Policial preso por tráfico e tortura usava iPhone na cela para ameaçar testemunhas

Vítima de tortura foi espancada durante um dia em mato por suposto furto; filho de policial civil sofreu agressões.
Jogou a carreira e a reputação na privada
Como colegas de Santos resumem a queda de um policial que era considerado um dos melhores da região.
Mark

Como um policial com essa reputação — considerado um dos melhores da região — acaba envolvido em tráfico, tortura e desvio de drogas?

Mimi

Não há uma resposta simples. O que sabemos é que ele ganhou notoriedade rápido, trabalhou em operações de alto impacto, e em algum ponto começou a usar a posição e o acesso para atividades criminosas. Talvez o prestígio tenha criado uma sensação de impunidade.

Luke

Mas precisamos ser cuidadosos aqui. Ele foi indiciado, sim, mas o processo criminal ainda está em fase inicial e tramita sob sigilo. Temos acusações do Ministério Público, mas não sabemos ainda o que a defesa vai apresentar.

Mark

E quanto ao iPhone na cela? Como um preso consegue um celular de última geração em uma unidade de elite?

Mimi

Essa é a pergunta que a Corregedoria está tentando responder. Alguém entregou o aparelho. A questão é quem e por quê. Se era para ele ameaçar testemunhas, como se suspeita, isso sugere que havia interesse em obstruir a justiça.

Luke

Mas "suspeita-se" é importante aqui. Não temos confirmação de que ele usou o celular para ameaçar testemunhas. Temos a suspeita, e temos o fato de que ele tinha o aparelho. O resto ainda está sendo investigado.

Mark

Ele trabalhou em três delegacias. Quantas pessoas podem ter sido afetadas por suas ações?

Mimi

Não sabemos o número exato. Mas se ele desviou dez quilos de drogas apreendidas, se torturou alguém, se estava envolvido em tráfico — cada uma dessas ações afeta múltiplas pessoas. Vítimas, testemunhas, colegas que podem ter sido envolvidos.

Luke

E aqui está o problema: muitos detalhes permanecem sob sigilo. Não sabemos quantas operações ele participou, quantas apreensões estão sob suspeita, quantas pessoas podem ter sido prejudicadas. A investigação vai revelar isso, mas por enquanto estamos trabalhando com fragmentos.

Mark

Qual é o impacto disso para a confiança na polícia?

Mimi

Quando um policial — especialmente um considerado entre os melhores — é acusado desses crimes, isso corrói a credibilidade de toda a instituição. As pessoas que trabalham honestamente ficam marcadas pela ação de um.

Luke

Verdade, mas também é importante notar que foram colegas dele que descobriram o celular. Foram agentes da Core que fizeram a revista. Isso mostra que há mecanismos de controle funcionando, mesmo que imperfeitos.

  • Um policial preso por tráfico e tortura foi flagrado com um iPhone 17 Pro Max escondido no vaso sanitário da cela — e a suspeita é que o usava para ameaçar testemunhas dos inquéritos contra ele.
  • Santos acumula seis inquéritos: tráfico de drogas, tortura, receptação, desvio de entorpecentes apreendidos em operações e envolvimento com atividades criminosas em Charqueadas, cidade-sede do maior complexo prisional do estado.
  • A Corregedoria da Polícia Civil investiga quem entregou o aparelho ao preso, enquanto o escrivão foi autuado em flagrante por receptação, somando mais um processo à lista já extensa.
  • O processo criminal tramita sob sigilo, a análise do smartphone ainda está em curso, e o advogado de defesa sinalizou que aguarda acesso integral aos elementos de investigação antes de se manifestar.

Há algo profundamente perturbador quando aquele que foi formado para proteger se torna o próprio perigo que deveria combater. Lucas Silva dos Santos, escrivão da Polícia Civil do Rio Grande do Sul preso há dois meses por tráfico e tortura, foi encontrado com um iPhone de última geração escondido no vaso sanitário de sua cela em Porto Alegre — suspeito de usá-lo para intimidar testemunhas. O episódio não é apenas uma infração carcerária: é o reflexo de uma trajetória que transformou um investigador outrora elogiado em símbolo das fraturas que podem existir dentro das próprias instituições de segurança.

Lucas Silva dos Santos entrou na Polícia Civil em 2020 e construiu reputação como um dos melhores investigadores do Vale do Sinos — responsável por apreensões expressivas, requisitado por delegacias da região. Tudo mudou quando foi preso, em julho, acusado de tráfico de drogas e tortura.

Recolhido à casa de custódia da Core, no bairro Partenon, em Porto Alegre, Santos foi surpreendido três semanas depois por agentes que receberam a informação de que ele estava usando um telefone na cela. Avisado de que uma inspeção encontraria o aparelho de qualquer forma, ele mesmo indicou o esconderijo: dentro do vaso sanitário, junto com um carregador portátil, estava um iPhone 17 Pro Max. A suspeita é grave — o dispositivo teria sido usado para ameaçar testemunhas dos inquéritos que pesam contra ele.

Os crimes pelos quais responde revelam um padrão perturbador. A tortura foi praticada contra o filho de um colega policial: a vítima foi espancada durante um dia inteiro em um mato, sob acusação de ter furtado dinheiro de Santos. Pelo menos dois outros policiais do Vale do Sinos são investigados como cúmplices. No caso do tráfico, Santos foi indiciado ao lado da namorada e de três comparsas, com conexões em Charqueadas. Há ainda a investigação por desvio de cerca de dez quilos de cocaína e maconha apreendidos quando trabalhava na 2ª Delegacia de São Leopoldo.

A Corregedoria agora apura como um celular de última geração chegou até a cela. Santos foi autuado por receptação, acrescentando mais um inquérito à lista de seis. Seu advogado reconheceu que as investigações seguem em sigilo e que o processo está em fase inicial, optando por não se manifestar até ter acesso completo aos elementos do caso.

Para os colegas que o conheceram no Vale do Sinos, o episódio vai além das acusações: é a imagem de alguém que, nas palavras de um deles, jogou a carreira e a reputação na privada — e que levanta questões difíceis sobre supervisão, integridade e os limites do sistema quando quem deveria proteger se torna parte do problema.

Lucas Silva dos Santos tinha 31 anos e uma carreira que parecia promissora. Entrou na Polícia Civil em 2020, aos 24, e rapidamente ganhou reputação como um dos melhores investigadores do Vale do Sinos. Seus colegas o descrevem como alguém que se destacava em operações contra o crime organizado, responsável por apreensões expressivas de drogas. Ele trabalhou em três delegacias da região e era considerado indicável para qualquer unidade de ponta do estado. Tudo isso mudou quando foi preso, há dois meses, sob acusação de tráfico de drogas e tortura.

No dia 2 de julho, Santos foi recolhido à casa de custódia da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), a unidade de elite da Polícia Civil localizada no bairro Partenon, em Porto Alegre. Três semanas depois, na manhã de 21 de julho — três dias após seu aniversário — agentes da Core foram até sua cela com uma informação: ele estava usando telefone. Deixaram claro que não adiantaria negar ou tentar esconder. Uma inspeção encontraria o aparelho de qualquer forma. Sem alternativa, Santos indicou o local. O celular estava no vaso sanitário, junto com um carregador portátil. Era um iPhone 17 Pro Max, de última geração.

A suspeita que levou à revista é grave: Santos estava usando o aparelho para ameaçar testemunhas dos inquéritos contra ele. A Corregedoria da Polícia Civil agora investiga como um dispositivo de última geração chegou até a cela de um preso e quem o entregou. O escrivão foi autuado em flagrante por receptação, adicionando mais um inquérito à lista que já era longa. Ele responde a cinco outros processos, e a análise do smartphone e os detalhes das investigações permanecem sob sigilo.

Os crimes pelos quais Santos é acusado revelam um padrão preocupante. A tortura ocorreu contra o filho de um colega policial civil. A vítima foi espancada durante um dia inteiro em um mato porque teria furtado dinheiro de Santos em sua casa em São Leopoldo — a mesma residência onde o escrivão costumava reunir colegas e amigos para churrascos. Pelo menos dois outros policiais civis do Vale do Sinos são investigados como comparsas nesse crime. Quanto ao tráfico, Santos foi indiciado junto com a namorada e três supostos comparsas, em conexão com atividades em Charqueadas, município que abriga o maior complexo prisional do estado. O Ministério Público já ofereceu denúncia, que foi recebida pelo Judiciário. O processo criminal tramita sob sigilo e está em fase inicial.

Há ainda a questão do desvio de drogas apreendidas em operações policiais. Santos é investigado por ter desviado aproximadamente dez quilos de cocaína e maconha quando trabalhava na 2ª Delegacia de Polícia de São Leopoldo. Ele começou sua carreira na 1ª DP da mesma cidade e chegou a trabalhar um mês na delegacia de Estância Velha. Cada movimento de sua trajetória profissional agora está sob escrutínio.

O advogado Francis Beck, que representa Santos, emitiu uma nota à reportagem na tarde de segunda-feira. Reconheceu que os fatos ainda estão em investigação policial, com considerável parte das diligências mantidas em sigilo, e que a denúncia foi oferecida recentemente, com o processo ainda em fase de citação. Por essas razões, afirmou que não se manifestaria de forma mais específica naquele momento, ao menos até ter acesso a todos os elementos de informação.

Para os colegas de Santos no Vale do Sinos, o que aconteceu vai além de acusações criminais. Um deles, que pediu para não ser identificado, resumiu assim: além do celular, o agente jogou a carreira e a reputação na privada. De um policial considerado entre os melhores da região a um homem respondendo a seis inquéritos — a trajetória marca um ponto de ruptura na instituição e levanta questões sobre supervisão, integridade e como um sistema de segurança pode falhar quando quem deveria proteger se torna parte do problema.

Era um guri muito bom no trabalho de rua. Chegou a ser considerado um dos melhores policiais da região, indicável para qualquer delegacia de ponta do estado
— Colega anônimo de Santos no Vale do Sinos
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