Em um estreito de apenas cem quilômetros no Mar Vermelho, a geopolítica do Oriente Médio encontra a economia global. Os ataques houthis ao Estreito de Bab el-Mandeb — rota que se tornou vital para a Arábia Saudita após o bloqueio iraniano do Estreito de Ormuz — reduziram drasticamente as exportações sauditas de petróleo e empurraram o preço do barril acima de cem dólares. Mais do que um conflito regional, o que se passa ali revela como a fragilidade de uma passagem marítima pode reconfigurar mercados, encarecer combustíveis e ampliar o sofrimento de populações distantes do campo de batalha.
Petróleo dispara: por que Bab el-Mandeb é vital para o setor
A incerteza persistente é o maior perigo, não o fechamento físico
Por que Bab el-Mandeb ficou tão importante de repente? A Arábia Saudita não tinha outras rotas?
Tinha, mas o Irã bloqueou a principal — o Estreito de Ormuz. Então Riade precisou usar o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, e tudo que sai de lá passa por Bab el-Mandeb.
Mas a Arábia Saudita já usava Yanbu antes, certo? O que mudou foi o volume.
Exato. Antes da guerra, Yanbu exportava cerca de 700 mil barris por dia. Entre março e julho, chegou a 3,8 milhões. Quase cinco vezes mais.
E os houthis conseguem realmente fechar o estreito?
Não controlam o litoral diretamente ainda, mas controlam portos próximos e têm atacado navios. Em agosto, as exportações caíram para 1,5 milhão de barris por dia.
Caíram, mas não zeraram. Então o estreito não está fechado.
Não está fechado, mas está perigoso. E a incerteza é o problema real — os armadores têm medo, os seguros ficam caros, o frete sobe.
Qual é o objetivo dos houthis com isso?
Aumentar o custo político e econômico da guerra para a Arábia Saudita, forçá-la a encerrar as operações militares.
Eles disseram isso explicitamente?
Não. O Instituto para o Estudo da Guerra é que analisa assim. Os houthis negam que pretendem fechar o estreito ou cobrar pedágio.
Quantas pessoas morreram nessa escalada?
Centenas, em ataques e represálias entre os houthis e a Arábia Saudita.
Mas não temos um número exato?
Não. A fonte diz apenas "centenas".
The Pulse
- Com o Estreito de Ormuz bloqueado pelo Irã, a Arábia Saudita passou a depender quase exclusivamente de Bab el-Mandeb para escoar seu petróleo — e os houthis perceberam isso.
- Em agosto, após a intensificação dos ataques rebeldes, as exportações sauditas pelo porto de Yanbu despencaram de 3,8 milhões para 1,5 milhão de barris por dia, sacudindo os mercados globais.
- Os houthis tomaram a cidade de Mocha e controlam o porto de Hodeida, impondo um bloqueio marítimo que não precisa ser total para ser eficaz — o medo já é suficiente para encarecer seguros e fretes.
- O preço do petróleo ultrapassou cem dólares por barril, e a incerteza sobre a segurança da rota preocupa mais especialistas do que um eventual fechamento físico do estreito.
- Centenas de mortos em ataques e represálias marcam a escalada do conflito, enquanto o tráfego pelo Canal de Suez ainda opera em pouco mais da metade do volume anterior à crise.
Em um estreito de apenas cem quilômetros no Mar Vermelho, a geopolítica do Oriente Médio encontra a economia global. Os ataques houthis ao Estreito de Bab el-Mandeb — rota que se tornou vital para a Arábia Saudita após o bloqueio iraniano do Estreito de Ormuz — reduziram drasticamente as exportações sauditas de petróleo e empurraram o preço do barril acima de cem dólares. Mais do que um conflito regional, o que se passa ali revela como a fragilidade de uma passagem marítima pode reconfigurar mercados, encarecer combustíveis e ampliar o sofrimento de populações distantes do campo de batalha.
O Estreito de Bab el-Mandeb tem apenas cem quilômetros de comprimento, mas por ali passa doze por cento de todo o petróleo que circula no mundo. Quando os rebeldes houthis ligados ao Irã intensificaram seus ataques a navios na região, essa pequena passagem no Mar Vermelho tornou-se o centro de uma crise energética global.
A situação se agravou porque a Arábia Saudita já havia perdido sua rota tradicional: o Irã bloqueou o Estreito de Ormuz no início da guerra que eclodiu em fevereiro, forçando Riade a redirecionar suas exportações para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Entre março e julho, o volume exportado por ali chegou a 3,8 milhões de barris por dia — quase cinco vezes mais do que antes do conflito. Tudo dependia de Bab el-Mandeb.
Em agosto, os houthis retomaram os ataques com força renovada. As exportações sauditas caíram para 1,5 milhão de barris diários. Os rebeldes tomaram a cidade de Mocha, a setenta quilômetros do estreito, e controlam o porto de Hodeida, impondo um bloqueio marítimo que, mesmo sem fechar completamente a passagem, produziu o efeito desejado: armadores e companhias de petróleo passaram a evitar a rota por medo.
Segundo o Instituto para o Estudo da Guerra, a estratégia houthi é de desgaste — elevar o custo econômico e político da guerra para pressionar a monarquia saudita a encerrar suas operações militares no Iêmen. Andreas Krieg, especialista do King's College London, alerta que o maior risco não é o fechamento físico do estreito, mas a incerteza persistente: quando os navios não sabem se serão atacados, os seguros encarecem, os fretes sobem e o petróleo fica mais caro para o mundo inteiro.
O preço do barril já ultrapassou cem dólares. O tráfego pelo Canal de Suez, que depende de Bab el-Mandeb, ainda opera em pouco mais da metade do volume anterior à crise, segundo dados do FMI. Centenas de pessoas morreram nos combates entre houthis e forças sauditas. E o horizonte permanece incerto: os rebeldes avançam, a guerra continua, e o mundo segue dependente de um estreito onde ninguém sabe se os navios chegarão inteiros.
O preço do petróleo subiu porque um estreito no Mar Vermelho ficou perigoso. Esse estreito, chamado Bab el-Mandeb, tem apenas cem quilômetros de comprimento e trinta de largura, mas por ali passa doze por cento de todo o petróleo que se move pelo mundo. Nos últimos meses, rebeldes houthis ligados ao Irã começaram a atacar navios que atravessam essa passagem, e isso mudou tudo para a Arábia Saudita, que depende dela agora mais do que nunca.
A história começa com a guerra no Oriente Médio. Quando o Irã bloqueou o Estreito de Ormuz — a rota tradicional pela qual a Arábia Saudita exportava petróleo — Riade precisou encontrar um caminho alternativo. Escolheu o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, e começou a mandar quantidades enormes de petróleo por ali. Entre março e julho deste ano, a Arábia Saudita exportava uma média de 3,8 milhões de barris por dia pelo porto de Yanbu, quase cinco vezes mais do que antes da guerra. Tudo passava por Bab el-Mandeb.
Mas em agosto, os houthis intensificaram seus ataques contra navios sauditas, e as exportações desabaram. Caíram para 1,5 milhão de barris por dia. Não foi um colapso total, mas foi o suficiente para fazer o preço do petróleo disparar. Os houthis tomaram a cidade de Mocha, a setenta quilômetros ao norte do estreito, e controlam o porto de Hodeida, mais ao norte ainda. Desde julho, impuseram um bloqueio marítimo contra a Arábia Saudita e atacaram vários de seus navios. Eles negam que pretendem fechar completamente o Estreito de Bab el-Mandeb ou cobrar pedágio para navios passarem, mas o efeito é quase o mesmo: a incerteza fez os armadores e as companhias de petróleo ficarem com medo.
O contexto é mais profundo. A guerra no Oriente Médio começou em fevereiro, com ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, seguidos por represálias de Teerã. Os houthis, que tinham ficado neutros no início, mudaram de posição em julho, quando permitiram que uma aeronave iraniana pousasse no Iêmen apesar do controle saudita do espaço aéreo. Isso rompeu um cessar-fogo que tinha sido acordado em 2022. Desde então, os rebeldes intensificaram seus ataques e avançaram em direção ao Estreito de Bab el-Mandeb. Centenas de pessoas morreram em ataques e represálias entre os houthis e a Arábia Saudita.
O tráfego marítimo na região já tinha caído drasticamente em 2024, quando os houthis começaram a atacar navios que consideravam ligados a Israel. O tráfego pelo Canal de Suez, que é a rota que passa por Bab el-Mandeb, caiu tanto que ainda não se recuperou. Entre janeiro e agosto de 2026, o tráfego representava pouco mais da metade do nível anterior à crise, segundo dados do Fundo Monetário Internacional analisados pela agência AFP.
Segundo o Instituto para o Estudo da Guerra, os houthis buscam aumentar o custo econômico e político da guerra para Riade, forçando a monarquia rica em petróleo a encerrar suas operações militares no Iêmen. É uma estratégia de desgaste. Eles não precisam fechar o estreito completamente; só precisam deixar os armadores com medo de passar por ali.
Andreas Krieg, especialista em segurança do King's College London, disse que o maior perigo não é necessariamente o fechamento físico de Bab el-Mandeb, mas a incerteza persistente. Quando os navios não sabem se vão ser atacados, os seguros ficam mais caros, os fretes sobem, e o petróleo fica mais caro também. É isso que está acontecendo agora. O preço do barril subiu acima de cem dólares, e a Petrobras anunciou aumentos de gasolina — depois recuou, mas o mercado já tinha se movido.
O que vem pela frente é incerto. Os houthis controlam mais território a cada semana. A Arábia Saudita continua suas operações militares. E o mundo inteiro depende de petróleo que passa por um estreito de cem quilômetros de comprimento onde ninguém sabe se os navios vão chegar inteiros.
Notable Quotes
O maior perigo não é necessariamente o fechamento físico de Bab el-Mandeb, mas a incerteza persistente— Andreas Krieg, especialista em segurança do King's College London
Os houthis buscam aumentar o custo econômico e político da guerra para Riade, a fim de forçar a monarquia rica em petróleo a encerrar suas operações militares— Instituto para o Estudo da Guerra