Poeira do Saara aumenta em Portugal com impactos na saúde e energia solar

Episódios de poeira do Saara associados a aumento de mortalidade diária (0,67%) e internamentos por doenças respiratórias, particularmente em crianças (2,55%).
Cada episódio traz agora mais partículas do que trazia há dez anos
A concentração de poeira do Saara intensificou-se durante a última década, mesmo sem aumentar o número de episódios.
Mark

Porque é que Portugal é particularmente afetado quando o Saara está tão longe?

Mimi

A geografia trabalha contra nós. As massas de ar carregadas de poeira vêm do norte de África, deslocam-se sobre o Atlântico e depois infletem para norte, atingindo diretamente a Península Ibérica. Estamos na rota natural destas partículas.

Mark

O estudo diz que o número de episódios não aumentou muito. Então o que mudou?

Mimi

A intensidade de cada episódio. Há dez anos, quando a poeira chegava, trazia menos partículas. Agora traz mais. É como se o mesmo fenómeno se tivesse tornado mais concentrado.

Mark

Duas vírgula cinco por cento de aumento em internamentos pediátricos parece um número pequeno. Porque é que importa?

Mimi

Porque é um aumento consistente durante episódios de poeira. Multiplicado por toda uma população, por vários episódios ao longo de um ano, por décadas — deixa de ser pequeno. São crianças que poderiam estar saudáveis.

Mark

E a energia solar? Como é que poeira no ar afeta painéis no chão?

Mimi

De duas formas. A poeira na atmosfera bloqueia parte da radiação solar que deveria chegar aos painéis. E a poeira que se deposita sobre os painéis reduz a sua eficiência. Os operadores de parques solares perdem produção sem aviso prévio.

Mark

As alterações climáticas estão a causar isto?

Mimi

Provavelmente estão a contribuir, mas os cientistas são cautelosos. Sabem que a aridez no norte de África está a aumentar e que a circulação atmosférica está a mudar, mas ainda não conseguem quantificar exatamente quanto das alterações climáticas é responsável por isto.

Mark

O que pode ser feito?

Mimi

Previsões melhores ajudariam. Se soubermos quando vem uma intrusão de poeira, os hospitais podem preparar-se, os operadores de energia podem antecipar perdas. Mas a solução real passa por compreender e travar as causas — a degradação dos solos em África, as alterações climáticas.

  • A poeira do Saara que chega a Portugal não é apenas um incómodo visual — cada episódio traz agora mais partículas do que trazia há dez anos, mesmo sem aumentar em frequência.
  • Os números de saúde são concretos e perturbadores: durante intrusões de poeira, a mortalidade diária sobe 0,67% e os internamentos respiratórios em crianças aumentam 2,55% no sul europeu.
  • Portugal, Espanha, Itália e Grécia concentram os níveis mais elevados de exposição, com concentrações de partículas mais do dobro das registadas no centro e norte da Europa.
  • Para além da saúde pública, a poeira acumula-se nos painéis solares e bloqueia radiação, ameaçando a eficiência energética num país que aposta fortemente nas renováveis.
  • Investigadores defendem que previsões mais precisas destes episódios poderiam proteger tanto as redes elétricas como os sistemas de saúde, mas a ciência ainda não consegue quantificar o papel exato das alterações climáticas nesta tendência.

Das profundezas do Saara, o vento não traz apenas calor — traz partículas invisíveis que atravessam o Mediterrâneo e pousam sobre Portugal com consequências cada vez mais pesadas. Um estudo publicado na Nature, baseado em quase dezoito mil e quinhentas medições recolhidas ao longo de uma década em mais de cem locais europeus, revela que a concentração de poeira desértica na atmosfera europeia cresceu entre dez e vinte e cinco por cento, com o sul do continente — e Portugal em particular — a suportar o peso maior. O fenómeno não é novo, mas a sua intensidade crescente convida-nos a repensar a relação entre o deserto africano, o clima em transformação e a saúde das populações que vivem à beira do Atlântico.

Portugal enfrenta um problema que não vem do deserto a avançar fisicamente, mas das partículas que ele envia. Investigadores de toda a Europa analisaram quase dezoito mil e quinhentas medições diárias recolhidas entre 2012 e 2021 em mais de cem locais do continente, e os resultados, publicados na Nature, revelam um padrão consistente: a concentração de poeira mineral do Saara na atmosfera europeia tem crescido, e Portugal está entre os territórios mais expostos.

O vento transporta partículas do Norte de África milhares de quilómetros até à Europa, atingindo regularmente a Península Ibérica e o Mediterrâneo. No sul europeu, a concentração média de partículas PM10 de origem desértica é mais do dobro da registada no centro e norte do continente. Ao longo da década estudada, o crescimento acumulado situou-se entre dez e vinte e cinco por cento. Um detalhe revelador: o número de episódios de intrusão não aumentou significativamente — o que mudou foi a intensidade de cada um.

Os impactos na saúde são mensuráveis. Durante estes episódios, estima-se um aumento de 0,67% na mortalidade diária e de 0,73% nos internamentos respiratórios em adultos. Nas crianças até aos catorze anos, o aumento estimado de internamentos por problemas respiratórios chega aos 2,55%. A investigadora portuguesa Célia Alves, da Universidade de Aveiro, participou no estudo, que recorreu a modelos de aprendizagem automática para estimar as concentrações diárias de poeira desértica.

O problema estende-se à energia: a poeira reduz a radiação solar que atinge a superfície e acumula-se nos painéis fotovoltaicos, diminuindo a sua eficiência. Previsões mais precisas destes episódios poderiam ajudar operadores de redes elétricas e parques solares a antecipar perdas de produção. Quanto às causas, o estudo aponta o aumento da aridez e a degradação dos solos no Norte de África, reconhecendo que as alterações climáticas poderão estar a agravar o fenómeno — embora ainda falte evidência para quantificar essa influência com precisão.

Portugal enfrenta um problema crescente que não vem do deserto a avançar, mas das partículas que ele envia. Investigadores de toda a Europa analisaram quase dezoito mil e quinhentas medições diárias recolhidas entre 2012 e 2021 em cento e três locais espalhados pelo continente, e os resultados, publicados na revista Nature, revelam um padrão preocupante: a concentração de poeira mineral do Saara na atmosfera europeia tem crescido de forma consistente, e Portugal está entre os territórios mais expostos a este fenómeno.

O que está a acontecer é simples mas significativo. O vento transporta partículas do deserto do Norte de África milhares de quilómetros até à Europa, atingindo regularmente a Península Ibérica, França, Itália, Grécia e outras regiões do Mediterrâneo. Não é o Saara que se expande fisicamente sobre o continente — é a quantidade de poeira que aumenta. No sul europeu, a concentração média de partículas PM10 de origem desértica ronda os cinco vírgula vinte e oito microgramas por metro cúbico de ar, mais do dobro dos dois vírgula zero nove microgramas medidos no centro e norte. Ao longo da década estudada, registou-se um crescimento médio anual de cerca de zero vírgula zero cinquenta e cinco microgramas por metro cúbico, o que corresponde a um aumento acumulado entre dez e vinte e cinco por cento.

Portugal, Espanha, Itália e Grécia destacam-se como os países mais afetados. As massas de ar carregadas de poeira deslocam-se frequentemente sobre o Atlântico antes de infletirem para norte, atingindo diretamente a Península Ibérica. Em Portugal, os níveis mais elevados ocorrem tipicamente durante julho e agosto. Um detalhe curioso emerge dos dados: o número de episódios de intrusão de poeira não aumentou significativamente ao longo da década. O que mudou foi a intensidade — cada episódio traz agora mais partículas do que trazia há dez anos.

Os impactos na saúde são mensuráveis e preocupantes. Durante os episódios de intrusão de poeira no sul europeu, os investigadores estimam um aumento de cerca de zero vírgula sessenta e sete por cento da mortalidade diária. Os internamentos por doenças respiratórias em pessoas com mais de quinze anos crescem zero vírgula setenta e três por cento. Nas crianças até aos catorze anos, o aumento estimado de internamentos por problemas respiratórios chega aos dois vírgula cinquenta e cinco por cento. Célia Alves, investigadora portuguesa do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro, participou neste estudo que utilizou modelos de aprendizagem automática para estimar a concentração diária de poeiras desérticas nas partículas PM10.

O problema não se limita à saúde pública. A poeira reduz a quantidade de radiação solar que atinge a superfície terrestre e acumula-se sobre os painéis fotovoltaicos, diminuindo a sua eficiência e reduzindo a produção de eletricidade. Os investigadores argumentam que previsões mais precisas destes episódios poderiam ajudar os operadores das redes elétricas e dos parques solares a antecipar perdas de produção e a melhorar a gestão da rede.

Quanto às causas, o estudo aponta o aumento da aridez e da degradação dos solos no Norte de África, bem como alterações na circulação atmosférica. Os cientistas reconhecem que as alterações climáticas induzidas pela atividade humana poderão estar a favorecer estas condições, embora sublinhem que ainda não existe evidência suficiente para quantificar com precisão a sua influência direta neste fenómeno. O que é certo é que Portugal, situado numa posição geográfica particularmente vulnerável, continuará a sentir os efeitos desta tendência crescente nos próximos anos.

O que está a aumentar é a quantidade de poeiras minerais transportadas pelo vento desde o Norte de África para o sul da Europa
— Estudo publicado na Nature
Previsões mais precisas destes episódios poderão ajudar os operadores das redes elétricas e dos parques solares a antecipar perdas de produção
— Investigadores do estudo
Contact Us FAQ