Ismael Nery viveu apenas 33 anos, mas deixou uma obra que desafia o tempo ao transformar o próprio corpo em território de experimentação radical. A Pinacoteca do Estado de São Paulo abre 'Armadilha Moderna', reunindo 230 trabalhos do artista paraense que, enquanto seus contemporâneos buscavam identidade nacional na natureza e nos corpos alheios, encontrava sua matéria-prima em si mesmo — tornando-se mulher, santo, demônio e arlequim numa mesma trajetória modernista. Sua obra é também uma meditação sobre a finitude: pintou seu próprio enterro antes de morrer, e deixou numa tela de 1927 uma imag
Pinacoteca abre exposição com 230 obras de Ismael Nery e seus autorretratos andróginos
Se o corpo não lhe concedeu uma vida longa, serviu como matéria-prima
Por que um pintor que viveu apenas 34 anos consegue ocupar uma exposição inteira com 230 obras? Isso não é muito material para alguém tão jovem?
Nery era obsessivo. Desenhou e pintou constantemente, testando linguagens diferentes. Mas o que torna a coleção coerente não é o volume — é que ele estava sempre explorando a mesma questão: quem ele era, ou quem poderia ser.
A exposição chama-se "Armadilha Moderna". Ninguém explica por que. É um título do próprio Nery ou uma interpretação do curador?
Ótima pergunta. O título vem do curador, Yuri Quevedo. A ideia é que a modernidade — essa liberdade de experimentar identidades, de se reinventar — é também uma armadilha. Nery não conseguia sair de si mesmo.
Ele realmente previu sua morte? Ou estamos lendo a história de trás para frente, vendo premonição onde havia apenas exploração artística?
A tuberculose o matou aos 33 anos. A tela "Composição de Mulher" de 1927 mostra um pulmão apertado, um corpo mutilado. Ele pintou isso sete anos antes de morrer. Pode ser coincidência, pode ser que ele já sentisse a doença começando.
Mas o texto diz que ele era tido como "forte, bonito e saudável". Se as pessoas ao redor dele não viam sinais de tuberculose, como ele veria na tela? Pode ser que estejamos interpretando a obra através da morte, não o contrário.
É verdade. Mas Nery também desenhou seu próprio enterro e caixão antes de morrer. Há algo de obsessivo com a mortalidade ali.
E quanto aos autorretratos andróginos? Isso era radical para 1920 e 1930 no Brasil?
Muito. Enquanto outros modernistas exploravam a natureza ou corpos indígenas, Nery se tornava mulher nas telas. Adicionava seios ao seu corpo. Misturava traços masculinos e femininos. Era uma forma de alcançar o que ele chamava de "ser essencial" — um ser humano sem diferenças de gênero.
Mas sabemos o que Nery pensava sobre isso? Ou estamos lendo através das palavras do curador? Há escritos do próprio artista explicando sua intenção?
Há a doutrina do Essencialismo que ele desenvolveu com Murilo Mendes, seu amigo poeta. Mas você está certo — a maior parte do que sabemos vem de interpretação das obras e de documentos secundários.
El Pulso
- A exposição reúne 230 obras e revela um artista que usou o autorretrato não como vaidade, mas como laboratório de identidades fluidas — masculinas, femininas, sagradas e profanas.
- Enquanto o modernismo brasileiro se voltava para paisagens e corpos indígenas, Nery provocava ao se retratar com seios, criando seres andróginos que desafiavam as categorias de gênero de sua época.
- A influência do surrealismo, absorvida após encontros com André Breton e Marc Chagall em Paris em 1927, aprofundou seu mergulho no universo onírico e na fusão de geografias como Rio de Janeiro e Paris.
- A religião atravessa toda a sua produção: Nery fundia sua imagem às de Adão, Eva e Cristo em busca de um 'ser essencial', doutrina que desenvolveu com o poeta Murilo Mendes sob o nome de Essencialismo.
- Numa tela de 1927, pintou um pulmão apertado num corpo mutilado — imagem que se tornaria premonitória quando a tuberculose o acometeu, e que confere à sua obra uma dimensão de presciência perturbadora.
- 'Armadilha Moderna' fica em cartaz na Pinacoteca até 31 de janeiro, de quarta a segunda, das 10 às 18 horas, com entrada a partir de 40 reais.
Ismael Nery viveu apenas 33 anos, mas deixou uma obra que desafia o tempo ao transformar o próprio corpo em território de experimentação radical. A Pinacoteca do Estado de São Paulo abre 'Armadilha Moderna', reunindo 230 trabalhos do artista paraense que, enquanto seus contemporâneos buscavam identidade nacional na natureza e nos corpos alheios, encontrava sua matéria-prima em si mesmo — tornando-se mulher, santo, demônio e arlequim numa mesma trajetória modernista. Sua obra é também uma meditação sobre a finitude: pintou seu próprio enterro antes de morrer, e deixou numa tela de 1927 uma imagem quase profética da tuberculose que o consumiria.
Ismael Nery morreu aos 33 anos, em 1934, mas antes disso pintou seu próprio desaparecimento. Numa tela de 1927 chamada 'Composição de Mulher', o corpo aparece mutilado, o pulmão apertado — imagem que ganharia sentido quase profético quando a tuberculose o acometeu anos depois. Se a vida foi breve, o corpo serviu como sua matéria-prima mais insistente.
Neste sábado, a Pinacoteca do Estado abre 'Armadilha Moderna', com 230 desenhos e pinturas do artista nascido em Belém em 1900. O que emerge é o retrato de um pintor que encontrou sua marca mais característica nos autorretratos — especialmente naqueles em que se retratava como mulher, acrescentando seios ao próprio corpo para criar figuras andróginas que misturavam traços masculinos e femininos. O curador Yuri Quevedo observa que, enquanto outros artistas brasileiros buscavam experimentação na natureza ou em corpos indígenas e negros, Nery encontrava sua matéria em si mesmo.
A religião orientou grande parte de sua produção. Em várias obras, ele fundia sua imagem e a de sua esposa, a escritora Adalgisa Nery, às de Adão e Eva, perseguindo um ser humano universal. Compartilhava traços do rosto com Cristo, São João Batista e figuras satânicas, numa doutrina que chamava de Essencialismo, desenvolvida com o poeta Murilo Mendes. Em 'O Testamento de Ismael Nery', separava a própria cabeça do corpo e a colocava sobre um totem — adeus visual ao ideal de homem forte que havia encarnado.
Depois de conhecer André Breton e Marc Chagall em 1927, sua obra tornou-se mais onírica e fantástica. Seus trabalhos iniciais dialogavam com o art nouveau; depois, em obras como 'Dois Irmãos', absorveu o cubismo francês sem abandonar a distinção entre figura e fundo. A exposição permanece aberta até 31 de janeiro, de quarta a segunda, das 10 às 18 horas, com entrada a partir de 40 reais.
Ismael Nery morreu aos 33 anos, em 1934, mas antes disso pintou seu próprio desaparecimento. Homem descrito por seus contemporâneos como forte, bonito e saudável, ele previu sua decadência física numa tela de 1927 chamada "Composição de Mulher", onde o corpo aparece mutilado, o pulmão apertado — uma imagem que ganharia sentido quase profético quando a tuberculose o acometeu anos depois. Se o corpo não lhe concedeu uma vida longa, serviu como sua matéria-prima mais insistente, transformado em tela após tela de experimentação radical.
Neste sábado, a Pinacoteca do Estado abre "Armadilha Moderna", uma exposição com 230 desenhos e pinturas que mapeiam a trajetória do artista nascido em Belém em 1900. O que emerge dessa coleção é o retrato de um pintor que testou linguagens visuais distintas ao longo de sua breve carreira, mas que encontrou sua marca mais característica nos autorretratos — especialmente naqueles em que se retratava como mulher. Nery também pintou a escritora Adalgisa Nery, sua esposa, e o poeta Murilo Mendes, seu amigo próximo, mas foi a sua própria imagem que explorou com maior liberdade e insistência.
Nas telas, o rosto de Nery assume expressões hostis, sensuais ou sérias. De forma recorrente, ele acrescentava seios ao seu corpo para criar um ser andrógino, uma figura que misturava traços masculinos e femininos numa síntese visual que desafiava as categorias de gênero. Essa capacidade de assumir múltiplas identidades — de se tornar mulher numa pintura, toureiro em outra, arlequim em uma terceira — constitui boa parte do que o define como modernista. Yuri Quevedo, curador da exposição, observa que enquanto outros artistas brasileiros da época buscavam experimentação na natureza ou nos corpos indígenas e negros, Nery encontrava sua matéria de trabalho em si mesmo, transformando-se.
A religião orientou grande parte da produção de Nery. Em várias obras, ele fundia sua imagem e a de Adalgisa às de Adão e Eva, buscando chegar a um ser humano universal, sem diferenças de gênero, idade, lugar ou época. Compartilhava traços do rosto com Jesus Cristo, São João Batista e até figuras satânicas, perseguindo o que chamava de "ser essencial" ou "cristão essencial" — uma doutrina oral desenvolvida por ele e por Murilo Mendes sob o nome de Essencialismo. Numa obra intitulada "O Testamento de Ismael Nery", ele separava sua própria cabeça do corpo e a colocava sobre um totem, dando adeus visual ao ideal de homem forte e saudável que havia encarnado. Em outros trabalhos do final de sua vida, desenhou seu próprio enterro e caixão.
A influência do surrealismo marca um ponto de inflexão em sua obra. Depois de conhecer André Breton, autor do manifesto surrealista, e o pintor francês Marc Chagall em 1927, a produção de Nery tornou-se mais ligada a um universo onírico de sonhos e fantasia. Suas referências geográficas também evoluíram: embora nascido em Belém, o Rio de Janeiro e Paris aparecem recorrentemente em suas pinturas. Numa obra chamada "Autorretrato Rio/Paris", o artista aponta para uma mulher negra que aparece sambando, conectando identidades e geografias.
Os trabalhos iniciais mostram corpos alongados em silhuetas de cintura pouco marcada, vestidos em longos decotes amplos, como personagens saídos do estilo art nouveau das revistas da belle époque. Já em obras como "Dois Irmãos", Nery dialoga com o cubismo francês, adotando a geometrização dos corpos, embora mantenha bem definida a divisão entre figura e fundo — uma escolha que o diferencia da dissolução total que o cubismo europeu perseguia.
A exposição funciona como um registro visual de uma mente em movimento constante, um artista que usava seu próprio corpo como laboratório para questões de identidade, gênero, religião e mortalidade. Que Nery tenha previsto sua própria morte na tela, que tenha pintado seu enterro antes de morrer, que tenha se retratado como mulher, como santo, como demônio — tudo isso aponta para um artista que não separava vida e obra, que via a pintura como espaço onde as identidades podiam ser fluidas, múltiplas, essenciais. A Pinacoteca permanece aberta de quarta a segunda, das 10 às 18 horas, até 31 de janeiro, com entrada a partir de 40 reais.
Citas Notables
Enquanto outros artistas brasileiros da época tinham a natureza ou os corpos indígenas e negros como fonte de experimentação, ele se tornava mulher, toureiro ou arlequim— Yuri Quevedo, curador da exposição