Petro afirmou que Netanyahu paga migrantes pobres para entrar na Espanha, associando a ação ao financiamento de armas usadas em Gaza. Os EUA aprovaram US$ 40 milhões em recursos para segurança do Marrocos, acompanhados de apoio à reivindicação marroquina sobre Ceuta e Melilla.
Petro acusa Netanyahu de financiar crise migratória em Ceuta
Com o mesmo dinheiro dos mísseis sobre Gaza, querem destruir o progressismo europeu
Por que Petro conectaria Netanyahu especificamente a uma crise migratória em Ceuta? Parece uma acusação muito direta.
Porque há uma linha de dinheiro visível. Os EUA aprovaram quarenta milhões de dólares para o Marrocos, acompanhados de apoio explícito às reivindicações marroquinas sobre Ceuta. Petro está dizendo: esse dinheiro não é inocente, está financiando uma estratégia.
Mas qual seria o incentivo de Netanyahu em enviar migrantes para a Espanha?
Desestabilizar a Europa, especialmente um governo — o de Sánchez — que é crítico a Israel. Se você consegue criar caos migratório em um país que te critica, enfraquece a voz dele.
E o Marrocos nesse cenário? É um ator passivo?
Não. O Marrocos tem suas próprias reivindicações sobre Ceuta e Melilla. Relaxar controles de fronteira é uma ferramenta política que ele já usou antes, em 2021, como retaliação contra a Espanha. Agora, com o apoio americano e a aliança com Israel, essas ferramentas ganham novo peso.
A comparação com Franco parece exagerada, não?
Para Petro, não. Ele vê um padrão: potências externas usando território africano para projetar poder sobre a Europa, com consequências para populações vulneráveis. Franco começou em Marrocos também.
E se Petro estiver simplesmente errado? Se não houver financiamento direto?
Então a acusação é especulativa. Mas o dinheiro é real, o apoio às reivindicações marroquinas é real, e a crise migratória é real. Petro está conectando pontos que existem — a questão é se a conexão que ele desenha é a correta.
The Pulse
- Petro acusou Netanyahu de financiar crise migratória em Ceuta
- EUA aprovaram US$ 40 milhões para segurança do Marrocos com apoio a reivindicações sobre Ceuta
- Aproximadamente 10 mil migrantes entraram em Ceuta em 2021 após relaxamento de controles
- Marrocos aderiu aos Acordos de Abraão em 2020, normalizando relações com Israel
- Espanha e Marrocos têm histórico de tensões coloniais e disputas territoriais
Petro afirmou que Netanyahu paga migrantes pobres para entrar na Espanha, associando a ação ao financiamento de armas usadas em Gaza. Os EUA aprovaram US$ 40 milhões em recursos para segurança do Marrocos, acompanhados de apoio à reivindicação marroquina sobre Ceuta e Melilla.
Presidente colombiano Gustavo Petro acusou Benjamin Netanyahu de financiar a crise migratória em Ceuta, relacionando recursos dos EUA ao Marrocos com supostos pagamentos a migrantes muçulmanos pobres.
No domingo, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, lançou uma acusação explosiva nas redes sociais: Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, estaria financiando a crise migratória em Ceuta, o enclave espanhol cercado por território marroquino na costa norte-africana. A denúncia veio em resposta a um relatório sobre a aprovação de recursos americanos destinados ao Marrocos, e Petro conectou os pontos de forma contundente — o mesmo dinheiro que paga armas para Gaza, disse ele, estaria sendo usado para pagar muçulmanos pobres a fim de que migrassem para a Espanha.
O presidente colombiano não poupou palavras. Chamou Netanyahu de "genocida foragido" e descreveu uma operação coordenada: com os fundos que financiam mísseis sobre Gaza, segundo sua narrativa, buscam-se destruir o progressismo democrático europeu. A acusação ganhou corpo quando Petro citou um documento oficial ligado ao projeto de lei HR 8595, aprovado pela Câmara dos Representantes dos Estados Unidos em junho. O texto autoriza a destinação de verbas para segurança nacional e para o Departamento de Estado no ano fiscal de 2027. Dentro dele, constam duas parcelas de vinte milhões de dólares cada uma, destinadas ao Exército e a programas de segurança do Marrocos — acompanhadas, significativamente, de uma nota de apoio à reivindicação marroquina sobre Ceuta e Melilla, territórios que a Espanha administra mas que o Marrocos reivindica.
O contexto histórico que Petro invocou é denso. Ele traçou um paralelo entre Netanyahu e Francisco Franco, remetendo ao golpe de julho de 1936 que iniciou a Guerra Civil Espanhola — um golpe que começou no Protetorado Espanhol de Marrocos, com tropas marroquinas transportadas à Península Ibérica com apoio aéreo alemão e italiano. A comparação não era casual. Petro convocou povos europeus e árabes às ruas, invocando o lema antifascista "Não passarão!" e defendendo um diálogo entre civilizações.
A aproximação entre Marrocos e Israel é recente e estratégica. Em 2020, durante o primeiro mandato de Donald Trump, o Marrocos aderiu aos Acordos de Abraão, mediados pelos Estados Unidos, que buscavam normalizar relações diplomáticas entre Israel e países árabes. Para o Marrocos, a adesão veio acompanhada de um reconhecimento crucial: o governo Trump reconheceu a reivindicação marroquina sobre o Saara Ocidental, território disputado com a Frente Polisario. Netanyahu formalizou esse reconhecimento em julho de 2023.
As tensões entre Espanha e Marrocos, porém, têm raízes muito mais profundas. A Espanha exerceu domínio colonial sobre parte do território africano entre 1912 e 1956. Em 2021, o governo marroquino relaxou os controles de fronteira, permitindo a entrada de aproximadamente dez mil migrantes em Ceuta — um episódio que foi amplamente interpretado como retaliação ao atendimento médico que a Espanha havia concedido a Brahim Ghali, líder da Frente Polisario, durante a pandemia de Covid-19. As relações se estabilizaram em 2022, quando a Espanha alterou sua posição tradicional e passou a apoiar a proposta marroquina de autonomia para o Saara Ocidental.
Mas a questão palestina reacendeu as tensões. O governo de Pedro Sánchez tem sido uma das vozes europeias mais críticas a Israel, enquanto o Marrocos, em 2024, permitiu que navios israelenses atracassem em seus portos após a Espanha recusar o mesmo. O embaixador de Israel na ONU, Danny Danon, questionou por que a Espanha mantém "enclaves coloniais na África" antes de "dar lições a Israel". O ministro dos Transportes espanhol, Óscar Puente, respondeu sugerindo que a participação israelense nos acontecimentos estava se tornando evidente. A acusação de Petro, portanto, não emerge do vácuo — ela se insere em um tabuleiro geopolítico onde alianças antigas se redefinem, reivindicações territoriais se entrelaçam, e as posições sobre a Palestina dividem até mesmo os aliados tradicionais.
Notable Quotes
Com dinheiro, com o mesmo que pagaram pelos mísseis sobre Gaza para matar bebês, mulheres e anciãos, tiraram a liberdade da Palestina, querem destruir o progressismo democrático da Europa— Gustavo Petro, presidente da Colômbia
Por que a Espanha mantém enclaves coloniais na África antes de dar lições a Israel?— Danny Danon, embaixador de Israel na ONU