PF investiga desvio de dinheiro público para filme sobre Bolsonaro; Mario Frias é alvo

Transferências que não batem com o salário de um deputado
A polícia questiona como Frias transferiu R$ 645 mil em dois meses com rendimentos mensais de R$ 44 mil.
Mark

Como a polícia conecta essas empresas e transferências? Parece um caminho bem indireto.

Mimi

É exatamente isso. Frias manda R$ 2 milhões para a ONG de Karina, que depois passa R$ 700 mil para empresas de um fornecedor dela. Meses depois, uma terceira empresa do mesmo fornecedor repassa R$ 750 mil à produtora do filme. A polícia diz que as datas e valores coincidem demais para ser coincidência.

Luke

Mas a PF admite no documento que não consegue afirmar a origem direta desses R$ 750 mil. Isso é importante. Eles estão apontando "circunstâncias relevantes", não prova de desvio.

Mark

E quanto ao dinheiro que Frias transferiu diretamente à produtora? R$ 645 mil em dois meses?

Mimi

Aí sim a polícia tem um argumento mais forte. O salário dele é R$ 44 mil por mês. Transferir R$ 645 mil em menos de 60 dias não bate com os rendimentos que ele declara.

Luke

Verdade, mas a defesa dele pode argumentar que tinha outras fontes de renda, investimentos, herança. O documento da polícia não explora isso.

Mark

Frias diz que tudo é cortina de fumaça, que a emenda era para projetos sociais. Isso é crível?

Mimi

A emenda era mesmo para letramento digital e projeto esportivo, segundo os registros. O problema é que o dinheiro passou por essa rede de empresas antes de chegar à produtora.

Luke

E ninguém conseguiu falar com essas empresas — Dinâmica, Super Poder Educacional, NTT Brasil. A reportagem deixa isso claro. Sem ouvir elas, temos só um lado da história.

Mark

Qual é o risco político aqui para Flávio Bolsonaro?

Mimi

Ele sempre negou que houve dinheiro público no filme. Se a investigação comprovar que houve, mesmo que indiretamente, fica muito ruim para ele em ano de eleição.

Luke

Mas de novo: a investigação ainda está em fase inicial. Dino retirou o sigilo, o que é incomum. Flávio acusa interferência política, e não é paranoia — estamos em meio a uma crise no STF.

  • 49 mandados de busca e apreensão em 4 estados
  • Suspeita de desvio de R$ 750 mil em emendas parlamentares
  • Operação autorizada por Flávio Dino, ministro do STF
  • Deputado Mario Frias proibido de sair do país
  • 7 armas apreendidas, registradas em nome de Frias

Operação autorizada por Flávio Dino visa apurar desvio de recursos públicos canalizados via emendas do deputado Mario Frias para produção do filme sobre ex-presidente. Investigação rastreia movimentações financeiras complexas entre ONG, empresas fornecedoras e produtora, com transferências que coincidem em valores e períodos de filmagem.

Polícia Federal cumpre 49 mandados contra produção do filme 'Dark Horse' sobre Bolsonaro, investigando suspeita de desvio de R$ 750 mil em emendas parlamentares do deputado Mario Frias.

Na quinta-feira 10 de setembro, a Polícia Federal cumpriu 49 mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, em investigação sobre suspeitas de desvio de dinheiro público destinado ao filme "Dark Horse", que retrata a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. A operação se desdobrou em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal, com dois alvos principais: o deputado Mario Frias, do PL de São Paulo, roteirista da produção e autor das emendas parlamentares sob escrutínio, e Karina Gama, da produtora Go Up Entertainment.

Os investigadores da PF suspeitam que pelo menos R$ 750 mil repassados à Go Up durante o período de filmagens tiveram origem em emendas de Frias. O rastreamento financeiro revela um caminho complexo: Frias canalizou R$ 2 milhões ao Instituto Conhecer Brasil, ONG presidida por Gama, através de duas emendas parlamentares. Metade desse valor foi destinada a um projeto de letramento digital. Entre fevereiro e março de 2025, duas empresas ligadas a um fornecedor de Gama — a Dinâmica Editora e o Instituto Super Poder Educacional — receberam R$ 700 mil do instituto. Meses depois, entre novembro e dezembro, justamente durante as filmagens, uma terceira empresa vinculada ao mesmo fornecedor, a NTT Brasil, repassou R$ 750 mil à produtora do filme. A PF reconhece que os elementos disponíveis não permitem afirmar a origem direta desses R$ 750 mil, mas aponta as coincidências entre montantes e datas como "circunstâncias relevantes" para análise.

Outros detalhes financeiros alimentam a suspeita. Durante o período de filmagens, entre 20 de outubro e 7 de dezembro de 2025, a Go Up pagou R$ 906,7 mil a um hotel e R$ 653 mil a uma empresa de alimentação. Frias, por sua vez, transferiu R$ 645,4 mil à Go Up entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025. A polícia questiona o lastro financeiro dessas transferências, já que os rendimentos mensais do deputado alcançam R$ 44.008,52 — um montante incompatível com transferências dessa magnitude em menos de 60 dias. A decisão de Dino também cita que a produtora comprou um carro BYD Song Plus 1.5 híbrido por R$ 102 mil em dinheiro vivo. Durante a operação, agentes apreenderam sete armas registradas no nome de Frias, localizadas em endereço diferente do que deveriam estar, o que levará a investigação sobre posse ilegal de arma de fogo.

Frias respondeu à operação com críticas públicas. Em vídeo publicado nas redes sociais, chamou a ação de "cortina de fumaça" e negou qualquer irregularidade. Afirmou que a investigação se refere a uma emenda de R$ 2 milhões destinada a contemplar um projeto esportivo e outro de letramento digital para tirar crianças da rua. O deputado reclamou que sua defesa pede acesso ao inquérito há meses sem sucesso e que tem sabido das movimentações apenas pela imprensa. "Se há uma nota que a CGU quer ver, isso se resolve com documento, não com operação em ano de eleição", disse. Karina Gama não respondeu aos contatos da reportagem, mas negou irregularidades à colunista Mônica Bergamo, afirmando que se sente ameaçada e que, se for presa, não tem o que delatar.

A operação ocorre no contexto de uma crise institucional no STF. Dino, indicado ao tribunal por Lula, proibiu Frias de sair do país e retirou o sigilo da investigação. A decisão pode representar desgaste para Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, que pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme sobre seu pai, mas sempre negou qualquer presença de dinheiro público na produção. Flávio respondeu à operação acusando Dino de "interferência política". "Não tem absolutamente nada de errado com esse filme, não tem um centavo do dinheiro público. Pode revirar do avesso. O que tem é uma tentativa de interferência política mais uma vez, agora do ministro Flávio Dino, sobre as eleições", afirmou em campanha em Boa Vista.

O filme "Dark Horse" é um dos desdobramentos do caso do Banco Master, revelado pelo portal The Intercept Brasil. Flávio Bolsonaro negociou R$ 134 milhões com Vorcaro para financiar a produção, com repasses de pelo menos R$ 63,7 milhões. Porém, Flávio não é investigado neste inquérito que mira a Go Up Entertainment; ele é alvo de outra apuração sobre o filme sob relatoria do ministro André Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro. A tensão entre os ministros intensificou-se quando Mendonça tornou públicas ligações de Alexandre de Moraes com Vorcaro, aprofundando a crise institucional no tribunal.

Não tem absolutamente nada de errado com esse filme, não tem um centavo do dinheiro público. O que tem é uma tentativa de interferência política mais uma vez, agora do ministro Flávio Dino, sobre as eleições
— Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência
A investigação é sobre uma emenda parlamentar de R$ 2 milhões que eu destinei para contemplar um projeto esportivo e outro de letramento digital para tirar crianças da rua
— Mario Frias, deputado PL-SP
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