Entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, o Banco de Brasília movimentou mais de nove bilhões de reais em operações com o Banco Master enquanto, segundo a Polícia Federal, seu destino era traçado não nas salas de governança, mas em conversas privadas e num encontro em Zurique. Os relatórios entregues ao Supremo Tribunal Federal sugerem que o ex-governador Ibaneis Rocha ocupou o centro dessas decisões muito antes que elas ganhassem forma institucional — um padrão que os investigadores nomeiam como captura: quando o interesse público cede lugar a articulações que o precedem e o contornam.
PF aponta participação direta de Ibaneis em tentativa de compra do Master pelo BRB
decisões estratégicas eram submetidas à sua apreciação antes de deliberação formal
Por que a Polícia Federal está tão focada em mostrar que Ibaneis participava das decisões antes delas passarem pelos órgãos formais de governança?
Porque isso muda tudo. Se ele estivesse apenas informado, seria uma coisa. Mas se decisões estratégicas sobre bilhões de reais eram submetidas à sua aprovação antes de serem deliberadas formalmente, isso sugere que a estrutura de poder do banco foi desviada para servir a interesses específicos dele.
Mas a gente tem as mensagens reais? Ou estamos vendo interpretações da PF sobre o que as mensagens significam?
Temos as mensagens dos celulares de Paulo Henrique e Vorcaro. A PF está dizendo que elas demonstram esse padrão de centralização.
Certo, mas "demonstram" é uma palavra forte. Mensagens podem ser ambíguas. Uma mensagem dizendo "o governador pediu para marcarmos uma reunião" não é necessariamente prova de que ele estava capturando a instituição.
Então qual é o argumento mais forte que a PF tem?
O volume. Nove bilhões e meio em carteiras de crédito compradas em quatro meses. E o timing — tudo isso começou logo depois que o BRB captou capital no mercado.
Mas comprar carteiras de crédito é uma operação normal entre bancos. A questão é se foi feita por razões comerciais legítimas ou se foi estruturada para beneficiar Vorcaro especificamente.
E como a reunião na Suíça se encaixa nisso?
A reunião marca o ponto em que as conversas saem do privado e se tornam operacionais. Ibaneis, Paulo Henrique, Vorcaro e um quarto homem se encontram em Zurique — isso não é uma conversa casual.
Verdade, mas a gente não sabe o que foi dito lá. Estamos inferindo a importância do encontro a partir do timing e do contexto.
E a preocupação de Paulo Henrique com o vazamento? Isso não sugere que havia algo a esconder?
Exatamente. Se fosse uma operação normal e transparente, por que se preocupar que um jornalista estivesse investigando?
Ou talvez fosse apenas sigilo comercial normal — negociações entre bancos são confidenciais por natureza.
Então o que ainda está em aberto?
Se Ibaneis agiu por interesse próprio ou se estava apenas cumprindo o que entendia como sua função como ex-governador. Se as operações financeiras foram estruturadas para enriquecer alguém especificamente. Se havia crime ou apenas gestão questionável de uma instituição pública.
El Pulso
- A Polícia Federal entregou ao STF evidências de que Ibaneis Rocha orientava decisões estratégicas do BRB antes mesmo de qualquer deliberação formal pelos órgãos de governança do banco.
- Mensagens extraídas dos celulares de Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro revelam uma cadeia de articulações que começou em outubro de 2024 e culminou num encontro secreto em Zurique em janeiro de 2025.
- O BRB adquiriu R$ 9,52 bilhões em carteiras de crédito do Banco Master no período investigado, volume que os investigadores tratam como evidência material da operação em curso.
- A preocupação com vazamentos — registrada nas próprias mensagens dos envolvidos após contato de um jornalista — reforça a tese de que os participantes tinham consciência do caráter sigiloso e potencialmente irregular das tratativas.
- Com Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro já presos, a investigação agora mira a responsabilidade de Ibaneis Rocha e avalia se sua conduta configura captura institucional de uma entidade financeira pública.
Entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, o Banco de Brasília movimentou mais de nove bilhões de reais em operações com o Banco Master enquanto, segundo a Polícia Federal, seu destino era traçado não nas salas de governança, mas em conversas privadas e num encontro em Zurique. Os relatórios entregues ao Supremo Tribunal Federal sugerem que o ex-governador Ibaneis Rocha ocupou o centro dessas decisões muito antes que elas ganhassem forma institucional — um padrão que os investigadores nomeiam como captura: quando o interesse público cede lugar a articulações que o precedem e o contornam.
A Polícia Federal apresentou ao Supremo Tribunal Federal relatórios que reconstituem, mensagem por mensagem e encontro por encontro, como o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha teria conduzido nos bastidores a tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB. Segundo os investigadores, Rocha não se limitou às atribuições formais do cargo: ele teria interferido em decisões sobre aumento de capital, expansão institucional e validação de operações críticas antes que essas escolhas sequer chegassem aos órgãos de governança do banco.
As articulações começaram em outubro de 2024, quando o BRB realizou uma oferta de ações para captar até um bilhão de reais — movimento que a PF interpreta como etapa preparatória para a aquisição. Em 20 de janeiro de 2025, Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, informou a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que o governador havia pedido para marcarem uma reunião. Três dias depois, os dois, Ibaneis e um interlocutor identificado como Leonardo se encontraram em Zurique — data que a PF aponta como o marco inicial do processo.
Entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, o BRB comprou R$ 9,52 bilhões em carteiras de crédito emitidas pelo Banco Master. Em 26 de janeiro, Vorcaro voltou a tratar da negociação com Paulo Henrique e mencionou que o jornalista Lauro Jardim, de O Globo, havia feito perguntas sobre o assunto. Paulo Henrique demonstrou preocupação com o vazamento e afirmou que o círculo de pessoas envolvidas não havia sido ampliado.
A PF caracteriza o padrão identificado como captura institucional: a estrutura decisória do banco teria sido alinhada a interesses específicos, em detrimento dos princípios de impessoalidade e interesse público. Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro estão presos. A investigação segue examinando se a atuação de Ibaneis Rocha configura, além de interferência política, um desvio sistemático de recursos e decisões de uma instituição financeira pública.
A Polícia Federal apresentou ao Supremo Tribunal Federal um conjunto de relatórios que traçam a participação direta do ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha nas decisões estratégicas que permitiram ao Banco de Brasília tentar adquirir o Banco Master entre 2024 e 2025. Segundo os investigadores, Rocha não atuou apenas dentro das atribuições formais de seu cargo — ele interferiu em escolhas sobre aumento de capital, expansão institucional, validação de operações críticas e articulação com agentes privados, tudo isso antes mesmo que essas decisões passassem pelos órgãos de governança do banco.
O que torna a investigação particularmente significativa é o padrão que emerge das comunicações analisadas. Mensagens extraídas dos celulares de Paulo Henrique Costa, que presidia o BRB durante as transações, e de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, mostram que decisões relevantes eram submetidas à avaliação de Ibaneis antes de serem deliberadas formalmente. A Polícia Federal caracteriza isso como centralização decisória e interferência política direta na condução de uma instituição financeira pública — e vai além, sugerindo que o padrão indica captura institucional, na qual a estrutura de decisão do banco foi alinhada a interesses específicos em detrimento dos princípios de impessoalidade, moralidade e interesse público.
As articulações remontam a outubro de 2024, quando o BRB colocou ações no mercado com objetivo de captar até um bilhão de reais e ampliar seu capital social. Os investigadores entendem essa movimentação como etapa preparatória para a consolidação futura da aquisição do Banco Master. As tratativas diretas sobre o negócio começaram em janeiro de 2025. Em 20 de janeiro, Paulo Henrique Costa informou a Vorcaro por mensagem que o governador havia pedido para marcarem uma reunião. Três dias depois, em 23 de janeiro, Ibaneis Rocha, Paulo Henrique Costa, Daniel Vorcaro e um quarto interlocutor identificado como Leonardo se encontraram em Zurique, na Suíça — encontro que a Polícia Federal aponta como o marco inicial do processo de aquisição.
O volume de operações entre as duas instituições durante esse período é substancial. Entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, o BRB comprou 9,52 bilhões de reais em carteiras de crédito emitidas pelo Banco Master. Essas movimentações financeiras, combinadas com as comunicações entre os envolvidos, integram a apuração sobre a tentativa de aquisição. Em 26 de janeiro, Vorcaro voltou a tratar da negociação com Paulo Henrique e perguntou sobre o andamento das conversas, mencionando que o questionamento havia sido feito pelo jornalista Lauro Jardim do jornal O Globo. Paulo Henrique demonstrou preocupação com o vazamento das tratativas e afirmou que os envolvidos não haviam ampliado o escopo das pessoas envolvidas no negócio.
Os relatórios agora no Supremo Tribunal Federal reconstituem a evolução das negociações através de mensagens e encontros, oferecendo ao tribunal uma visão detalhada de como as decisões foram tomadas e comunicadas. Tanto Paulo Henrique Costa quanto Daniel Vorcaro estão presos. A investigação continua a examinar se a atuação de Ibaneis Rocha constitui não apenas interferência política em uma instituição pública, mas um caso de captura institucional que desviou recursos e decisões para fins que não serviam ao interesse público.
Citas Notables
As comunicações demonstram que decisões estratégicas relevantes eram submetidas previamente à sua apreciação, antes mesmo de deliberação pelos órgãos formais de governança, evidenciando centralização decisória e interferência política direta na condução da instituição financeira pública— Polícia Federal, nos relatórios enviados ao STF
Tal atuação é indicativa de captura institucional, na medida em que a estrutura de decisão do banco foi alinhada a interesses específicos, em detrimento dos princípios de impessoalidade, moralidade e interesse público— Relatório da Polícia Federal