Pesca com bombas na Indonésia destrói corais a cada 62 minutos

Milhares de famílias costeiras têm o seu sustento sufocado pela destruição contínua dos ecossistemas marinhos, enquanto espécies protegidas como dugongos, tartarugas e golfinhos são atingidas indiscriminadamente.
Um recife saudável soa como uma fogueira. Depois, apenas silêncio.
O que os microfones subaquáticos revelaram sobre o impacto das explosões nos ecossistemas marinhos.
Mark

Como é que ninguém tinha reparado nisto antes?

Mimi

Reparavam, mas não conseguiam medir. As bombas explodem debaixo de água, longe de terra. Os pescadores trabalham à noite. Tudo acontece invisível. O que mudou foi a tecnologia — microfones subaquáticos e máquinas que conseguem ouvir o que nós não ouvimos.

Mark

E os peixes? Desaparecem todos?

Mimi

Não desaparecem. Morrem. Metade deles fica no fundo do mar porque os pescadores têm medo de ser apanhados. É desperdício em massa. Mas o verdadeiro problema é que os recifes não conseguem recuperar. Cada bomba destrói décadas de crescimento.

Mark

Então por que razão continuam a fazer isto se é ilegal?

Mimi

Porque estão presos em dívidas. Um comerciante empresta-lhes combustível e explosivos. Eles têm de devolver. Com uma rede tradicional, precisam de vinte e cinco pessoas e ganham pouco. Com uma bomba, dois homens ganham cem quilogramas de peixe num instante. É a única forma de sair do buraco.

Mark

A lei não funciona?

Mimi

A lei existe. Mas as autoridades não têm barcos suficientes, nem combustível, nem pessoas para patrulhar 120 ilhas. É fácil fazer uma lei. É difícil aplicá-la quando não tens recursos.

Mark

E agora? Os microfones vão resolver isto?

Mimi

Podem ajudar. Conseguem mapear onde as bombas explodem. Mas só se o governo decidir usar essa informação para patrulhar e prender. Sem vontade política e sem dinheiro, é apenas mais uma ferramenta que ninguém usa.

  • A cada hora e dois minutos, uma bomba caseira pulveriza corais que levaram séculos a crescer — ao ritmo atual, a área destruída em três anos equivale à Cidade do Vaticano inteira.
  • Mais de metade do peixe morto pelas explosões nunca é recolhido, afundando-se no fundo enquanto a biomassa comercial nas zonas mais afetadas colapsa até 80 por cento.
  • O sistema Punggawa-Sawi prende pescadores em dívidas perpétuas, tornando a bomba a única resposta economicamente viável para quem precisa de cem quilogramas de peixe num instante.
  • Hidrofones subaquáticos e algoritmos de IA conseguem agora detetar detonações a 17 quilómetros e mapear pontos quentes de criminalidade com precisão inédita.
  • O governo indonésio tem as ferramentas de vigilância, mas faltam combustível, embarcações e logística para patrulhar eficazmente mais de 120 ilhas dispersas pelo arquipélago.

No fundo do Arquipélago de Spermonde, ao largo de Célebes, uma bomba explode a cada 62 minutos — invisível à superfície, mas audível aos hidrofones que cientistas internacionais instalaram no leito do oceano. Durante 16 meses, algoritmos de inteligência artificial analisaram milhares de horas de áudio e confirmaram o que muitos suspeitavam: a pesca com explosivos, proibida há duas décadas, continua a devastar um dos ecossistemas marinhos mais ricos do planeta. Por detrás de cada detonação há um pescador endividado, um sistema de dependência económica secular e um Estado com leis mas sem meios para as fazer cumprir.

Debaixo das águas do Arquipélago de Spermonde, no sul da Indonésia, os recifes de coral estão a morrer ao ritmo de uma explosão por hora. Uma equipa internacional de cientistas da Zoological Society of London, da Universidade de Hasanuddin e do University College of London colocou hidrofones no fundo do oceano e gravou 3650 horas de áudio ao longo de 16 meses. Algoritmos de aprendizagem automática analisaram cada som e identificaram 3567 detonações confirmadas — o equivalente a cerca de 8446 bombas por ano. Em três anos, a área destruída soma 490 mil metros quadrados de fundo marinho reduzido a escombros.

A pesca com explosivos é ilegal na Indonésia desde 2004, com penas até seis anos de prisão. Ainda assim, pescadores continuam a fabricar bombas com garrafas de vidro, nitrato de amónio e querosene, aperfeiçoando táticas para escapar às patrulhas: amarram pesos para que as explosões ocorram em profundidade, operam à noite com holofotes para atrair cardumes e desaparecem em minutos. Ben Williams, investigador da ZSL e principal autor do estudo, descreveu o contraste devastador: um recife saudável soa como uma fogueira a estalar; depois de uma vaga de bombas, resta apenas silêncio.

Por detrás da destruição ecológica existe uma crise humana e económica. O sistema tradicional Punggawa-Sawi mantém os pescadores presos a dívidas permanentes — os financiadores adiantam combustível e explosivos, e a bomba torna-se a única forma de obter retornos imediatos. Mais de metade do peixe morto nunca é recolhida, a biomassa comercial caiu até 80 por cento nas zonas mais afetadas, e espécies protegidas como dugongos, tartarugas e golfinhos são atingidas indiscriminadamente. Milhares de famílias costeiras veem o seu sustento desaparecer junto com os recifes.

Os hidrofones e a inteligência artificial oferecem agora uma ferramenta promissora, capaz de detetar detonações a 17 quilómetros e mapear com precisão os pontos quentes de criminalidade. Mas o professor Jamaluddin Jompa, biólogo marinho que trabalha em restauração de corais há mais de vinte anos, sabe que a tecnologia não basta: resta saber se o governo indonésio tem os meios logísticos para patrulhar eficazmente as mais de 120 ilhas do arquipélago e travar a morte silenciosa de um dos ecossistemas mais valiosos do planeta.

Debaixo da água, no Arquipélago de Spermonde, ao largo de Célebes no sul da Indonésia, algo está a morrer em silêncio. A cada hora e dois minutos, em média, uma bomba caseira explode no fundo do mar. Ninguém a vê. Ninguém a ouve à superfície. Mas os hidrofones subaquáticos ouvem tudo.

Uma equipa internacional de cientistas — da Zoological Society of London, da Universidade de Hasanuddin e do University College of London — colocou microfones no fundo do oceano e deixou-os a gravar durante 16 meses. Depois alimentou 3650 horas de áudio a algoritmos de aprendizagem automática, máquinas treinadas para distinguir o ruído natural do mar do som de uma detonação. O resultado foi perturbador: 3567 explosões confirmadas naquele período. Extrapolado para um ano inteiro, significa cerca de 8446 bombas. Cada uma delas destrói um pedaço do recife de coral. Ao fim de três anos, a área devastada equivale à Cidade do Vaticano inteira — 490 mil metros quadrados de fundo marinho reduzido a escombros.

A pesca com explosivos é ilegal na Indonésia há mais de vinte anos. A Lei das Pescas de 2004, revista em 2009, proíbe expressamente o uso de explosivos, químicos e métodos destrutivos. As penas chegam aos seis anos de prisão. Mas a lei existe num mundo, e a realidade existe noutro. Os pescadores continuam a fabricar bombas com garrafas de vidro, nitrato de amónio — um fertilizante agrícola barato — e querosene. Um detonador simples. Quando explode na água, a onda de choque rompe a bexiga natatória dos peixes, que caem mortos para o fundo.

Para evitar a detecção, os infratores aperfeiçoaram táticas de evasão. Amarram pesos às bombas para que explodam em profundidade, onde a onda de choque destrói o fundo mas o som não chega à superfície — invisível aos olhos das patrulhas. À noite, embarcações ligeiras usam holofotes potentes para atrair cardumes e depois lançam os engenhos, desaparecendo em minutos. Ben Williams, investigador da ZSL e principal autor do estudo, descreveu o que os microfones revelaram: um recife saudável soa como uma fogueira a estalar, cheio de sons de camarões-pistola e peixes. Depois de uma vaga de bombas, há apenas silêncio desolador.

O drama não é apenas ecológico. É também económico e humano. Mais de metade dos peixes mortos pelas explosões nunca é recolhida — afundam-se ou apodrecem no fundo porque os pescadores têm medo de aproximar-se das autoridades. A biomassa de peixe comercial nas zonas mais afetadas caiu até 80 por cento. Espécies protegidas — dugongos, tartarugas, golfinhos — são atingidas indiscriminadamente. Milhares de famílias costeiras veem o seu sustento desaparecer.

Mas por que razão continuam os pescadores? A resposta está num sistema tradicional chamado Punggawa-Sawi. Os comerciantes e financiadores — os Punggawa — adiantam combustível, alimentos e explosivos aos pescadores — os Sawi. Presos a dívidas permanentes, estes homens veem na bomba a única forma de obter retornos imediatos. Com dois ou três elementos e um punhado de explosivos, conseguem capturar cem quilogramas de peixe num instante. As frotas tradicionais, com redes de cerco sustentáveis, precisam de até vinte e cinco pescadores e enfrentam uma escassez extrema. A escolha, para quem está endividado, é óbvia.

O professor Jamaluddin Jompa, biólogo marinho e coautor do estudo, trabalha em projetos de restauração de corais há mais de vinte anos. Viu décadas de crescimento destruído em frações de segundo. A escala do problema ultrapassou todas as estimativas iniciais. Os hidrofones e os algoritmos de inteligência artificial oferecem agora uma ferramenta promissora: conseguem detetar detonações até 17 quilómetros de distância e mapear com precisão os pontos quentes de criminalidade no arquipélago. Mas resta uma pergunta fundamental: o governo indonésio tem os meios logísticos e de combustível necessários para patrulhar eficazmente as mais de 120 ilhas da região e travar a morte silenciosa do Triângulo de Coral?

A escala do problema ultrapassou todas as nossas estimativas iniciais. O ruído do recife saudável desaparece completamente após a vaga de destruição, dando lugar a um silêncio desolador.
— Ben Williams, investigador da Zoological Society of London
Temos trabalhado em projetos de restauração de corais há mais de 20 anos, mas todos os esforços de recuperação marinha se tornam inglórios quando uma única bomba pode destruir décadas de crescimento numa fração de segundo.
— Professor Jamaluddin Jompa, Universidade de Hasanuddin
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