No cruzamento entre o desporto e o poder financeiro, a Polícia Judiciária portuguesa desencadeou uma vasta operação que toca os alicerces de alguns dos maiores clubes do país. A Operação Mala Ciao investiga se transferências de jogadores serviram de moeda de troca para manipular resultados, enquanto milhões de euros de origem incerta atravessaram fronteiras e balanços contabilísticos. É o momento em que o futebol, espelho de paixões coletivas, se vê confrontado com as sombras que crescem nos bastidores do negócio.
PJ recolhe documentos sobre transferências de Chiquinho e Pedro Nuno no âmbito da Operação Mala Ciao
A polícia precisava da documentação e nós demos acesso
O que é que a Académica tem a ver com isto tudo? Parece que foi apenas um ponto de passagem.
Exatamente. A Académica vendeu ou cedeu dois jogadores — Chiquinho e Pedro Nuno — para o Benfica. A PJ quer perceber se essas transferências fazem parte de um padrão maior de manipulação.
Mas a Académica não foi alvo de buscas. O vice-presidente diz que apenas forneceu documentação. Há alguma indicação de que o clube esteja envolvido nas suspeitas?
Não. O comunicado da PGR não menciona a Académica. Parece que o clube foi apenas uma fonte de informação para cruzar dados.
E estes dois jogadores — Chiquinho e Pedro Nuno — há alguma evidência de que tenham manipulado jogos?
A fonte não diz isso. Sabemos que as suas transferências estão sob investigação, mas não há acusações específicas contra eles. A suspeita é mais ampla: que as transferências foram usadas como contrapartida para manipulação.
A Operação Mala Ciao investiga um esquema onde a compra de passes pode ter servido para que jogadores perdessem encontros, ou onde clubes pagaram para que rivais vençam.
E quanto ao Sporting e aos 20 milhões de Álvaro Sobrinho?
Aí temos um período específico — 2011 a 2014 — e um montante concreto. Mas a origem desse dinheiro é o que está em questão. Branqueamento de capitais é a suspeita.
Sobrinho é um empresário angolano. A Holdimo, a sua sociedade, chegou a deter quase 30% da SAD do Sporting. A PJ quer saber de onde veio esse capital.
Isto é um escândalo enorme então?
É uma investigação. Há suspeitas graves — corrupção, fraude fiscal, branqueamento. Mas até agora o que temos são buscas e recolha de documentação. Nenhuma acusação formal foi anunciada.
El Pulso
- Numa manhã de segunda-feira, 29 buscas simultâneas abalaram as estruturas do Benfica, Sporting e Santa Clara, envolvendo agentes da PJ e da Autoridade Tributária.
- A suspeita central é grave: compras de passes de jogadores terão funcionado como contrapartidas para que resultados desportivos fossem deliberadamente manipulados.
- A Académica colaborou voluntariamente, entregando em 30 minutos a documentação sobre as transferências de Chiquinho e Pedro Nuno para o Benfica, sem ser alvo formal de buscas.
- O Sporting enfrenta um fio de investigação separado: os 20 milhões de euros investidos pelo empresário angolano Álvaro Sobrinho entre 2011 e 2014 têm origem por apurar.
- A Procuradoria-Geral da República nomeou crimes de corrupção desportiva, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais como o núcleo jurídico desta investigação.
No cruzamento entre o desporto e o poder financeiro, a Polícia Judiciária portuguesa desencadeou uma vasta operação que toca os alicerces de alguns dos maiores clubes do país. A Operação Mala Ciao investiga se transferências de jogadores serviram de moeda de troca para manipular resultados, enquanto milhões de euros de origem incerta atravessaram fronteiras e balanços contabilísticos. É o momento em que o futebol, espelho de paixões coletivas, se vê confrontado com as sombras que crescem nos bastidores do negócio.
Na manhã de segunda-feira, a Polícia Judiciária deslocou-se à Académica para consultar documentação sobre as transferências de Chiquinho e Pedro Nuno para o Benfica. O vice-presidente do clube, Afonso Pedro, confirmou ao PÚBLICO que a colaboração foi imediata e que a Académica não foi alvo de buscas: os agentes estiveram apenas 30 minutos, fotocopiaram os registos e partiram.
Pedro Nuno deixou a Académica no final de 2016 e, após passagens por empréstimo, encontra-se atualmente no Moreirense. Chiquinho seguiu caminho semelhante — vendido ao Benfica em 2018, emprestado ao Moreirense e entretanto reintegrado na Luz. Ambas as transferências estão agora sob escrutínio no âmbito da Operação Mala Ciao, que investiga se a compra de passes serviu como contrapartida para que jogadores influenciassem deliberadamente o desfecho de encontros.
A operação foi de grande envergadura: 29 buscas em instalações do Benfica, Sporting e Santa Clara, incluindo oito buscas domiciliárias, duas em escritórios de advogados e nove noutras sociedades. A Procuradoria-Geral da República identificou suspeitas de corrupção ativa e passiva no desporto, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais, a par de irregularidades no pagamento de prémios e uso indevido de fundos clubísticos.
O Sporting, que emitiu comunicado reiterando total colaboração com as autoridades, enfrenta uma linha de investigação própria: segundo a TVI, a PJ procura apurar a origem dos 20 milhões de euros que o empresário angolano Álvaro Sobrinho investiu no clube entre 2011 e 2014, através da sociedade Holdimo, que chegou a deter quase 30% da SAD leonina. É uma investigação que toca, ao mesmo tempo, o campo de jogo e os alicerces financeiros do futebol português.
A Polícia Judiciária entrou em ação na manhã de segunda-feira para recolher documentação sobre as transferências de dois jogadores da Académica para o Benfica, movimentação que se insere numa investigação mais ampla conhecida como Operação Mala Ciao. O vice-presidente da Académica, Afonso Pedro, confirmou ao PÚBLICO que as autoridades consultaram registos relativos aos negócios de Chiquinho e Pedro Nuno, mas deixou claro que o clube da Briosa não foi alvo de buscas. "Não fomos alvo de buscas. A polícia precisava da documentação e nós demos acesso à mesma. Estiveram cá 30 minutos: fotocopiaram a documentação e saíram", explicou o dirigente, sugerindo que o cruzamento de informações estava a ser feito noutros locais.
Pedro Nuno saiu da Académica no final de 2016, após duas épocas e meia no clube. Transferiu-se para o Benfica, onde foi cedido ao Tondela por empréstimo durante dois anos, e encontra-se atualmente no Moreirense. Chiquinho, por sua vez, esteve na Académica na época 2017-18, sendo depois vendido ao Benfica e emprestado ao Moreirense. Desde então regressou à Luz, onde realizou dois encontros na temporada em curso. Ambos os movimentos estão agora sob escrutínio das autoridades.
A Operação Mala Ciao investiga diversas transferências de jogadores com base numa suspeita central: a de que a compra de passes terá servido como contrapartida para que determinados jogadores perdessem certos encontros. As autoridades investigam também alegados pagamentos feitos por clubes adversários a jogadores para que estes vençam rivais, configurando um esquema de manipulação de resultados que se estende por vários clubes e períodos.
A manhã de segunda-feira foi particularmente intensa para as autoridades portuguesas. Agentes da Polícia Judiciária, em conjunto com a Autoridade Tributária, realizaram 29 buscas em instalações de Benfica, Sporting e Santa Clara. Além das buscas nas sedes das sociedades anónimas desportivas destes clubes, a operação incluiu oito buscas domiciliárias, duas em escritórios de advogados e nove noutros tipos de sociedades. A Procuradoria-Geral da República descreveu as suspeitas que motivaram a ação: "Nos inquéritos investigam-se factos susceptíveis de integrarem crimes de participação económica em negócio ou recebimento indevido de vantagem, corrupção activa e passiva no fenómeno desportivo, fraude fiscal qualificada e branqueamento."
As autoridades analisaram a transferência de vários jogadores e verificaram suspeitas de irregularidades no pagamento de prémios de jogo, uso indevido de fundos dos clubes e satisfação pessoal de dívidas de dirigentes. Enquanto a PJ operava na Luz e nos Açores, as autoridades dirigiam-se também ao estádio do Sporting, onde investigam um alegado crime de branqueamento de capitais referente ao período entre 2011 e 2014. O Sporting anunciou a operação em comunicado, reiterando total colaboração com as autoridades e congratulando-se com o esforço do Ministério Público em prol da "verdade desportiva e da transparência".
A investigação dirigida ao Sporting centra-se, segundo a TVI, no empresário angolano Álvaro Sobrinho. A Polícia Judiciária procura apurar a origem dos 20 milhões de euros que Sobrinho investiu no clube através da Holdimo, uma sociedade angolana que, no final de 2014, detinha quase 30% da SAD do Sporting. Este investimento, realizado durante um período de três anos, é agora alvo de escrutínio no contexto de uma investigação que toca os alicerces financeiros e desportivos de alguns dos maiores clubes do país.
Citas Notables
Nos inquéritos investigam-se factos susceptíveis de integrarem crimes de participação económica em negócio ou recebimento indevido de vantagem, corrupção activa e passiva no fenómeno desportivo, fraude fiscal qualificada e branqueamento— Procuradoria-Geral da República
Congratulamo-nos ainda com o esforço do Ministério Público e das autoridades competentes em prol da verdade desportiva e da transparência— Sporting CP