Seis anos após o assassinato da vereadora Marielle Franco, a Procuradoria-Geral da República apresentou acusação formal contra o Major Ronald e o delegado Rivaldo Barbosa, sustentando que agentes públicos monitoraram deliberadamente a rotina da parlamentar para identificar o momento e o lugar de sua morte. O caso revela, mais uma vez, como a busca por justiça em crimes que envolvem o próprio Estado pode tornar-se um campo de disputas não apenas sobre os fatos, mas sobre os procedimentos que dão legitimidade à verdade.
PGR diz que Major Ronald ajudou a definir data e local do atentado contra Marielle
Um delegado com vinte anos de carreira não teve chance de contar sua versão
Como a PGR conseguiu conectar o Major Ronald ao monitoramento das redes sociais de Marielle?
Através do depoimento de Ronnie Lessa, que confessou participação no crime. Lessa forneceu informações sobre como a data e o local foram escolhidos, e a PGR usou isso para argumentar que Ronald identificou a oportunidade ao acompanhar as atividades de Marielle nas redes.
E por que o local específico — a Região Central — importava tanto?
Porque ficava longe da Câmara Municipal, o que segundo a investigação era uma exigência do delegado Rivaldo Barbosa. Um lugar distante significava menos vigilância, menos testemunhas conhecidas, mais controle sobre a situação.
A defesa de Rivaldo levanta questões sobre o timing. O que exatamente a preocupa?
Que a denúncia foi apresentada no dia 7, mas quando a defesa protocolou o pedido de revogação da prisão no dia 8, nenhuma peça da PGR estava nos autos. Sugere que algo não segue a ordem processual esperada.
Mas a questão mais fundamental não é se Rivaldo foi ouvido antes?
Exatamente. O STF determinou que investigados fossem interrogados logo após a prisão. Rivaldo nunca foi ouvido antes de ser denunciado. Um delegado com vinte anos de carreira não teve chance de contar sua versão.
Como a defesa vê o peso dado ao depoimento de Lessa?
Como desproporcional. Um homem condenado por homicídio está sendo tratado como fonte mais confiável do que a possibilidade de ouvir um policial experiente que poderia refutar as acusações. É uma inversão que a defesa considera injusta.
O Pulso
- A PGR afirma que o Major Ronald rastreou as redes sociais de Marielle Franco e comunicou ao delegado Rivaldo Barbosa que ela estaria vulnerável na Região Central do Rio em 14 de março de 2018 — o dia em que foi assassinada.
- A acusação depende fortemente do depoimento de Ronnie Lessa, réu confesso, o que a defesa considera uma base frágil e assimétrica para incriminar um delegado com mais de vinte anos de carreira.
- Os advogados de Rivaldo Barbosa denunciam uma irregularidade grave: o STF havia determinado que os investigados fossem ouvidos após suas prisões, mas essa ordem não foi cumprida antes da apresentação da denúncia.
- A defesa também questiona a cronologia dos documentos, sugerindo que a denúncia pode ter sido protocolada de forma irregular, sem constar nos autos no momento em que deveria.
- Enquanto a PGR sustenta uma narrativa de planejamento coordenado entre agentes do Estado, as defesas prometem resposta ao mérito apenas após acesso integral à denúncia completa.
Seis anos após o assassinato da vereadora Marielle Franco, a Procuradoria-Geral da República apresentou acusação formal contra o Major Ronald e o delegado Rivaldo Barbosa, sustentando que agentes públicos monitoraram deliberadamente a rotina da parlamentar para identificar o momento e o lugar de sua morte. O caso revela, mais uma vez, como a busca por justiça em crimes que envolvem o próprio Estado pode tornar-se um campo de disputas não apenas sobre os fatos, mas sobre os procedimentos que dão legitimidade à verdade.
Em maio de 2024, a Procuradoria-Geral da República formalizou acusações que apontam para um planejamento deliberado no assassinato da vereadora Marielle Franco, morta em 14 de março de 2018. Segundo a PGR, o Major Ronald monitorou as redes sociais da parlamentar e identificou que ela compareceria a um evento na Região Central do Rio naquele dia — informação que teria sido repassada ao delegado Rivaldo Barbosa como uma oportunidade para o crime, escolhida justamente por sua distância da Câmara Municipal.
A narrativa da acusação é sustentada em grande parte pelo depoimento de Ronnie Lessa, um dos réus confessos no caso. Para a PGR, o monitoramento das redes sociais não foi coincidência, mas parte de uma estratégia para localizar o momento em que a vereadora estaria mais vulnerável.
A defesa de Rivaldo Barbosa, no entanto, contestou tanto o mérito quanto o procedimento. Os advogados Marcelo Ferreira e Felipe Dalleprane apontaram que o STF havia determinado que os investigados fossem ouvidos logo após suas prisões — ordem que não foi cumprida. Barbosa, delegado com mais de duas décadas na segurança pública fluminense, não teve chance de apresentar sua versão antes de ser formalmente acusado. A defesa também levantou dúvidas sobre a cronologia dos documentos, sugerindo irregularidades no momento em que a denúncia foi protocolada.
Os advogados destacaram ainda o que consideram uma assimetria preocupante: o peso dado ao testemunho de um condenado por homicídio em detrimento da possibilidade de ouvir o próprio acusado. Sem acesso integral à denúncia, a defesa reservou seu posicionamento sobre o mérito para um momento posterior. O assassinato de Marielle Franco, que abalou o Rio de Janeiro seis anos antes, seguia gerando disputas sobre como o Estado deve processar acusações contra aqueles que, segundo as investigações, podem ter agido dentro dele.
Em maio de 2024, a Procuradoria-Geral da República apresentou uma acusação que traça um caminho específico para o assassinato da vereadora Marielle Franco, ocorrido em 14 de março de 2018. Segundo a PGR, o Major Ronald monitorou as redes sociais de Marielle e identificou que ela compareceria a um evento na Região Central do Rio naquele dia — uma oportunidade que, conforme a investigação, foi comunicada ao delegado Rivaldo Barbosa como o local ideal para o crime, justamente por ficar distante da Câmara Municipal.
A acusação repousa em grande medida no depoimento de Ronnie Lessa, um dos réus confessos no caso. Lessa forneceu informações que a PGR utilizou para construir a narrativa de que houve um planejamento deliberado, com agentes públicos identificando e comunicando o momento e o lugar onde a vereadora seria vulnerável. O monitoramento das redes sociais, nessa versão, não foi casual — foi parte de uma estratégia para localizar uma janela de oportunidade.
Mas a defesa de Rivaldo Barbosa contestou vigorosamente o procedimento adotado pela PGR. Os advogados Marcelo Ferreira e Felipe Dalleprane apontaram uma incongruência temporal: a denúncia teria sido apresentada em 7 de maio, mas eles já haviam protocolado um pedido de revogação da prisão preventiva do delegado no dia 8 — e nenhuma peça da PGR constava nos autos naquele momento. Para a defesa, isso sugere irregularidades no processo.
Mais grave ainda, segundo os advogados, é o fato de que nenhum dos investigados foi ouvido antes da apresentação da denúncia. O Supremo Tribunal Federal havia determinado que os investigados fossem interrogados logo após suas prisões, mas essa ordem não foi cumprida. Rivaldo Barbosa, um delegado com mais de vinte anos de carreira na segurança pública do Rio de Janeiro, não teve oportunidade de apresentar sua versão dos fatos antes de ser formalmente acusado.
A defesa também ressaltou uma assimetria que considera problemática: o depoimento de um homem condenado por homicídio parece estar recebendo mais peso na acusação do que a possibilidade de ouvir um policial experiente que poderia contestar as alegações. Ferreira e Dalleprane deixaram claro que não se posicionariam sobre o mérito das acusações naquele momento, aguardando acesso completo ao teor da denúncia para uma resposta fundamentada.
O caso permanecia em movimento, com a PGR sustentando uma narrativa de planejamento coordenado entre agentes públicos, enquanto a defesa questionava tanto a metodologia investigativa quanto a ordem processual adotada. O assassinato de Marielle Franco, que chocou o Rio de Janeiro seis anos antes, continuava gerando disputas sobre como a justiça deveria processar as acusações contra aqueles apontados como responsáveis.
Citações Notáveis
A narrativa de um réu confesso de homicídio parece mais importante do que o depoimento de um delegado de polícia com mais de 20 anos de excelentes serviços à segurança pública— Advogados de Rivaldo Barbosa, Marcelo Ferreira e Felipe Dalleprane