O Rioprevidência perdeu R$ 481,4 milhões no fundo Revolution, que oferecia remuneração de até 180% do CDI, considerada taxa economicamente anômala pela PGE. No Texas I FIA, aplicação de R$ 150 milhões desvalorizou para R$ 14,8 milhões após concentração de 96% em ações da Ambipar durante controvérsia regulatória.
PGE-RJ ajuíza três ações contra Master por perdas de R$ 641 mi do Rioprevidência
O Rioprevidência foi vítima de uma armadilha arquitetada pela administração
Por que a PGE decidiu agir agora, meses depois que o Master foi liquidado?
Porque os números ficaram claros apenas quando começaram a examinar os fundos em detalhe. O Texas I FIA perdeu 90% do valor — isso não é volatilidade normal, é destruição de valor. E a concentração de 96% em uma única ação durante uma controvérsia regulatória levanta questões óbvias sobre gestão.
A taxa de 180% do CDI no Revolution — por que isso é tão suspeito?
Porque é fora da realidade. O CDI é a taxa básica de juros. Oferecer 180% dela significa retornos extraordinários. Ou o fundo estava tomando riscos imensuráveis, ou havia algo errado na precificação. A PGE suspeita da segunda opção.
E essa compra coordenada de ações da Ambipar — como funciona?
Vários fundos compram a mesma ação simultaneamente, em grande volume, para inflar artificialmente o preço. Depois vendem. Quem fica com o prejuízo são os cotistas que compraram quotas baseadas nesse preço inflado. O Rioprevidência foi um desses cotistas.
O que significa a carteira estar "sob sigilo"?
Significa que ninguém sabe exatamente o que o fundo possui. Não há transparência. Quando um fundo de pensão investe em algo assim, está basicamente assinando um cheque em branco.
A Operação Carbono Oculto — isso está conectado?
A Trustee DTVM, que gerenciou o Texas I, está sendo investigada pela PF nessa operação. Não sabemos os detalhes ainda, mas sugere um padrão de comportamento questionável.
Qual é o cenário mais provável agora?
A PGE consegue bloquear o resgate de R$ 481 milhões do Revolution para evitar que desapareça, e tenta recuperar o máximo possível. No Texas I, o dano já está feito — R$ 150 milhões viraram R$ 14,8 milhões. A questão é se conseguem responsabilizar os gestores e recuperar algo.
The Pulse
- R$ 641,4 milhões em perdas totais do Rioprevidência em dois fundos da Master
- R$ 481,4 milhões aplicados no Revolution, com taxa de até 180% do CDI
- R$ 150 milhões desvalorizados para R$ 14,8 milhões no Texas I FIA
- 96% da carteira do Texas I concentrada em ações da Ambipar durante controvérsia regulatória
- Três ações judiciais protocoladas em 16 de julho de 2026
O Rioprevidência perdeu R$ 481,4 milhões no fundo Revolution, que oferecia remuneração de até 180% do CDI, considerada taxa economicamente anômala pela PGE. No Texas I FIA, aplicação de R$ 150 milhões desvalorizou para R$ 14,8 milhões após concentração de 96% em ações da Ambipar durante controvérsia regulatória.
A Procuradoria-Geral do Estado do Rio ajuizou três ações contra a Master Corretora e gestoras de fundos para apurar perdas de R$ 641,4 milhões do Rioprevidência em investimentos nos fundos Revolution e Texas I FIA.
Na quinta-feira 16 de julho, a Procuradoria-Geral do Estado do Rio de Janeiro acionou a Justiça com três processos contra a Master Corretora e suas gestoras de fundos, buscando recuperar R$ 641,4 milhões desaparecidos dos cofres do Rioprevidência — o fundo de pensão dos servidores públicos estaduais. O dinheiro havia sido investido em dois fundos administrados pelo conglomerado Master, que foi liquidado pelo Banco Central: o Revolution e o Texas I FIA. O que começou como uma aplicação de recursos para garantir aposentadorias virou um caso de possível manipulação de mercado e gestão temerária.
No fundo Revolution, o Rioprevidência colocou R$ 481,4 milhões. O fundo, que hoje tem patrimônio de R$ 567,8 milhões, opera com sigilo total e investe principalmente em crédito privado, oferecendo retornos de até 180% do CDI — uma taxa que os procuradores descrevem como economicamente anômala, fora dos padrões normais de mercado. Além disso, a gestora do Revolution votou a favor de mudanças no regulamento de um fundo investido que prejudicaram diretamente os cotistas, incluindo a renúncia a direitos de voto e o aumento de 48 meses no prazo de amortização do investimento. O Rioprevidência detém 10,7% desse fundo afetado.
Mas o caso do Texas I FIA é ainda mais grave. O fundo recebeu R$ 150 milhões do Rioprevidência e hoje vale apenas R$ 14,8 milhões — uma destruição de valor de mais de 90%. A razão é simples e preocupante: o Texas I FIA concentrou 96% de sua carteira em ações da Ambipar, uma empresa que enfrentava controvérsia regulatória na CVM, e manteve essa concentração extrema mesmo quando os sinais de alerta acenderam. A procuradoria alega que entre julho e agosto de 2024, a gestora Trustee DTVM — também investigada pela Polícia Federal na Operação Carbono Oculto — comprou massivamente ações da Ambipar por meio de vários fundos, inflando artificialmente o preço do papel. O Rioprevidência, segundo a petição, foi vítima de uma armadilha: recebeu quotas de um fundo lastreado em uma ação sem fundamento econômico real.
A falta de transparência agrava tudo. O sistema da CVM não registra informações sobre o Texas I FIA há pelo menos 360 dias. A carteira se tornou invisível, impossível de precificar com segurança. Essa assimetria de informações prejudica não apenas a recuperação do prejuízo, mas também a própria compreensão do que realmente aconteceu com o dinheiro dos servidores.
A PGE pediu medidas cautelares urgentes. Uma delas busca impedir que o Master bloqueie o resgate de R$ 481 milhões que o Rioprevidência solicitou, com prazo de pagamento marcado para 17 de agosto. Outra pede o arresto de bens da gestora do Revolution e de seus diretores. Para o caso do Texas I, a procuradoria quer tornar indisponíveis os bens da gestora Axor, da Trustee DTVM e dos diretores Alexandre Marchesani Canata e Felipe Mota Separovic Rodrigues, além de exigir uma auditoria independente sobre a situação do fundo. A terceira ação é um pedido de exibição de documentos que tramitam em segredo de Justiça, tentando quebrar o sigilo que envolve essas operações.
O que está em jogo vai além dos números. Servidores públicos estaduais do Rio confiaram seus recursos previdenciários a instituições que, segundo a procuradoria, operaram com práticas questionáveis e falta de transparência. A segurança financeira de suas aposentadorias foi comprometida. Os próximos meses dirão se a Justiça conseguirá recuperar parte desses recursos e se as responsabilidades serão apuradas.
Notable Quotes
O Rioprevidência foi vítima de uma armadilha arquitetada pela administração e pela gestão do Texas I FIA, que vendeu ao ente público quotas de um fundo lastreado em uma ação desprovida de fundamento— Procuradoria-Geral do Estado do Rio de Janeiro
Essa assimetria de informações persiste até hoje, após a carteira do Fundo Texas I FIA ter se tornado invisível, o que prejudica sobremaneira a própria precificação segura do prejuízo experimentado pelo Estado— Procuradores da PGE-RJ