Em maio de 2022, enquanto o governo Bolsonaro empurrava para a Câmara dos Deputados a regulamentação do ensino domiciliar, uma pesquisa da Unicamp com o Datafolha revelava que 78% dos brasileiros rejeitavam a prática — um dos raros momentos em que a vontade popular e a agenda governamental se encontravam em rota de colisão direta. A escola, para a maioria dos entrevistados, não é apenas lugar de aprendizado, mas de proteção, convivência e formação humana — valores que a própria pandemia, ao afastar as crianças das salas de aula, acabou por reafirmar. O debate sobre o homeschooling, assim, tran
Pesquisa mostra que 78% dos brasileiros rejeitam educação domiciliar
A escola é espaço fundamental não apenas para conteúdo, mas para socialização e proteção
Por que a população rejeita tão amplamente a educação domiciliar se é uma escolha que os pais poderiam fazer livremente?
Porque a pesquisa mostra que as pessoas não veem isso como uma escolha individual. Veem a escola como um direito da criança — não apenas para aprender conteúdo, mas para estar protegida, para se desenvolver socialmente, para ter acesso a coisas que nem todas as famílias podem oferecer em casa.
A pandemia não deveria ter mostrado que as crianças podem aprender em casa?
Mostrou o oposto. Quando as crianças ficaram em casa durante a pandemia, as pessoas sentiram na pele o que faltava. Não era só aula. Era proteção, era rotina, era contato com outras crianças, era um adulto que não era o pai ou a mãe.
Se apenas 15 mil crianças estudam em casa agora, por que o governo faz disso uma prioridade?
Essa é a pergunta que as organizações de educação estão fazendo. Enquanto 46 milhões de crianças estão em escolas públicas que precisam de investimento, o governo escolhe regulamentar algo que quase ninguém quer e que afeta um número minúsculo.
Os críticos falam em risco. Que tipo de risco?
Isolamento. Falta de proteção contra violência doméstica. Ausência de socialização. A escola não é só educação — é um lugar onde professores veem sinais de abuso, onde crianças aprendem a conviver com diferenças, onde há alguma garantia de segurança.
Mas nem todas as escolas são seguras ou boas.
Verdade. Mas a resposta não é tirar as crianças da escola. É investir nas escolas que existem. É por isso que o manifesto fala em defesa do investimento nas escolas públicas — não é um argumento contra a liberdade dos pais, é um argumento sobre prioridades.
The Pulse
- Com apenas 15 mil estudantes em educação domiciliar num universo de 46,7 milhões matriculados, o governo Bolsonaro escolheu o homeschooling como prioridade educacional — uma decisão que ignorava tanto a escala quanto a vontade da população.
- A pesquisa Educação, Valores e Direitos, ouvindo 2.090 pessoas em 130 municípios, entregou um veredicto contundente: oito em cada dez brasileiros não queriam que pais pudessem retirar filhos da escola para ensiná-los em casa.
- Organizações de educação alertam que a medida representa risco real para crianças, retirando-as de um ambiente que oferece socialização, desenvolvimento integral e proteção contra situações de violência doméstica.
- Mais de 350 entidades assinaram manifesto contra a regulamentação, enquanto o Movimento Todos pela Educação classificou a proposta como equivocada e absolutamente fora de tempo, num momento em que os gastos com educação atingiam o menor patamar em dez anos.
- A votação do requerimento de urgência na Câmara avançou mesmo diante da rejeição popular e do coro de críticas — expondo uma profunda inversão de prioridades no coração da política educacional brasileira.
Em maio de 2022, enquanto o governo Bolsonaro empurrava para a Câmara dos Deputados a regulamentação do ensino domiciliar, uma pesquisa da Unicamp com o Datafolha revelava que 78% dos brasileiros rejeitavam a prática — um dos raros momentos em que a vontade popular e a agenda governamental se encontravam em rota de colisão direta. A escola, para a maioria dos entrevistados, não é apenas lugar de aprendizado, mas de proteção, convivência e formação humana — valores que a própria pandemia, ao afastar as crianças das salas de aula, acabou por reafirmar. O debate sobre o homeschooling, assim, transcende a pedagogia e toca em questões mais fundas sobre o papel do Estado, da família e da comunidade na formação das novas gerações.
Na semana do dia 17 de maio de 2022, a Câmara dos Deputados se preparava para votar um requerimento de urgência que aceleraria a tramitação de um projeto de lei regulamentando a educação domiciliar no Brasil — bandeira declarada do governo Bolsonaro. Dias antes, porém, uma pesquisa jogava luz sobre o abismo entre essa agenda e o que os brasileiros efetivamente desejavam.
O levantamento, conduzido pelo Centro de Estudos em Opinião Pública da Unicamp em parceria com o Datafolha, ouviu 2.090 pessoas em 130 municípios entre março de 2022. O resultado foi inequívoco: 78% dos entrevistados eram contrários ao direito dos pais de retirar filhos da escola para ensiná-los em casa. Coordenada pelas organizações Ação Educativa e Cenpec, a pesquisa foi batizada de Educação, Valores e Direitos.
Para Romualdo Portela de Oliveira, do Cenpec, os números refletiam uma compreensão enraizada sobre o papel da escola — não apenas como transmissora de conteúdo, mas como espaço de socialização, desenvolvimento integral e proteção contra a violência doméstica. A pandemia, ao afastar os estudantes das salas de aula, paradoxalmente reforçou essa valorização.
O contexto tornava a prioridade governamental ainda mais contestável. Os gastos com educação estavam no menor nível em dez anos, e 46,7 milhões de estudantes frequentavam 178 mil escolas — enquanto apenas 15 mil crianças estudavam em casa, segundo a Associação Nacional de Educação Domiciliar. Denise Carreira, da Ação Educativa, foi direta: num momento que exigia mais investimento para superar os danos da pandemia, o governo propunha uma agenda sem apoio popular e prejudicial a crianças e adolescentes.
A reação organizada foi ampla. O Movimento Todos pela Educação classificou a legalização do homeschooling como medida equivocada e fora de tempo. A Campanha Nacional pelo Direito à Educação reuniu mais de 350 entidades num manifesto que denunciava a proposta como ataque às garantias fundamentais da pessoa humana. Mesmo assim, a votação na Câmara seguiu seu curso — com a população e o campo educacional do lado oposto ao governo.
Na terça-feira 17 de maio, a Câmara dos Deputados em Brasília colocaria em votação um requerimento de urgência para acelerar a tramitação de um projeto de lei que regulamentaria a educação domiciliar no Brasil — uma prioridade declarada do governo Bolsonaro. Mas uma pesquisa divulgada dias antes revelava um obstáculo considerável: oito em cada dez brasileiros não queriam que isso acontecesse.
O levantamento, realizado pelo Centro de Estudos em Opinião Pública da Unicamp em parceria com o Instituto Datafolha, ouviu 2.090 pessoas com 16 anos ou mais em 130 municípios entre 8 e 14 de março. A margem de erro máxima era de 2 pontos percentuais. O resultado foi claro: 78% dos entrevistados afirmavam que os pais não deveriam ter o direito de tirar seus filhos da escola e ensiná-los em casa. A pesquisa, coordenada pelas organizações Ação Educativa e Cenpec, foi batizada de Educação, Valores e Direitos.
Romualdo Portela de Oliveira, diretor de pesquisa e avaliação do Cenpec, interpretou o resultado como reflexo de uma compreensão profunda entre os brasileiros sobre o papel da escola. Não se tratava apenas de transmissão de conteúdo, explicou. A população entendia a instituição como espaço fundamental para socialização, desenvolvimento integral das crianças e adolescentes, e proteção contra possíveis situações de violência doméstica. Essa percepção havia se fortalecido durante a pandemia de covid-19, quando estudantes ficaram em casa com atividades remotas e as aulas presenciais foram suspensas — uma experiência que, paradoxalmente, reforçou a valorização do espaço escolar.
Os números da educação domiciliar no Brasil ainda eram pequenos. Segundo a Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned), apenas 15 mil estudantes entre 4 e 17 anos estudavam em casa, distribuídos em 7.500 famílias. Era um número ínfimo comparado aos 46,7 milhões de estudantes matriculados em 178 mil escolas conforme o Censo Escolar 2021 do Ministério da Educação.
Mas a rejeição pública não desacelerou o governo. Denise Carreira, coordenadora institucional da Ação Educativa e integrante da Rede de Ativistas pela Educação do Fundo Malala, criticou duramente a prioridade. Afirmou que a aprovação da educação domiciliar havia sido declarada inúmeras vezes como objetivo central do governo para a educação, constituindo um ataque ao direito à educação e ao processo de escolarização no país. Num momento em que os gastos com educação estavam no menor patamar em dez anos — quando deveria haver mais investimentos para minimizar os impactos da pandemia — a única coisa que o governo tinha a propor era uma agenda que prejudicava crianças e adolescentes e que não tinha apoio popular.
Outras organizações se alinharam à crítica. O Movimento Todos pela Educação divulgou nota na segunda-feira 16 de maio considerando a legalização do homeschooling uma medida equivocada e absolutamente fora de tempo. A entidade argumentava que torná-la prioridade na gestão educacional era um erro, e que o assunto não deveria sequer ser tema de debate no Congresso Nacional naquele momento. Passava longe do que precisava ser feito para melhorar a educação no Brasil e evidenciava uma inversão de prioridades do governo federal.
A Campanha Nacional pelo Direito à Educação e mais 350 entidades assinaram um manifesto contra a regulamentação da educação domiciliar e em defesa do investimento nas escolas públicas. No documento, consideravam que a possível autorização e regulamentação era fator de extremo risco e constituía mais um ataque ao direito à educação como uma das garantias fundamentais da pessoa humana. A votação na Câmara avançaria mesmo assim, com a população e as organizações de educação do lado oposto.
Notable Quotes
A população compreende que a escola é um espaço fundamental não apenas para que crianças e adolescentes recebam conteúdos, mas para a socialização, desenvolvimento integral e proteção diante de possíveis situações de violência em casa— Romualdo Portela de Oliveira, diretor de pesquisa e avaliação do Cenpec
Em um momento em que os gastos com educação estão no menor patamar em dez anos, a única coisa que o governo tem a propor é uma agenda que prejudica crianças e adolescentes e que não tem apoio popular— Denise Carreira, coordenadora institucional da Ação Educativa