Pesquisa militar dos EUA impulsionou desenvolvimento de cães-robôs chineses

É uma competição entre empresas privadas e a estratégia nacional coordenada
Kenneally resume o desafio fundamental que os EUA enfrenta na robótica contra a China.
Mark

Como exatamente a pesquisa militar americana acabou ajudando a Unitree?

Mimi

A pesquisa foi publicada abertamente — era para estimular o progresso. Pesquisadores do MIT e da UPenn desenvolveram avanços em robótica quadrúpede e compartilharam os detalhes. Um pesquisador chinês citou esse trabalho em sua tese de mestrado e depois fundou a Unitree. Não foi roubo; foi aproveitar conhecimento público.

Mark

Então por que a China conseguiu escalar isso e os EUA não?

Mimi

Capital. A China canalizou bilhões em manufatura de baixa margem de lucro. O capital de risco americano prefere software de alto retorno. Além disso, a China domina cadeias de suprimentos — ímãs, motores, atuadores — tudo concentrado perto de Hangzhou. Os EUA não têm isso.

Mark

A Unitree está fazendo algo que a Ghost Robotics não consegue?

Mimi

Não é que a Unitree seja mais inovadora. É que consegue fabricar em massa. A Ghost Robotics vende 1.000 robôs por milhões de dólares cada. A Unitree vendeu 18.000 quadrúpedes no ano passado. Escala muda tudo.

Mark

O Exército americano está comprando robôs chineses?

Mimi

Sim. Em 2023, o Exército obteve uma isenção para comprar dois Unitree Go2s porque não havia alternativas americanas de qualidade satisfatória em quantidade comercial. Depois, os fuzileiros navais acoplaram um lançador de foguetes a um Go1 para testes.

Mark

Isso não é um risco de segurança?

Mimi

É por isso que o Pentágono incluiu a Unitree em uma lista de empresas militares chinesas em junho. Mas o dano já estava feito — a tecnologia já estava disseminada. As restrições comerciais agora são mais sobre fechar a porta depois que o cavalo saiu.

Mark

Então qual é a solução?

Mimi

Não é apenas bloquear produtos chineses. Especialistas dizem que os EUA precisam investir em manufatura real, não apenas inovação. Construir fábricas, treinar mão de obra, criar cadeias de suprimentos. Sem isso, as barreiras comerciais sozinhas não funcionam.

  • Unitree vendeu 18.000 quadrúpedes e 5.500 humanóides no ano passado; avaliada em 9 bilhões de dólares
  • Pesquisa do MIT e UPenn financiada pelo Exército entre 2010 e 2020 foi publicada abertamente
  • Mini Cheetah do MIT (2019) tinha dimensões quase idênticas aos robôs Go da Unitree
  • Pentágono incluiu Unitree em lista de empresas militares chinesas em junho de 2026
  • Ghost Robotics vende Vision 60 por mais de 165 mil dólares; Unitree série B custa menos de 100 mil

Pesquisadores do MIT e UPenn financiados pelo Exército desenvolveram tecnologias de robótica que foram publicadas abertamente e posteriormente utilizadas pela Unitree para criar produtos comerciais de sucesso. A China canaliza capital estratégico, domina cadeias de suprimentos e consegue ampliar produção rapidamente, enquanto empresas americanas enfrentam dificuldades em escalar inovações sem apoio governamental robusto.

A Unitree Robotics da China baseou seus cães-robôs de sucesso em inovações financiadas pelo Exército dos EUA, revelando lacunas na capacidade americana de comercializar pesquisa avançada e competir com a estratégia industrial coordenada chinesa.

A história de como a pesquisa militar americana acabou impulsionando a indústria de robótica chinesa começa em laboratórios universitários financiados pelo Exército dos EUA e termina em fábricas de Hangzhou, onde a Unitree Robotics transformou inovações públicas em produtos comerciais de bilhões de dólares.

Entre 2010 e 2020, o Exército americano financiou um consórcio chamado Aliança de Tecnologia Colaborativa em Robótica, reunindo pesquisadores do MIT, da Universidade da Pensilvânia, da Boston Dynamics, da Nasa e de outras instituições. O objetivo era avançar a robótica quadrúpede — cães-robôs capazes de navegar terrenos difíceis. Em 2016, pesquisadores da UPenn, incluindo Gavin Kenneally, fizeram um avanço crucial: removeram as pesadas caixas de engrenagens centrais e colocaram motores nas pernas dos robôs, melhorando drasticamente a capacidade de detectar e responder ao terreno. Três anos depois, o MIT apresentou o Mini Cheetah, refinando ainda mais a tecnologia com maior força e a capacidade de fazer saltos mortais para trás. Ben Katz, que trabalhou no projeto, publicou sua tese de mestrado detalhando os atuadores do Mini Cheetah. Dentro de seis meses, ele descobriu que empresas chinesas já fabricavam cópias desses componentes — vendidas no AliExpress.

A Unitree Robotics havia sido fundada em 2013 por Wang Xingxing, então com 26 anos. Em sua tese de mestrado de 2016 na Universidade de Xangai, Wang citou explicitamente o trabalho do MIT, incluindo versões anteriores do Cheetah, e reconheceu as contribuições "pioneiras" do laboratório americano. Ele explorou ajustes no projeto para acelerar o desenvolvimento e mencionou aplicações futuras em "defesa, segurança, família e educação". A empresa que fundou agora vende mais de 5.500 humanóides e 18.000 quadrúpedes por ano e está avaliada em cerca de 9 bilhões de dólares, prestes a fazer sua estreia na bolsa de valores.

O que torna essa história particularmente reveladora é que a Unitree não agiu desonestamente. As descobertas do programa militar foram publicadas abertamente especificamente para estimular o progresso na área — uma prática comum na pesquisa científica. Amanda Ligon, porta-voz do Laboratório de Pesquisa do Exército, afirmou que a pesquisa "fortaleceu o ecossistema mais amplo de robótica dos EUA". Nenhum dos pesquisadores americanos que conversaram com a Reuters defendeu que essas pesquisas financiadas pelo governo fossem mantidas em segredo. Mas o que ninguém previu foi a velocidade e a escala com que a China transformaria essas inovações em produtos comerciais.

A diferença está na estratégia industrial. Em 2015, o presidente Xi Jinping traçou um plano de dez anos para liderar setores como energia verde, veículos elétricos e robótica. Desde então, a China canalizou capital para apostas arriscadas em manufatura avançada, caracterizada por margens de lucro baixas — exatamente o tipo de investimento que o capital de risco americano evita. A Unitree se beneficiou do domínio chinês no refinamento de minerais essenciais para ímãs, da densidade de fornecedores de motores, engrenagens e atuadores concentrados perto de Hangzhou, e da capacidade de ampliar produção rapidamente. Enquanto isso, nenhuma empresa americana — nem mesmo a Tesla de Elon Musk — conseguiu produzir robôs quadrúpedes ou humanóides em escala comercial.

Kenneally comercializou as inovações americanas através de sua empresa Ghost Robotics, que fornece robôs avançados às forças especiais dos EUA. Mas em comparação com a Unitree, sua produção é pequena e cara. Os Vision 60 da Ghost Robotics são vendidos por mais de 165 mil dólares; a série B da Unitree custa menos de 100 mil dólares. Jaret Riddick, ex-diretor do Laboratório de Pesquisa do Exército que supervisionou o projeto de robótica, reconheceu que sem apoio para produção em larga escala, a Unitree "acabou, de certa forma, ocupando esse espaço".

Em junho, o Pentágono incluiu a Unitree em uma lista de empresas militares chinesas, limitando o uso futuro de sua tecnologia pelas Forças Armadas americanas. Em julho, a Comissão Federal de Comunicações proibiu a importação de futuros modelos de robôs humanóides e quadrúpedes fabricados no exterior, incluindo os da Unitree. A China ameaçou retaliar. Mas especialistas alertam que barreiras comerciais sozinhas não são suficientes. "Não se trata apenas de uma competição entre empresas de robótica dos EUA e da China", disse Kenneally. "É uma competição entre empresas privadas dos EUA e a estratégia nacional coordenada da China". O desafio agora é se os EUA conseguem construir um setor capaz de competir — não apenas bloqueando produtos chineses, mas investindo em manufatura, capital, mão de obra qualificada e cadeias de suprimentos próprias.

O projeto financiado pelo Exército se tornou, basicamente, o primeiro robô da Unitree que teve alguma escala
— Gavin Kenneally, ex-pesquisador da Universidade da Pensilvânia
Não se trata apenas de uma competição entre empresas de robótica dos EUA e da China. É uma competição entre empresas privadas dos EUA e a estratégia nacional coordenada da China
— Gavin Kenneally, fundador da Ghost Robotics
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