Petróleo em queda derruba Ibovespa após acordo EUA-Irã

O alívio externo chega em momento delicado para a política monetária
Analista da Daycoval explica por que um acordo de paz não resolve automaticamente os problemas inflacionários do Brasil.

Quando a paz chega ao Oriente Médio, nem sempre chega da forma que os mercados esperavam. O acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, anunciado por Donald Trump, reabriu o Estreito de Ormuz e derrubou o petróleo quase 5% — e com ele, as ações da Petrobras, que sozinhas carregam 12% do Ibovespa. O índice, que subia mais de 1% pela manhã, fechou em queda de 0,35%, lembrando que o alívio geopolítico e o alívio financeiro nem sempre coincidem.

  • O que parecia um dia de celebração virou um campo minado: o mesmo acordo de paz que animou os mercados pela manhã destruiu o valor do petróleo à tarde, invertendo o sinal do Ibovespa.
  • PETR3 e PETR4 despencaram quase 5% cada, e como juntas representam 12% do índice, nenhum outro ativo teve força suficiente para segurar a queda — nem mesmo a alta de 3,17% da Vale.
  • Analistas alertam que o alívio externo chega em momento delicado: o IPCA de maio ficou acima do esperado, os núcleos de inflação seguem pressionados e a economia brasileira ainda está aquecida pelo gasto público.
  • Há um caminho de recuperação desenhado — o Ibovespa pode alcançar 195 mil ou até 200 mil pontos — mas ele depende menos da paz no Oriente Médio e mais dos fundamentos domésticos: fiscal, inflação e Selic.

O Ibovespa começou a segunda-feira com promessa. Nas primeiras horas, subia mais de 1%, alimentado pelo otimismo em torno do acordo de paz entre Estados Unidos e Irã anunciado por Donald Trump. Mas à tarde, o mercado de commodities reescreveu o dia: às 16h45, o índice havia virado para queda de 0,35%, fechando em 170.534 pontos, arrastado pelo colapso do petróleo.

O acordo, que será assinado na sexta-feira, prevê um cessar-fogo de 60 dias e o fim permanente das operações militares. Mais importante para os mercados: a reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passa quase um quinto de todo o petróleo comercializado no mundo. Teoricamente, isso deveria favorecer o Brasil — menos tensão geopolítica, menos prêmio de risco, menos pressão inflacionária global. Mas o petróleo caiu quase 5%, e isso foi um problema imediato.

Petrobras é gigante no Ibovespa. PETR3 e PETR4 juntas respondem por 12% do índice, e ambas recuavam com força à tarde. O minério de ferro subiu em Dalian e ajudou a Vale a ganhar 3,17%, sustentando o índice pela manhã — mas quando o petróleo desabou, o índice não resistiu.

Os analistas leem o momento com nuance. Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, aponta que o alívio externo chega em hora delicada: o IPCA de maio desacelerou, mas ficou acima das expectativas, com núcleos de inflação ainda pressionados. Luciano Carvalho, do Banco Moneycorp, explica que o acordo favorece ativos de risco em mercados emergentes ao mesmo tempo em que reduz a demanda por ativos defensivos como o dólar e o barril. Carlos Lopes, do BV, acredita que o cenário abre espaço para o Banco Central cortar a Selic, mas prevê uma pausa logo em seguida para avaliar os efeitos defasados sobre uma economia ainda aquecida.

O cenário de recuperação existe. Patrick Buss, da Manchester Investimentos, vê espaço para o Ibovespa alcançar 195 mil ou até 200 mil pontos. Mas no Brasil, a sustentação desse movimento continuará condicionada aos fundamentos locais: política fiscal, dinâmica inflacionária e rumo da política monetária — não à paz distante no Oriente Médio.

O Ibovespa começou segunda-feira com promessa. Nas primeiras horas de negociação, o índice subia mais de 1%, alimentado pelo otimismo global em torno de um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã que Donald Trump havia anunciado no dia anterior. Mas à tarde, a realidade do mercado de commodities reescreveu o dia. Às 16h45, o índice havia virado para queda de 0,35%, fechando em 170.534 pontos, arrastado para baixo pelo colapso do petróleo.

O acordo entre Washington e Teerã, que será assinado na sexta-feira, prevê um cessar-fogo de 60 dias e o fim permanente das operações militares, incluindo aquelas no Líbano. Mais importante ainda para os mercados globais: a reabertura do Estreito de Ormuz, passagem por onde transita quase um quinto de todo o petróleo comercializado no mundo. Teoricamente, isso deveria ser bom para o Brasil. Menos tensão geopolítica significa menos prêmio de risco nos ativos emergentes, menos pressão sobre a inflação global, menos razão para os bancos centrais manterem juros altos. Deveria favorecer o Brasil.

Mas o petróleo caiu quase 5% — e isso foi um problema imediato. Petrobras é gigante no Ibovespa. PETR3 e PETR4 juntas respondem por 12% da composição do índice. Na tarde de segunda, ambas recuavam: PETR4 caía 4,74%, PETR3 caia 4,91%. Nenhuma outra força foi forte o bastante para compensar. O minério de ferro, que subiu 0,65% em Dalian, na China, ajudou Vale (VALE3) a ganhar 3,17% e sustentou o índice durante a manhã. Mas quando o petróleo desabou, o índice não resistiu.

Os analistas veem a dinâmica com clareza, mas também com nuance. Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, observa que o alívio externo chega em momento delicado para a política monetária brasileira. O IPCA de maio desacelerou, mas ficou ligeiramente acima das expectativas, reforçando a percepção de que os núcleos de inflação continuam pressionados enquanto a atividade econômica permanece resiliente. Luciano Carvalho, CEO do Banco Moneycorp, explica que em um primeiro momento o acordo favorece ativos de maior risco, especialmente em mercados emergentes, ao mesmo tempo em que reduz a demanda por ativos defensivos como o dólar e o barril de petróleo.

Carlos Lopes, economista do BV, acredita que o fim dos conflitos entre EUA e Irã deve dar confiança ao Banco Central para diminuir a Selic nesta semana, como era a intenção original. Mas mesmo com o fim da guerra, ele prevê que será necessária uma pausa após esse corte para avaliar os efeitos defasados do choque sobre uma economia que ainda está aquecida e superestimulada pelo gasto público.

O cenário de recuperação existe. Patrick Buss, especialista de renda variável da Manchester Investimentos, vê espaço para o Ibovespa recuperar a marca de até 195 mil pontos ou, quem sabe, chegar aos 200 mil. Se isso acontecer, ficarão mais claros os efeitos do conflito na evolução do índice. Se o índice voltar para a faixa dos 180 mil pontos, o fator eleição pode ser o culpado. Carvalho concorda que há possibilidade de reação positiva no médio prazo, com destaque para setores mais sensíveis ao ciclo econômico e ao apetite por risco. Mas no Brasil, a sustentação desse movimento continuará condicionada aos fundamentos locais: política fiscal, dinâmica inflacionária e rumo da política monetária.

O alívio externo chega em um momento delicado para a política monetária, com núcleos de inflação ainda pressionados enquanto a atividade econômica permanece resiliente
— Gabriel Mollo, analista de investimentos da Daycoval Corretora
No Brasil, a sustentação desse movimento continuará condicionada aos fundamentos locais, em especial à política fiscal, à dinâmica inflacionária e ao rumo da política monetária
— Luciano Carvalho, CEO do Banco Moneycorp
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que um acordo de paz — algo que deveria ser bom para os mercados — derrubou o Ibovespa?

Model

Porque o acordo reduz o prêmio de risco geopolítico, e isso faz o petróleo cair. Menos tensão no Oriente Médio significa menos escassez esperada, menos demanda por ativos defensivos. Petrobras é 12% do índice, então quando o petróleo desaba, o índice desaba com ele.

Inventor

Mas não deveria haver outros ganhos que compensassem? Menos inflação global, menos pressão nos juros?

Model

Deveria, e provavelmente haverá no médio prazo. Mas esses efeitos são lentos. O que é imediato é a queda do petróleo. Vale subiu 3% com o minério de ferro, mas não foi suficiente para equilibrar as perdas das petroleiras.

Inventor

Então o Banco Central pode cortar a Selic com mais segurança agora?

Model

Teoricamente sim. Mas os analistas veem um problema: a inflação ainda está pressionada, a economia ainda está aquecida pelo gasto público. O alívio externo chega em um momento delicado. Pode ser que o BC corte esta semana, mas depois precise fazer uma pausa.

Inventor

Qual é o cenário otimista daqui para frente?

Model

Se o conflito realmente se resolver, o Ibovespa pode recuperar 195 mil ou até 200 mil pontos. Mas tudo depende dos fundamentos locais: como fica a política fiscal, como evolui a inflação, qual é o próximo passo do Banco Central.

Inventor

E se voltar a cair?

Model

Se cair para 180 mil, o fator eleição pode estar no meio do caminho. A geopolítica é apenas uma das forças em jogo.

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