No segundo trimestre de 2026, quase mil empresas varejistas brasileiras recorreram à recuperação judicial — um aumento de 20% em relação ao ano anterior — revelando não falhas individuais de gestão, mas uma pressão sistêmica que comprime simultaneamente o crédito das empresas e o poder de compra das famílias. Nomes como Casas Bahia, Marabraz e Grupo Toky ilustram que a crise atravessa portes e segmentos, enquanto economistas apontam para juros elevados e desequilíbrio fiscal como raízes de um problema que o varejo tradicional, já pressionado pelo e-commerce, não consegue absorver sozinho.
Pedidos de recuperação judicial no varejo crescem 20% no segundo trimestre de 2026
O varejo precisa respirar, mas o ar está rarefeito
Por que tantas lojas grandes estão pedindo recuperação judicial agora? Não deveriam ter reservas?
Têm, mas não o suficiente. O problema não é gestão ruim isolada — é que juros altos e consumidores endividados criaram um cenário onde até empresas bem-estruturadas não conseguem gerar caixa suficiente para pagar dívidas.
E a pandemia? Isso não foi há alguns anos?
Foi, mas as cicatrizes permanecem. Muitas lojas fecharam e nunca reabrirão. Além disso, o consumidor mudou de hábito — aprendeu a comprar online. Mesmo que a loja reabra, ela compete agora com a internet.
Então o problema é só de demanda? Consumidor sem dinheiro?
Não é só. É também de custo. Quando você pega dinheiro emprestado a 10%, 12% ao ano, fica muito caro manter uma operação. Lojas físicas têm aluguel, funcionários, estoque. Tudo fica mais caro quando os juros sobem.
Os economistas dizem que o governo precisa fazer algo. O que exatamente?
Controlar os gastos públicos. Enquanto o governo gasta mais do que arrecada, a inflação não cai, e o banco central não consegue baixar os juros. É um círculo vicioso.
E se o governo não fizer nada?
Mais empresas pedem recuperação judicial. Algumas fecham. Empregos desaparecem. O consumidor fica ainda mais endividado porque perde renda. Piora tudo.
Recuperação judicial salva a empresa?
Às vezes. Permite renegociar dívidas e reestruturar. Mas se o mercado continua hostil — juros altos, consumidor sem dinheiro — mesmo a empresa reestruturada sofre.
El Pulso
- 986 empresas varejistas pediram recuperação judicial no Q2 2026 — um ritmo que, se mantido, pode transformar o que parece uma crise setorial em colapso estrutural.
- Grandes redes como Casas Bahia, Marabraz e Tok&Stok entraram na lista, sinalizando que nem o tamanho nem a marca protegem contra juros que corroem margens e afastam consumidores endividados.
- Com famílias sem crédito e sem sobra no orçamento, bens duráveis — televisores, geladeiras, móveis — deixaram de ser compras possíveis, esvaziando exatamente o nicho que o varejo físico tradicional ocupa.
- Economistas defendem ajuste fiscal urgente, idealmente logo após as eleições, como condição mínima para que os juros recuem e o consumo volte a respirar.
- O próximo trimestre funcionará como termômetro: se os pedidos continuarem crescendo, o pico de 2026 terá sido apenas o início de uma tendência ainda sem fundo visível.
No segundo trimestre de 2026, quase mil empresas varejistas brasileiras recorreram à recuperação judicial — um aumento de 20% em relação ao ano anterior — revelando não falhas individuais de gestão, mas uma pressão sistêmica que comprime simultaneamente o crédito das empresas e o poder de compra das famílias. Nomes como Casas Bahia, Marabraz e Grupo Toky ilustram que a crise atravessa portes e segmentos, enquanto economistas apontam para juros elevados e desequilíbrio fiscal como raízes de um problema que o varejo tradicional, já pressionado pelo e-commerce, não consegue absorver sozinho.
A recuperação judicial existe para dar às empresas uma segunda chance — tempo e proteção legal para renegociar dívidas sem fechar as portas. No segundo trimestre de 2026, 986 varejistas brasileiros recorreram a esse mecanismo, 20% a mais do que no mesmo período de 2025. Os nomes envolvidos revelam a profundidade da crise: Casas Bahia, Lojas Marabraz e o Grupo Toky — controlador da Tok&Stok e da Mobly — figuram entre os casos recentes. O Grupo Pão de Açúcar optou por caminho paralelo, a recuperação extrajudicial, negociando diretamente com credores antes de qualquer validação judicial.
Economistas são unânimes em apontar causas estruturais, não falhas pontuais de gestão. Juros elevados encarecem o crédito para empresas e consumidores ao mesmo tempo. Ahmed El Khatib, professor de Finanças da Fecap, descreve famílias tão endividadas que bens antes considerados básicos — geladeiras, televisores — tornaram-se inacessíveis. O que sobra do salário vai para subsistência. As cicatrizes do fechamento de lojas durante a pandemia aprofundaram ainda mais a fragilidade do setor.
Ricardo Meirelles, da FGV, vai à raiz: sem disciplina fiscal, a inflação persiste, os juros não cedem e o poder de compra permanece comprimido. O ajuste das contas públicas, na visão dele, não pode esperar — precisa ocorrer no curto prazo, preferencialmente logo após as eleições. Empresários e economistas convergem nesse diagnóstico.
O varejo tradicional enfrenta ainda uma transformação que antecede a crise de juros. O consumidor aprendeu, na pandemia, a comprar de casa — e não esqueceu. Mesmo redes que migraram para o digital enfrentam concorrência online feroz. Para justificar a existência de lojas físicas, é preciso oferecer experiências que a tela não oferece.
Luiz Alexandre Cristaldo, do Instituto Brasileiro da Insolvência, lembra que manter empresas vivas é uma questão de interesse coletivo: empregos, impostos e desenvolvimento dependem disso. Mas a recuperação judicial só funciona se o ambiente econômico cooperar. Com juros altos e consumidores sem fôlego, até empresas reestruturadas encontram um mercado hostil. O próximo trimestre dirá se o aumento de 20% foi o pico — ou apenas o começo.
A recuperação judicial é um mecanismo de sobrevivência. Quando uma empresa enfrenta dívidas que ameaçam sua existência, ela pode pedir autorização ao tribunal para renegociar com credores e reestruturar suas operações sem fechar as portas. No segundo trimestre de 2026, quase mil empresas do varejo brasileiro recorreram a esse instrumento — 986 no total, um aumento de 20% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando 819 companhias haviam feito o mesmo pedido.
Os nomes que apareceram nos últimos meses revelam a profundidade da crise. Casas Bahia e Lojas Marabraz protocolaram pedidos de recuperação judicial recentemente. Em maio, foi a vez do Grupo Toky, que controla a Tok&Stok e a Mobly. Em março, o Grupo Pão de Açúcar havia anunciado um caminho ligeiramente diferente — uma recuperação extrajudicial, onde a empresa negocia diretamente com credores antes de qualquer validação judicial. Esses não são casos isolados de má gestão. Economistas apontam que as causas são estruturais e afetam o setor como um todo.
Os juros altos estão no centro do problema. Quando o banco central mantém taxas elevadas para conter a inflação, o custo do crédito sobe para empresas e consumidores simultaneamente. Ahmed El Khatib, professor de Finanças da Fecap, explica que as famílias brasileiras estão endividadas demais para continuar comprando. Televisões, geladeiras, fornos — bens que antes eram considerados necessários agora são luxos que as pessoas não conseguem pagar. O dinheiro que sobra no final do mês, quando sobra, vai para subsistência básica. As lojas fechadas durante a pandemia também deixaram marcas profundas no setor, reduzindo a base de operação de muitos varejistas.
Ricardo Meirelles, economista e professor da FGV, vai além. Ele argumenta que o problema raiz está no controle dos gastos públicos. Sem disciplina fiscal, a inflação permanece elevada, os juros não caem, e o poder de compra das famílias continua comprimido. Para que o varejo respire, é necessário que o governo ajuste suas contas. Meirelles é categórico: esse ajuste não pode esperar pelo médio prazo. Precisa acontecer no curto prazo, idealmente logo após as eleições. Economistas e empresários concordam nesse ponto.
O varejo tradicional enfrenta também uma transformação estrutural que vai além da crise de juros. O modelo antigo — lojas físicas como patrimônio, consumidor obrigado a sair de casa para comprar — desapareceu. A pandemia acelerou uma mudança que já estava em curso: o consumidor aprendeu que pode comprar de casa. Mesmo que as grandes redes varejistas tenham se adaptado e agora vendem pela internet, a concorrência online é feroz. O cliente contemporâneo tem opções: pode ir à loja para tocar e testar o produto, ou pode comprar online com a comodidade de estar em casa. Os varejistas tradicionais precisam oferecer experiências que justifiquem sua existência em um mercado que mudou.
Para muitas empresas, a recuperação judicial é o último recurso antes do colapso. Luiz Alexandre Cristaldo, vice-presidente do Instituto Brasileiro da Insolvência, defende que manter empresas vivas no mercado é essencial para o país. Uma empresa em funcionamento gera empregos, recolhe impostos, contribui para o desenvolvimento. Quando falha, o custo social é alto. Mas a recuperação judicial só funciona se o ambiente econômico permitir. Com juros altos e consumidores sem poder de compra, mesmo empresas reestruturadas enfrentam um mercado hostil. O próximo trimestre dirá se o aumento de 20% nos pedidos de recuperação foi apenas o começo de uma tendência ou um pico antes da estabilização.
Citas Notables
As famílias não têm mais espaço para comprar bens duráveis porque não sobra dinheiro no final do mês para subsistência— Ahmed El Khatib, professor de Finanças da Fecap
O ajuste fiscal precisa acontecer no curto prazo, até na semana pós-eleição, não no médio prazo— Ricardo Meirelles, economista e professor da FGV