Petrobras quer produzir 100% do diesel consumido no Brasil até 2030

O petróleo voltará a ficar barato
Chambriard reconhece a volatilidade do setor ao explicar os desafios financeiros da companhia.
Mark

Então a Petrobras quer ser autossuficiente em diesel em quatro anos. Isso é realista?

Mimi

A meta é ambiciosa, mas a companhia tem capacidade de refino instalada. O desafio real é financeiro — Chambriard foi clara sobre isso. Depende de "disciplina de capital" em um setor onde o preço do petróleo pode cair a qualquer momento.

Luke

Espera aí. Ela disse que quer produzir 100% do diesel consumido no Brasil até 2030, mas não detalhou quanto de investimento isso exige ou qual é a capacidade atual de refino. Sabemos que é uma meta, mas não sabemos se é viável tecnicamente.

Mark

E quanto aos fertilizantes? Sair de zero para 35% em quatro anos também parece muito.

Mimi

É um salto significativo, mas faz sentido estratégico. O Brasil importa fertilizantes e quer reduzir essa dependência. A Petrobras tem expertise em química e logística.

Luke

Novamente, não há números sobre investimento ou capacidade produtiva atual. Sabemos que é a meta, mas não temos informação suficiente para avaliar se é alcançável.

Mark

Ela mencionou a indústria naval. Parece que está realmente se recuperando?

Mimi

Os números sugerem sim. Saiu de 71 mil empregos em 2024 para 88 mil em 2026, com 400 embarcações encomendadas. É um crescimento real.

Luke

Mas isso é resultado direto das encomendas da Petrobras, não de uma recuperação ampla do setor. Se a Petrobras reduzir encomendas, o que acontece?

Mark

Ela não falou sobre a Petros. Por quê?

Mimi

É um tema delicado. Envolve déficits previdenciários e mudanças que afetam funcionários, aposentados e pensionistas. Provavelmente foi uma escolha deliberada não abordar isso em um evento público.

Luke

Exatamente. É uma omissão significativa. A Petros é um passivo importante para a companhia e não foi mencionado.

  • Meta de autossuficiência em diesel até 2030
  • Aumento de produção de fertilizantes de zero para 35% da demanda em quatro anos
  • 400 embarcações de apoio encomendadas a estaleiros nacionais
  • Indústria naval cresceu de 71 mil para 88 mil empregos entre 2024 e 2026
  • Petrobras pretende responder por 30% da expansão de energia renovável necessária

Petrobras visa autossuficiência total em diesel até 2030 como estratégia de segurança energética diante de turbulências internacionais. Companhia também planeja elevar produção de fertilizantes nitrogenados de zero para 35% da demanda nacional em quatro anos.

A Petrobras estabeleceu meta de produzir 100% do diesel consumido no Brasil até 2030 e aumentar produção de fertilizantes para 35% da demanda, reforçando segurança energética e retomada da indústria naval.

Magda Chambriard, presidente da Petrobras, traçou um ambicioso plano durante palestra no Clube de Engenharia no Rio de Janeiro: fazer o Brasil produzir todo o diesel que consome até 2030. A declaração, feita na quarta-feira 16 de setembro, reflete uma estratégia mais ampla de reforço da segurança energética nacional diante das turbulências internacionais que marcam o cenário geopolítico atual. Para Chambriard, o diesel não é apenas um combustível — é o que "leva a comida para a casa dos brasileiros", uma forma de destacar sua importância crítica para a logística e o funcionamento da economia.

O plano vai além do diesel. A Petrobras também pretende recuperar terreno perdido na produção de fertilizantes nitrogenados, saltando de uma contribuição praticamente nula em 2025 para 35% do consumo nacional em quatro anos. Esses objetivos integram uma estratégia mais vasta que abrange refino, exploração de petróleo, logística, construção naval e investimentos em transição energética. A presidente enfatizou repetidamente que a execução desses projetos depende de "disciplina de capital" — uma referência clara aos desafios financeiros que a companhia enfrenta em um setor volátil.

Chambriard relacionou os investimentos em refino e fertilizantes ao futuro de longo prazo da Petrobras. Embora o pré-sal tenha seu pico produtivo projetado para anos à frente, a companhia precisa preparar novas frentes capazes de sustentar suas operações quando a produção dos campos atuais começar a declinar. Nesse contexto, mencionou investimentos em dutos, logística, navios e embarcações de apoio. A presidente também defendeu a continuidade da exploração de petróleo, argumentando que fontes não renováveis exigem reposição constante de reservas. Citou como exemplo o cenário "bastante promissor" encontrado no Amapá, além de projetos internacionais na Margem Equatorial e na África.

Ao abordar a capacidade financeira da companhia, Chambriard ressaltou as variáveis fora do controle da Petrobras — especialmente a cotação internacional do petróleo e a taxa de câmbio. "O petróleo voltará a ficar barato", afirmou, reconhecendo a ciclicidade do setor. A presidente também criticou as privatizações de administrações anteriores, lamentando especialmente a venda da Liquigás e da BR Distribuidora. Segundo ela, esses ativos foram alienados com o argumento de que lucros menores justificavam a desinvestimento — uma posição que contrasta com sua visão de que manter capacidade de investimento é essencial para o planejamento financeiro de longo prazo.

A indústria naval brasileira ganhou destaque particular na apresentação. Chambriard anunciou que a Petrobras encomendou 400 embarcações de apoio a estaleiros nacionais, reforçando que "nossos estaleiros já estão competitivos, inclusive em relação à Cingapura e China". A presidente recordou que a indústria naval brasileira ocupou a segunda posição mundial na década de 1970, mas enfrentou sucessivos períodos de retração. Entre 2004 e 2015, as exigências de conteúdo local e as encomendas da Petrobras geraram um ciclo de expansão que criou 83 mil empregos. Após o pior momento em 2019, a indústria começou a se recuperar: entre 2024 e 2026, adicionou 17 mil novos empregos aos 71 mil que existiam, totalizando 88 mil postos de trabalho.

Chambriard também posicionou a Petrobras como ator central na transição energética brasileira. Destacou que fontes renováveis já representam 54% da matriz energética do país, com expectativa de avanço para 64%. A companhia pretende responder por 30% do esforço necessário para essa expansão. A presidente apontou que o consumo per capita de energia no Brasil ainda é baixo comparado ao de outras economias de tamanho similar — o país é uma das dez maiores economias do mundo, mas seu consumo por habitante é semelhante ao da Ucrânia ou Vietnã, abaixo da média mundial. Para atingir o nível da África do Sul, o Brasil precisaria expandir seu consumo em 50%; para alcançar o da França, teria que mais que dobrar. Diante dessa realidade, Chambriard questionou: "A Petrobras vai participar com 30% desse esforço. Quem vai gerar os outros dois terços?"

Um tema notavelmente ausente da apresentação foi a situação da Petros, o fundo de previdência dos trabalhadores da companhia. A questão envolve equacionamento de déficits e mudanças em planos previdenciários que afetam funcionários da ativa, aposentados e pensionistas — um assunto que permanece em aberto e que não foi abordado durante o evento.

O diesel leva a comida para a casa dos brasileiros
— Magda Chambriard, presidente da Petrobras
Nossos estaleiros já estão competitivos, inclusive em relação à Cingapura e China
— Magda Chambriard
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