Em janeiro de 2025, às margens do Lago de Zurique, três homens se reuniram para discutir o destino de dois bancos — e, possivelmente, o de um governador. A Polícia Federal documentou que Ibaneis Rocha, então à frente do Distrito Federal, foi quem solicitou o encontro que selou as negociações entre o BRB e o Banco Master, instituição privada controlada por Daniel Vorcaro. O que está em julgamento não é apenas uma operação financeira, mas a fronteira sempre tênue entre o exercício legítimo do poder público e a instrumentalização de instituições do Estado em favor de interesses privados.
PF revela que negociação do Master pelo BRB começou em reunião na Suíça com Ibaneis
A história toda que vamos contar em três meses
Por que essa reunião em Zurique é importante? Parece uma conversa de negócios normal.
Porque a PF está investigando se Ibaneis, como governador, interferiu nas decisões de um banco público. Se ele solicitou a reunião e depois o banco comprou o Master, isso levanta questões sobre conflito de interesse.
Mas a defesa dele tem um ponto: as mensagens não mostram Ibaneis como interlocutor direto com Vorcaro. Ele pediu a reunião, sim, mas isso é interferência ou apenas governança institucional?
E quanto ao planejamento que começou em outubro? Isso não sugere que tudo já estava decidido?
Exatamente. As mensagens de Costa em outubro já mencionavam integração com o Master e como contar "a história" da consolidação. Isso indica que a aquisição era objetivo antes da reunião na Suíça.
Verdade, mas "preparar a história" pode significar muitas coisas. Pode ser planejamento legítimo ou pode ser algo mais. O relatório da PF sugere uma coisa, mas não prova.
Então o que a investigação precisa mostrar para caracterizar interferência?
Precisaria de evidência de que Ibaneis pressionou Costa a fazer algo contra os interesses do banco, ou que usou sua posição de governador para favorecer a operação.
E até agora não há isso nos documentos que conhecemos. Há contexto, há participação, há uma reunião solicitada. Mas pressão direta? Ainda não sabemos.
A defesa dele parece estar ganhando esse argumento.
Por enquanto, sim. Mas a investigação ainda está em andamento. Mais mensagens podem aparecer.
O Pulso
- A PF revelou que o planejamento da aquisição do Master pelo BRB começou em outubro de 2024 — meses antes de qualquer ato formal —, sugerindo uma operação orquestrada com antecedência.
- Mensagens recuperadas dos celulares dos envolvidos indicam que foi o próprio Ibaneis Rocha quem pediu para agendar a reunião em Zurique, colocando-o no centro da trama investigativa.
- O relatório enviado ao STF aponta que decisões estratégicas do BRB, banco público controlado pelo GDF, passavam pelo crivo prévio do então governador — o que acende o alerta sobre uso indevido de cargo público.
- A defesa de Ibaneis rebate com vigor: afirma que o presidente do BRB tinha autonomia plena e que o ex-governador não aparece como interlocutor direto nas mensagens com Vorcaro.
- A investigação permanece aberta no STF, e a pergunta que orienta os próximos passos é precisa e grave: um governador usou um banco público para favorecer interesses privados?
Em janeiro de 2025, às margens do Lago de Zurique, três homens se reuniram para discutir o destino de dois bancos — e, possivelmente, o de um governador. A Polícia Federal documentou que Ibaneis Rocha, então à frente do Distrito Federal, foi quem solicitou o encontro que selou as negociações entre o BRB e o Banco Master, instituição privada controlada por Daniel Vorcaro. O que está em julgamento não é apenas uma operação financeira, mas a fronteira sempre tênue entre o exercício legítimo do poder público e a instrumentalização de instituições do Estado em favor de interesses privados.
A Polícia Federal reconstruiu o caminho que levou à tentativa de compra do Banco Master pelo BRB e encontrou seu ponto de partida em Zurique. No dia 23 de janeiro de 2025, Ibaneis Rocha, então governador do Distrito Federal, sentou-se com Paulo Henrique Costa, presidente do BRB, e Daniel Vorcaro, controlador do Master, para discutir a operação. Uma quarta pessoa, identificada como Leonardo, também estava presente. Três dias antes do encontro, Costa já havia avisado Vorcaro: foi o próprio governador quem pediu para marcar a conversa.
Mas os investigadores encontraram rastros ainda mais antigos. Em outubro de 2024, o BRB lançou ações no mercado para captar até R$ 1 bilhão — e Costa já articulava, em mensagens privadas, uma estratégia de integração com o Master. Em uma delas, escreveu sobre a necessidade de preparar 'a história toda que vamos contar em três meses da consolidação e do novo banco'. Para a PF, isso indica que a aquisição estava sendo planejada muito antes de qualquer formalidade.
O relatório enviado ao STF vai além da reunião em Zurique. Ele descreve um padrão: decisões estratégicas do BRB — aumento de capital, expansão, articulação com agentes privados — passavam pela análise prévia de Ibaneis. É esse envolvimento sistemático que os investigadores querem compreender. Até onde vai o papel institucional de um governador sobre um banco público que ele controla, e onde começa a interferência indevida?
A defesa de Ibaneis não recuou. Em nota, seus advogados afirmaram que o relatório da PF confirma o que sempre disseram: Costa tinha autonomia total para conduzir as negociações, e o ex-governador não aparece como interlocutor direto nas mensagens com Vorcaro. O contato, argumentam, foi estritamente institucional. A investigação, porém, segue seu curso no STF — e a resposta sobre o papel real de Ibaneis nessa operação ainda está por vir.
A Polícia Federal documentou que as negociações para a compra do Banco Master pelo Banco Regional de Brasília começaram em uma reunião realizada em Zurique, na Suíça, no dia 23 de janeiro de 2025. O encontro reuniu três personagens centrais: Ibaneis Rocha, então governador do Distrito Federal; Paulo Henrique Costa, presidente do BRB na época; e Daniel Vorcaro, ex-banqueiro que controlava o Master. Uma quarta pessoa, identificada apenas como Leonardo, também esteve presente. Segundo mensagens recuperadas dos celulares de Costa e Vorcaro, foi o próprio Ibaneis quem solicitou o agendamento da reunião. Três dias antes do encontro, em 20 de janeiro, Costa informou a Vorcaro que o governador havia pedido para marcar a conversa.
O que torna essa reunião significativa para os investigadores é o que ela representa no cronograma da operação. Os documentos da PF indicam que o planejamento da aquisição começou meses antes, em outubro de 2024, quando o BRB colocou ações no mercado com objetivo de captar até R$ 1 bilhão e aumentar seu capital social. Naquele período, Paulo Henrique Costa já conversava sobre uma estratégia de integração com o Master. Em uma mensagem, o então presidente do banco escreveu que seria necessário preparar "a história toda que vamos contar em três meses da consolidação e do novo banco". Para os investigadores, essas conversas sugerem que a aquisição e a integração das duas instituições já estavam sendo planejadas antes de qualquer ato formal da negociação.
A investigação da PF também examina o papel de Ibaneis na condução do BRB, instituição pública controlada pelo governo do Distrito Federal. Segundo o relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal, decisões estratégicas do banco passavam pela análise prévia do então governador. Os investigadores afirmam que ele atuou em questões relacionadas ao aumento de capital, à estratégia de expansão e à articulação com agentes privados envolvidos na operação. Essa participação é o cerne da investigação: até que ponto Ibaneis interferiu nas decisões de um banco público?
A defesa de Ibaneis respondeu rapidamente aos achados da PF. Os advogados do ex-governador afirmaram que o relatório da Polícia Federal confirma a posição que apresentaram desde o início da investigação. Negaram categoricamente que Ibaneis tenha pressionado o BRB ou interferido nas negociações. Em nota oficial, a defesa declarou que Paulo Henrique Costa tinha autonomia total para conduzir as tratativas em nome do banco. Também argumentaram que o contato entre Ibaneis e os dirigentes do BRB ocorreu em contexto institucional e que o ex-governador não aparece como interlocutor direto nas mensagens trocadas com Vorcaro.
O relatório da PF foi enviado ao STF como parte das investigações sobre a tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB. A questão central permanece em aberto: se as conversas e o planejamento começaram meses antes da reunião em Zurique, e se Ibaneis solicitou pessoalmente o encontro, qual era exatamente sua função nessa operação? A defesa sustenta que ele apenas cumpria seu papel institucional como governador. Os investigadores parecem sugerir algo mais complexo. O próximo passo da investigação dirá se há evidência de que um governador usou sua posição para influenciar decisões de um banco público em benefício de interesses privados.
Citações Notáveis
A defesa de Ibaneis negou que o ex-governador tenha pressionado o BRB ou interferido nas negociações, afirmando que Paulo Henrique Costa tinha autonomia para conduzir as tratativas em nome do banco.— Defesa de Ibaneis Rocha