Desde abril registaram-se cinco ataques piratas na Somália, incluindo o desvio de um cargueiro esta quinta-feira, marcando o regresso de uma ameaça que parecia controlada desde 2012. A guerra no Irão, bloqueio do Estreito de Ormuz e distribuição de forças ocidentais criaram oportunidade, mas as raízes profundas estão em terra: instabilidade política, pesca ilegal e falta de investimento em desenvolvimento.
Piratas da Somália regressam aproveitando guerra no Irão e vácuo de segurança
Eles só estavam à espera da oportunidade certa. Estava meramente inativo.
Como é que a pirataria somali desapareceu tão completamente durante uma década?
Não desapareceu, na verdade. A infraestrutura permaneceu intacta — as redes, os contactos, o conhecimento. O que desapareceu foi a oportunidade. As missões navais internacionais criaram um custo tão elevado para operar que o negócio deixou de ser viável. Mas ninguém desmantelou a máquina. Apenas a desligou.
E agora está ligada novamente. Porquê agora, especificamente?
Porque convergiram várias coisas ao mesmo tempo. A guerra no Irão fez disparar os preços do petróleo, tornando os resgates muito mais lucrativos. Os houthis estabeleceram ligações com os piratas somali, dando-lhes acesso a tecnologia e conhecimento. E em terra, a Somália está mais frágil do que nunca — sem investimento, sem governação, sem alternativas económicas.
Os especialistas dizem que o problema foi "resolvido no mar". O que significa isso?
Significa que quando os donos de navios começaram a trazer guardas armados a bordo, os ataques diminuíram drasticamente. Mas isso apenas mudou o problema de sítio — não o resolveu. Os piratas continuaram a existir, apenas adormecidos. E ninguém investiu em resolver as razões pelas quais as pessoas se tornavam piratas em primeiro lugar.
Quais são essas razões?
Fome, principalmente. Falta de oportunidades legais. Pesca ilegal estrangeira que destruiu os meios de subsistência locais. Um governo que não funciona. Quando tudo isto se junta, a pirataria torna-se a única opção economicamente viável. Não é ideologia. É sobrevivência.
Se ninguém está a pagar resgates, porque é que os piratas continuam a atacar?
Porque estão a testar as águas. Estão a ver se conseguem. E porque, mesmo sem resgates imediatos, o negócio pode voltar a ser lucrativo se conseguirem capturar navios maiores ou mais valiosos. Uma vez que o ciclo de resgates recomeçar, tudo escala rapidamente.
O que é que impede isso de acontecer?
A presença naval sustentada. Mas essa presença está a diminuir porque os governos ocidentais estão distraídos com a guerra no Irão. E porque, quando o problema desaparece, é fácil deixar de investir nele. É um ciclo perigoso.
El Pulso
- Cinco ataques piratas registados desde abril de 2026
- Em 2011, pico de 237 ataques piratas somali
- Perdas estimadas de 18 mil milhões de dólares em 2010
- Michael Scott Moore raptado em 2012, libertado após 1,6 milhões de dólares de resgate
- Coligação internacional de 47 nações combateu pirataria desde 2008
Desde abril registaram-se cinco ataques piratas na Somália, incluindo o desvio de um cargueiro esta quinta-feira, marcando o regresso de uma ameaça que parecia controlada desde 2012. A guerra no Irão, bloqueio do Estreito de Ormuz e distribuição de forças ocidentais criaram oportunidade, mas as raízes profundas estão em terra: instabilidade política, pesca ilegal e falta de investimento em desenvolvimento.
Após mais de uma década de relativa calma, a pirataria na Somália ressurge com cinco ataques desde abril, impulsionada pela guerra no Irão, instabilidade política local e enfraquecimento das missões navais internacionais.
Uma quinta-feira, um cargueiro ao largo do Iémen recebeu um aviso por rádio: um veículo não autorizado aproximava-se. Horas depois, seis homens armados estavam a bordo. O navio foi desviado para a Somália. Foi o quinto ataque pirata registado desde abril — um número que teria parecido impossível há apenas alguns anos.
Entre 2012 e 2024, a pirataria somali tinha desaparecido do horizonte das preocupações marítimas globais. Mas não tinha desaparecido de verdade. Anja Shortland, economista política do King's College e antiga consultora do Banco Mundial, compara o fenómeno a um vulcão: "Eles só estavam à espera da oportunidade certa. Estava meramente inativo." A oportunidade chegou agora, trazida por uma convergência de fatores que nenhum deles, isoladamente, explica o regresso. Juntos, porém, criaram as condições perfeitas para que grupos armados somali voltassem ao mar.
No pico da crise, em 2011, registaram-se 237 ataques piratas. O Banco Mundial estimava perdas de 18 mil milhões de dólares para a economia mundial nesse período — um número que incluía seguros mais caros, destacamentos navais, rotas marítimas mais longas e resgates. A pirataria não era um fenómeno caótico de ataques isolados. Era uma indústria organizada, com cadeias de comando, equipas de negociação e intermediários que negociavam resgates diretamente com companhias de seguros. Os lucros eram reinvestidos na organização, criando um ciclo de crescimento. O jornalista franco-alemão Michael Scott Moore viajou para a Somália em 2012 para investigar este lado menos conhecido da pirataria. Dez dias depois, foi raptado. Passou quase três anos em cativeiro antes de ser libertado mediante um resgate de 1,6 milhões de dólares. No seu livro sobre a experiência, Moore descreveu uma infraestrutura sofisticada, bem armada e hierarquicamente organizada — muito menos romântica do que a narrativa que os próprios piratas tentavam construir.
A resposta internacional começou em 2008, quando uma coligação de forças — a Operação Escudo do Oceano da NATO, a Operação Atalanta da União Europeia, a Força Marítima Combinada de 47 nações e as autoridades somali — entrou em ação. A estratégia funcionou. A partir de 2012, os números de ataques tornaram-se marginais. Mas a coligação nunca desmantelou completamente a infraestrutura pirata. Apenas a manteve contida. Quando a pressão diminuiu, as estruturas permaneceram intactas, apenas adormecidas.
O regresso não é apenas uma questão de oportunidade geopolítica. As raízes estão em terra. A Somália enfrenta instabilidade política crónica, agravada por eleições adiadas em 2023 e reformas lentas em Mogadíscio. A pesca ilegal estrangeira nas águas somali destruiu os meios de subsistência de pescadores locais. Yusuf e Mohamed, dois pescadores ouvidos pelo think tank Crisis Group em 2024, expressavam a frustração: "Eles cortam as minhas redes e o Governo não faz nada." "Odiamos pirataria, mas os navios estrangeiros e o Governo é que a estão a criar!" A suspensão dos programas de ajuda internacional dos Estados Unidos sob a administração Trump e a redução do financiamento da ONU aprofundaram a crise económica. Christian Bueger, professor de Relações Internacionais na Universidade de Copenhaga, nota que "a supressão sustentável requer investimento em terra — nos meios de subsistência, na governação, nas instituições locais. Se isso for apagado, a dissuasão no mar torna-se mais difícil de manter."
A guerra no Irão forneceu o catalisador imediato. O bloqueio do Estreito de Ormuz fez disparar os preços do petróleo, tornando os petroleiros muito mais valiosos — e os resgates piratas muito mais lucrativos. Mas há mais. Os houthis, grupo armado com ligações ao Irão que controla a capital do Iémen, estabeleceram contactos com grupos criminosos e terroristas na região, incluindo piratas somali, trocando "conhecimentos, tecnologia e apoio." Ian Ralby, analista do Center for Maritime Strategy, sugere que esta relação explica o padrão geográfico dos ataques mais recentes, mais perto da costa do Iémen do que da Somália — uma área fora dos pontos de foco normais da missão europeia. Os piratas também conseguiram desviar navios com guardas armados, sugerindo uma organização com mais recursos militares.
Até agora, não há relatos de pagamento de resgates pelos seis navios desviados desde abril. Shortland considera isso "boas notícias": o pagamento permitiria aos grupos piratas reinvestir, reforçar a segurança dos navios e aumentar o seu raio de ação. Mas as consequências já são visíveis. Os relatos de ataques levaram a um novo aumento dos prémios de seguro. "E é uma questão de tempo para ver quanto tempo demora a afetar os preços ao consumidor," conclui Shortland, apontando para combustível, fertilizantes e, num efeito bola de neve, produtos alimentares. Os especialistas insistem que as soluções têm de passar por terra — programas de apoio, desenvolvimento social, ajuda humanitária. Mas o panorama atual oferece pouco espaço para otimismo. Os programas que funcionaram na Somália foram sendo progressivamente desfinanciados, e a saída dos Estados Unidos dos programas de ajuda internacional marcou o ponto final. "Portanto, temos imensa gente com fome a perguntar: o que fizemos da última vez que tivemos muita fome?"
Citas Notables
O problema da pirataria foi resolvido no mar, com a mudança de lei que permitiu aos donos dos navios trazer guardas armados a bordo. E, efetivamente, isso travou o apetite por políticas para resolver o problema em terra.— Anja Shortland, economista política do King's College
Odiamos pirataria, mas os navios estrangeiros e o Governo é que a estão a criar!— Mohamed, pescador somali