PF detalha em relatório de 72 páginas que Ibaneis autorizou aumentos de capital, definiu estratégia de expansão e validou decisões operacionais críticas do BRB. Investigadores apontam que fundos vinculados a Daniel Vorcaro entraram de forma dissimulada no quadro acionário do BRB, contornando mecanismos de controle.
PF relata interferência de Ibaneis nas negociações do BRB com Banco Master
Decisões estratégicas passavam pela análise prévia de Ibaneis, antes mesmo de deliberação formal
Por que a PF considera isso interferência e não apenas supervisão legítima de um acionista controlador?
A questão é que a PF encontrou evidências de que decisões estratégicas passavam por Ibaneis antes de serem formalmente deliberadas pelos órgãos de governança. Não é supervisão — é centralização de poder que contorna os mecanismos institucionais.
Mas a defesa tem um ponto: o relatório não mostra mensagens diretas entre Ibaneis e Vorcaro. Tudo passa por Paulo Henrique. Isso enfraquece a acusação de interferência direta?
Sim, é verdade. A comunicação é indireta. Mas a PF argumenta que a reunião em Zurique é o ponto de virada — ali os três estavam juntos, e depois as coisas começaram a se mover.
E quanto aos bilhões em operações? A PF diz que o BRB começou a comprar ativos do próprio Master depois que o Master entrou no quadro acionário. Isso não é circular demais para ser acidental?
É suspeito, sim. Mas "suspeito" não é "provado". A PF chama de fraude documental e captura institucional, mas o relatório mostra análise e interpretação, não necessariamente crime consumado.
O ponto é que a PF está dizendo: olhem a sequência. Primeiro capitalizam o BRB com um bilhão. Depois o Master entra como acionista. Depois o BRB compra bilhões em ativos do Master. Isso não parece planejado?
A defesa diz que Ibaneis é mencionado apenas quatro vezes no relatório de 72 páginas. Isso não sugere que ele pode estar sendo responsabilizado por algo que não fez?
Ou sugere que a PF foi cuidadosa em não nomear diretamente o que não pode provar com mensagens dele. Mas a ausência de mensagens diretas dele também pode significar que ele foi cuidadoso.
Exatamente. O silêncio dele nas comunicações pode ser tão revelador quanto a presença. Se você quer interferir sem deixar rastro, você fala com o presidente do banco, não com o investidor privado.
El Pulso
- Relatório da PF com 72 páginas enviado ao STF em setembro de 2026
- Duas capitalizações do BRB somaram mais de R$ 1 bilhão (R$ 750 milhões em 2024 e R$ 294 milhões em 2025)
- Reunião em Zurique em 23 de janeiro de 2025 com Ibaneis, Vorcaro e Paulo Henrique Costa
- BRB adquiriu bilhões em ativos do Banco Master após entrada do Master no quadro acionário
PF detalha em relatório de 72 páginas que Ibaneis autorizou aumentos de capital, definiu estratégia de expansão e validou decisões operacionais críticas do BRB. Investigadores apontam que fundos vinculados a Daniel Vorcaro entraram de forma dissimulada no quadro acionário do BRB, contornando mecanismos de controle.
Relatório da Polícia Federal enviado ao STF afirma que Ibaneis Rocha interferiu diretamente nas operações do BRB e negociações para compra do Banco Master. Defesa nega ingerência e afirma autonomia do ex-presidente do banco.
A Polícia Federal apresentou um relatório de 72 páginas ao Supremo Tribunal Federal descrevendo o que caracteriza como interferência direta de Ibaneis Rocha nas operações do Banco de Brasília e nas negociações para a compra do Banco Master. O documento, encaminhado ao ministro André Mendonça em inquérito que se tornou público em setembro, detalha como o então governador do Distrito Federal — acionista controlador do banco público — teria atuado para autorizar aumentos de capital, definir estratégia de expansão, validar decisões operacionais críticas e articular com agentes privados envolvidos na operação.
Segundo a investigação, decisões estratégicas relevantes do BRB eram submetidas à apreciação prévia de Ibaneis antes mesmo de deliberação pelos órgãos formais de governança. A PF conclui que essa dinâmica evidencia centralização decisória e interferência política direta na condução da instituição financeira pública, em prejuízo aos princípios de impessoalidade, moralidade e interesse público. O relatório argumenta que a participação direta de Ibaneis pavimentou o caminho para a entrada de recursos do ecossistema do Master no BRB através de duas capitalizações aprovadas pelo governo do Distrito Federal que somaram mais de um bilhão de reais — 750 milhões em 2024 e 294 milhões em 2025.
Os investigadores apontam que os aportes não foram apenas medidas para fortalecer o banco, mas uma etapa para permitir que o BRB absorvesse ativos financeiros do próprio Banco Master. Segundo a PF, fundos vinculados a Daniel Vorcaro teriam ingressado de forma dissimulada no quadro acionário do BRB, contornando mecanismos de controle e ocultando a real influência e titularidade dos investimentos privados na instituição estatal. Após esse ingresso indireto do grupo Master na base acionária, o BRB passou a adquirir em volume expressivo carteiras de crédito, instrumentos estruturados e outros ativos originados do próprio grupo investidor, totalizando bilhões de reais em operações concentradas em curto intervalo temporal. A PF descreve essa dinâmica como circularidade econômica e dependência financeira artificialmente construída, criando incentivo direto para internalização de ativos de maior risco.
Mensagens analisadas pela PF mostram que Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, discutia em outubro de 2024 uma estratégia de integração com o Master, escrevendo que seria preciso preparar "a história toda que vamos contar em três meses da consolidação e do novo banco". Os investigadores avaliam que a aquisição e integração do Master já estavam definidas no plano estratégico, enquanto atos formais e regulatórios viriam depois. Um marco inicial das tratativas, segundo a PF, foi uma reunião em Zurique, na Suíça, em 23 de janeiro de 2025, com a presença de Ibaneis, Vorcaro, Paulo Henrique e uma pessoa identificada apenas como Leonardo. Mensagens extraídas dos celulares indicam que Paulo Henrique marcou o encontro dias antes, escrevendo em 20 de janeiro: "O Governador pediu para marcarmos uma reunião".
Três dias após o encontro na Suíça, Vorcaro enviou a Paulo Henrique uma pergunta do jornalista Lauro Jardim sobre uma possível sociedade entre BRB e Master. O então presidente do BRB respondeu: "Não ampliamos em nada o escopo das pessoas envolvidas no deal". As conclusões da Polícia Federal apontam para fraude documental, manipulação de garantias, subversão dos mecanismos de controle interno e captura institucional.
A defesa de Ibaneis respondeu afirmando que recebeu "com tranquilidade" o relatório e que o documento corrobora sua tese de que o ex-governador "não pressionou e tampouco teve qualquer ingerência" nas operações do BRB. Os advogados sustentam que o ex-presidente do banco detinha total autonomia para condução das negociações em nome da instituição financeira e que o contato com Ibaneis se deu em contexto natural, institucional e republicano, considerando os cargos ocupados por ambos. A defesa também ressalta que o próprio relatório demonstra que Ibaneis Rocha não é interlocutor direto em nenhuma mensagem com Daniel Vorcaro e que seu nome é mencionado pela Polícia Federal em apenas quatro oportunidades, o que segundo os advogados não permite imputar qualquer responsabilidade ao ex-governador.
Citas Notables
O Governador pediu para marcarmos uma reunião— Paulo Henrique Costa, em mensagem de 20 de janeiro de 2025
Não ampliamos em nada o escopo das pessoas envolvidas no deal— Paulo Henrique Costa, respondendo a pergunta sobre possível sociedade entre BRB e Master