, os dispositivos eletrônicos para fumar avançam com força entre adolescentes, quase dobrando sua prevalência em cinco anos. É o paradoxo de uma nação que dominou um combate e se vê despreparada para o seguinte — não por falta de experiência, mas por velocidade de transformação. O que está em jogo não é apenas uma estatística de saúde pública, mas o legado de décadas de conquistas e o futuro de uma geração.
O Brasil vive um paradoxo incômodo: é referência mundial no combate ao tabagismo, mas vê explodir entre seus jovens o consumo de cigarros eletrônicos. Entre adolescentes de 13 a 17 anos, o uso de vapes quase dobrou em cinco anos, passando de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024. No mesmo período, a experimentação com cigarro tradicional caiu — prova de que as políticas antitabagismo funcionaram onde foram aplicadas, mas deixaram uma brecha aberta.
Os dados de prevalência geral aprofundam a preocupação. Pesquisa do A.C. Camargo aponta que 19% dos jovens entre 16 e 24 anos são fumantes, taxa superior à média nacional e acima de faixas etárias mais velhas. O monitoramento do Ministério da Saúde revela que, após décadas de queda consistente, a taxa de fumantes adultos subiu de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024 — a maior elevação de toda a série histórica — sugerindo que os vapes não apenas atraem quem nunca fumou, mas também reconquistam ex-fumantes.
A reputação internacional do Brasil foi construída sobre medidas concretas: proteção contra fumaça ambiental, aumento de impostos, monitoramento, tratamento para dependência, advertências e proibição de publicidade. Relatório de 2025 da OMS coloca o país entre apenas quatro nações, de 195 avaliadas, com alto nível de eficiência nessas estratégias. Mas a proibição dos eletrônicos pela Anvisa desde 2009 não conteve sua expansão — a fiscalização não acompanhou a inovação tecnológica nem os novos canais de distribuição.
Enquanto a publicidade convencional foi controlada, os vapes encontraram nas redes sociais um espaço praticamente ilimitado, onde influenciadores promovem os produtos sem as restrições que cercam o cigarro tradicional. Jovens tendem a subestimar os riscos, alimentados pela narrativa de redução de danos — e quanto mais cedo se inicia o vício, mais difícil é abandoná-lo. Uma geração de fumantes jovens representa impacto futuro severo sobre o SUS, já pressionado pelo envelhecimento populacional.
O caminho adiante exige ampliar o escopo do que funcionou: tributação mais agressiva, regulação das redes sociais, educação nas escolas sobre os riscos reais dos vapes e tratamento acessível para jovens dependentes. O Brasil tem a experiência e a estrutura. A questão é se conseguirá agir com a mesma velocidade com que os eletrônicos se expandem.
O Brasil enfrenta um paradoxo incômodo: é referência mundial no combate ao tabagismo tradicional, mas vê explodir entre seus jovens o consumo de cigarros eletrônicos, justamente o segmento que deveria estar protegido pelas décadas de políticas bem-sucedidas. Os números revelam a dimensão do problema. Entre adolescentes de 13 a 17 anos, o uso de dispositivos eletrônicos para fumar saltou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024 — quase uma duplicação em cinco anos. No mesmo período, a experimentação com cigarro tradicional caiu de 22,6% para 18,5%, mostrando que as políticas antitabagismo funcionaram onde foram aplicadas, mas deixaram uma brecha aberta.
Os dados de prevalência geral reforçam a preocupação. Pesquisa do A.C. Camargo, hospital particular de São Paulo, indica que 19% das pessoas entre 16 e 24 anos são fumantes — taxa superior à média nacional de 17% e acima dos grupos etários mais velhos. A faixa de 25 a 40 anos registra 15%, e a de 41 a 59 anos, 17%. Isso significa que a juventude está contraindo o hábito em proporção maior que qualquer outro segmento da população, invertendo uma tendência de décadas.
O cenário fica mais complexo quando se observa a série histórica do Vigitel, sistema de monitoramento do Ministério da Saúde. A taxa de fumantes acima de 18 anos caiu consistentemente de 15,7% em 2006 para 9,3% em 2023. Mas em 2024, subiu para 11,6% — a maior elevação de toda a série. Essa reversão coincide com a expansão dos eletrônicos e sugere que os vapes não estão apenas atraindo quem nunca fumou, mas também trazendo de volta pessoas que haviam abandonado o cigarro.
O Brasil construiu sua reputação internacional em controle do tabagismo através de medidas que funcionaram. Segundo relatório de 2025 da Organização Mundial da Saúde, o país está entre apenas quatro nações, de 195 avaliadas, que implementaram com alto nível de eficiência as estratégias recomendadas: proteção contra fumaça ambiental, aumento de impostos, monitoramento do consumo, oferta de tratamento para dependência, advertências sobre riscos e proibição de publicidade. Essas ações produziram resultados tangíveis ao longo de duas décadas. Mas o relatório também aponta uma lacuna: o Brasil deveria avançar no desenho da tributação para tornar os produtos menos acessíveis — sugestão que se aplica com ainda mais força aos eletrônicos.
A proibição dos cigarros eletrônicos pela Anvisa desde 2009 deveria ter impedido sua expansão. Não impediu. Isso revela que a fiscalização não acompanhou a velocidade da inovação tecnológica e da mudança nos canais de distribuição. Enquanto as políticas tradicionais controlaram a propaganda na televisão, rádio e eventos — ferramentas que foram decisivas para reduzir o consumo de cigarro — os vapes encontraram espaço praticamente ilimitado nas redes sociais, onde influenciadores e usuários promovem os produtos sem as restrições que cercam a publicidade convencional.
O desafio é particularmente agudo porque os jovens tendem a subestimar os riscos dos dispositivos eletrônicos. Muitos acreditam que não causam dano à saúde ou que são menos prejudiciais que o cigarro tradicional. Essa percepção equivocada, alimentada pela narrativa de redução de danos que cerca os vapes, cria uma janela de vulnerabilidade que as políticas atuais não conseguem fechar. Quanto mais cedo alguém começa a fumar — seja cigarro ou eletrônico — mais difícil é abandonar o vício. E uma geração de fumantes jovens representa impacto futuro significativo no sistema de saúde, com aumento previsível de doenças crônicas não transmissíveis como diabetes e hipertensão, além de certos tipos de câncer. O SUS, já pressionado pelo envelhecimento populacional, não está preparado para absorver essa carga adicional.
O caminho adiante exige que o Brasil adapte suas políticas bem-sucedidas para um novo inimigo. Não se trata de abandonar o que funcionou, mas de ampliar o escopo. Políticas interdisciplinares que aliem saúde, educação e economia já se mostraram relevantes no combate ao cigarro tradicional e precisam ser aprimoradas e direcionadas especificamente aos eletrônicos. Isso inclui tributação mais agressiva, regulação mais rigorosa das redes sociais, educação nas escolas sobre os riscos reais dos vapes, e tratamento acessível para jovens que já desenvolveram dependência. O Brasil tem a experiência e a estrutura para fazer isso. A questão agora é se conseguirá agir com a mesma velocidade com que os eletrônicos se expandem.
Citas Notables
Quanto mais cedo a pessoa começa a fumar, mais difícil é abandonar o vício, e mais jovens fumantes representam maior impacto futuro no sistema de saúde— Análise baseada em dados de saúde pública
O controle da propaganda em TV, rádio e eventos, que ajudou na redução histórica do consumo, perde parcialmente sua força no ambiente informativo mais disperso das redes sociais— Observação sobre mudança nos canais de comunicação