Quando o barril de petróleo alcançou US$ 97,69 em 28 de setembro de 2023 — o pico do ano —, a Petrobras se viu diante de uma encruzilhada que transcende a lógica contábil: repassar os custos aos brasileiros e alimentar a inflação, ou absorvê-los e arriscar o desabastecimento. A defasagem acumulada nos preços da gasolina e do diesel, agravada pelo corte russo nas exportações, transformou uma oscilação de mercado em uma questão de escolhas impossíveis. É o momento em que a aritmética do petróleo encontra a aritmética da vida cotidiana.
Petróleo em recorde anual pressiona Petrobras a elevar combustíveis
Se não aumentar o preço, corre risco de desabastecimento
Por que exatamente o preço do petróleo em recorde força a Petrobras a aumentar combustíveis? Não poderia ela simplesmente manter os preços iguais?
Porque os importadores privados que complementam a demanda brasileira não vão trazer combustível caro do exterior para vender barato aqui. Se a Petrobras não acompanhar os preços internacionais, eles simplesmente deixam de importar, e aí falta combustível no país.
Mas espera — a Abicom diz que a defasagem de diesel é 18%. Isso significa que a Petrobras já está subsidiando, certo? Então por que ela não pode continuar fazendo isso?
Pode, mas com custo. Se ela subsidia indefinidamente enquanto o petróleo fica caro, seus acionistas pressionam, a empresa se desvaloriza, e ela não tem receita para investir em produção futura.
E quanto aos ganhos que o Brasil tem como exportador de petróleo? Pires mencionou que o país arrecada mais receitas.
Sim, com o dólar acima de R$ 5, as receitas de exportação ficam maiores. Mas isso não resolve o problema do mercado interno — são duas coisas diferentes.
Então o Brasil ganha em um lado e perde no outro? Exporta caro, mas tem que vender combustível barato internamente?
Exatamente. E agora a Rússia cortou 30% das exportações de diesel, então aquele desconto que permitia a Petrobras segurar preços desapareceu.
Qual é o risco real de desabastecimento?
Se a Petrobras não aumentar e os importadores não trouxerem produto, falta diesel para caminhões, ônibus, gerador. É um risco concreto.
Mas isso é uma estimativa ou está documentado em algum lugar? Pires está falando de lógica econômica, não de um cenário que já aconteceu.
Verdade. É o risco teórico baseado em como o mercado funciona. Não há desabastecimento agora, mas a estrutura de incentivos aponta para esse risco se os preços não forem alinhados.
E a inflação? Aumentar combustível agora piora as coisas?
Sim. Combustível é insumo para tudo — transporte, produção, energia. Um aumento pressiona a inflação geral.
Il Polso
- O barril de petróleo bate US$ 97,69, o maior valor do ano, e a pressão sobre a Petrobras deixa de ser latente para se tornar urgente e inevitável.
- A defasagem do diesel chega a 18% — R$ 0,75 por litro abaixo do mercado internacional —, tornando insustentável a manutenção dos preços internos sem consequências graves.
- A Rússia corta 30% de suas exportações de diesel, eliminando a principal válvula de escape que havia permitido à Petrobras segurar os preços domésticos até então.
- Importadores privados se recusarão a trazer combustível caro para vender barato no Brasil, colocando o fantasma do desabastecimento no centro do debate.
- A Petrobras navega entre dois abismos: aumentar preços e pressionar a inflação, ou congelar preços e deteriorar suas contas enquanto arrisca faltar combustível no país.
Quando o barril de petróleo alcançou US$ 97,69 em 28 de setembro de 2023 — o pico do ano —, a Petrobras se viu diante de uma encruzilhada que transcende a lógica contábil: repassar os custos aos brasileiros e alimentar a inflação, ou absorvê-los e arriscar o desabastecimento. A defasagem acumulada nos preços da gasolina e do diesel, agravada pelo corte russo nas exportações, transformou uma oscilação de mercado em uma questão de escolhas impossíveis. É o momento em que a aritmética do petróleo encontra a aritmética da vida cotidiana.
Na quinta-feira, 28 de setembro de 2023, o barril de petróleo fechou a US$ 97,69 — o valor mais alto do ano e o maior desde agosto de 2022. Para a Petrobras, o número não era apenas um dado de mercado: era uma encruzilhada.
A defasagem entre os preços praticados pela estatal e os do mercado internacional já acumulava tensão. Segundo a Abicom, a gasolina estava 8% abaixo do valor externo, mas o diesel enfrentava situação mais crítica: 18% de defasagem, equivalente a R$ 0,75 por litro. Combustível essencial para o transporte de cargas, o diesel era o ponto mais sensível da equação.
A pressão ganhou dimensão internacional quando a Rússia anunciou corte de 30% em suas exportações do produto. Até então, o país havia conquistado 75% do mercado de importação brasileiro em agosto, oferecendo preços deprimidos pelas sanções que o isolavam dos mercados convencionais. Com essa vantagem desaparecendo, os importadores brasileiros teriam que buscar fontes mais caras — e a Petrobras perderia sua margem de manobra.
Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), apontou a contradição central do momento: o alto preço do petróleo beneficia o Brasil como exportador e amplia receitas de royalties e câmbio, mas obriga a Petrobras a elevar o preço dos combustíveis, pressionando a inflação. Manter os preços congelados, por outro lado, afastaria os importadores privados — que não trariam combustível caro para vender barato — e abriria caminho para o desabastecimento.
"Se você não aumentar o preço do combustível, você corre o risco de desabastecimento", resumiu Pires. A decisão que a Petrobras tomaria nos dias seguintes teria custo em qualquer direção — e o mercado aguardava, sabendo que não havia saída sem consequências.
Na quinta-feira, 28 de setembro de 2023, o barril de petróleo fechou a sessão cotado a US$ 97,69, marcando o maior valor do ano e criando uma encruzilhada para a Petrobras. Era o preço mais alto desde agosto de 2022, quando a commodity havia ultrapassado a marca de US$ 100. Com essa escalada, a estatal brasileira enfrentava pressão crescente para repassar os aumentos aos consumidores — ou arcar com as consequências de não fazê-lo.
A defasagem entre os preços praticados pela Petrobras e os cotados no mercado internacional já era significativa. Segundo a Abicom, Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis, a gasolina vendida pela estatal estava 8% abaixo do valor internacional, o que representava R$ 0,27 por litro de diferença. Mas o diesel enfrentava situação bem mais crítica: a defasagem havia chegado a 18%, equivalente a R$ 0,75 por litro. Esse combustível, essencial para o transporte de cargas no país, era o ponto mais sensível da equação.
A pressão sobre o diesel ganhou uma dimensão internacional quando a Rússia anunciou corte de 30% em suas exportações do combustível. Até então, o país havia conquistado 75% do mercado de importação brasileiro em agosto, oferecendo preços deprimidos graças às sanções internacionais que o isolavam dos mercados convencionais. Com essa restrição russa, os importadores brasileiros teriam que buscar diesel em outras fontes — necessariamente mais caras — para atender a demanda doméstica. A Petrobras, por sua vez, seria forçada a acompanhar esses preços ou correr o risco de desabastecimento.
Adriano Pires, sócio-fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), explicou em conversa com o Poder360 que a situação comportava aspectos contraditórios. De um lado, a condição de exportador de petróleo permitia ao Brasil arrecadar mais receitas com a venda do produto. Os estados que recebem royalties da exploração seriam os principais beneficiados, mas a União também teria direito a parcela significativa dessa receita. O câmbio do dólar acima de R$ 5 amplificava ainda mais esses ganhos, já que o Brasil negocia petróleo em moeda norte-americana muito mais valorizada que o real.
Do outro lado, porém, o alto preço da commodity obrigava a Petrobras a elevar o preço dos combustíveis, alimentando a inflação. Se a estatal decidisse manter os preços internos congelados e absorver o aumento nas receitas através de subsídios, enfrentaria pressão dos acionistas, risco de desvalorização e possibilidade real de desabastecimento — afinal, os importadores que complementam a demanda nacional não trariam combustível caro para vender barato no mercado doméstico.
Pires resumiu o dilema com clareza: "Se você não aumentar o preço do combustível você corre o risco de desabastecimento, porque o importador não traz o produto. Ele não vai trazer caro e vender barato aqui dentro." A sorte que o Brasil havia tido com o diesel russo — negociado com grande desconto em relação aos preços internacionais — havia permitido que a Petrobras segurasse os preços no mercado interno. Agora, com essa vantagem desaparecendo, a companhia não tinha mais espaço para manobra.
A decisão que a Petrobras tomaria nos próximos dias teria implicações que se estenderiam muito além do preço da bomba. Um aumento significativo pressionaria a inflação em um momento em que o Banco Central já enfrentava desafios para controlar os preços. Manter os preços congelados, porém, criaria riscos de desabastecimento e deterioração das contas da empresa. A commodity havia colocado a estatal em uma posição onde qualquer escolha teria custo.
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Se você não aumentar o preço do combustível você corre o risco de desabastecimento, porque o importador não traz o produto. Ele não vai trazer caro e vender barato aqui dentro.— Adriano Pires, sócio-fundador e diretor do CBIE