PEC do fim da escala 6x1 propõe reduzir jornada para 40 horas e manter hora extra em dobro

Potencial redução de 638 mil postos de trabalho conforme projeções econômicas, com impactos maiores em construção, comércio e agropecuária.
31,8 milhões de brasileiros trabalham 44 horas por semana e ganham 42% do salário médio
A proposta afeta principalmente trabalhadores de baixa escolaridade que recebem significativamente menos que a média nacional.
Mark

Por que essa proposta é tão controversa se reduz jornada sem cortar salário?

Mimi

Porque o custo não desaparece — ele se redistribui. Se você trabalha menos horas pelo mesmo salário, a hora fica mais cara. Empresas precisam contratar mais gente ou pagar mais horas extras.

Luke

Mas os estudos sobre isso são antigos. O de Naercio Menezes Filho é dos anos 1980 e 1990, quando a jornada caiu de 48 para 44 horas. Não sabemos ao certo o que acontece em 2026.

Mark

E quanto aos setores que funcionam 24 horas? Hospitais, supermercados?

Mimi

Esses vão sofrer mais. Precisam reorganizar escalas inteiras. A PEC permite exceções por acordo coletivo, então provavelmente esses setores vão negociar modelos diferentes.

Luke

Aqui está o ponto: a PEC abre tantas exceções que é difícil saber o que realmente vai mudar. Categorias com regras específicas, acordos coletivos, superempregados sem controle de jornada — o texto é mais um guarda-chuva que uma regra clara.

Mark

E se a empresa simplesmente não contratar mais gente e pedir horas extras?

Mimi

Pode fazer isso. Até duas horas extras por dia são permitidas. Mas aí o custo sobe bastante — R$ 178 bilhões por ano segundo a CNI.

Luke

Esse número é de quem? Da indústria, que é contra. O Ipea tem outra projeção. Nenhum desses números é certo.

Mark

Então pode haver desemprego?

Mimi

Pode. Projetam 638 mil postos perdidos. Mas o estudo antigo de Naercio sugere que não houve aumento de desemprego quando a jornada caiu antes.

Luke

Exatamente — sugeriu. Não é garantia. E o contexto é completamente diferente agora.

Mark

Qual é o argumento mais forte a favor?

Mimi

A saúde. Mais de 840 mil pessoas morrem por ano por problemas psicossociais do trabalho. Burnout, AVC, suicídio. Pesquisa da Boston College mostrou que reduzir dias de trabalho diminui burnout e aumenta produtividade.

Luke

Mas isso é em empresas que escolheram reduzir. Não é a mesma coisa que uma lei obrigando.

  • 31,8 milhões de trabalhadores CLT trabalham na jornada de 44 horas semanais
  • Jornada reduz para 42 horas em 2026 e 40 horas em 2027, sem corte salarial
  • Projeção de 638 mil postos de trabalho perdidos e queda de 0,7% no PIB
  • CNI calcula custo de até R$ 267,2 bilhões por ano para empresas
  • Escala 5x2 entra em vigor 60 dias após promulgação da PEC

A PEC substitui escala 6x1 por 5x2 com dois dias de folga remunerada por semana, reduzindo jornada para 42 horas ainda em 2026 e 40 horas em 2027. Trabalho aos domingos mantém direito a hora extra em dobro se não houver folga compensatória, com exceções para categorias com regras específicas e acordos coletivos.

Proposta de emenda constitucional prevê fim da escala 6x1, adoção de 5x2 e redução de jornada de 44 para 40 horas até 2027 sem corte salarial, mantendo hora extra em dobro aos domingos.

Uma proposta de emenda constitucional que pode transformar a rotina de milhões de trabalhadores brasileiros chega à votação nesta quarta-feira na Câmara dos Deputados. O texto, apresentado pelo deputado Leo Prates (Republicanos-BA), prevê o fim da escala 6x1 — aquela em que se trabalha seis dias seguidos com apenas um de folga — e sua substituição por um modelo 5x2, com dois dias de descanso remunerado por semana.

A mudança mais imediata é a redução da jornada semanal. Atualmente fixada em 44 horas, ela cairia para 42 horas ainda em 2026 e chegaria aos 40 horas em 2027, sem redução de salário. Essa garantia de manutenção dos vencimentos é central na proposta: segundo especialistas ouvidos, se aprovada como está, o valor da hora de trabalho deveria inclusive aumentar, embora os salários atuais permaneçam os mesmos. A escala 5x2 entraria em vigor 60 dias após a promulgação da emenda, com preferência para que um dos dias de folga seja domingo.

O texto, porém, não é simples. Abre exceções para categorias com regras específicas já estabelecidas em lei ou normas regulamentadoras, e permite que acordos e convenções coletivas proponham arranjos diferentes. Durante o período de transição, trabalhadores podem ser obrigados a cumprir jornadas superiores a oito horas diárias sem que essas horas sejam contadas como extras. Servidores públicos podem ter de esperar mais tempo para serem beneficiados. A PEC também cria a figura do "superempregado" — profissional com diploma de nível superior e renda mensal igual ou superior a duas vezes e meia o teto do INSS — que não terá controle de jornada.

Quem trabalha aos domingos ou feriados mantém o direito de receber em dobro se não houver folga compensatória ou acordo coletivo prevendo outra regra. A legislação já permite trabalho nesses dias para atividades essenciais, e a PEC não muda isso. O que muda é a obrigação das empresas de reorganizar suas escalas: setores que funcionam continuamente — saúde, hotelaria, comércio, transporte, indústria — enfrentarão maiores desafios operacionais. A tendência é que a alternância entre plantões e folgas aumente, reduzindo a quantidade de fins de semana consecutivos trabalhados.

Os números envolvidos são expressivos. Dos 44 milhões de trabalhadores contratados pela CLT no Brasil, 31,8 milhões trabalham na jornada de 44 horas semanais, segundo dados de 2023 da Rais. Esses profissionais ganham em média R$ 2.626,05 mensais — 42,3% do salário médio geral, que é de R$ 6.211. A diferença é explicada pela baixa escolaridade dessa população.

Os argumentos a favor da mudança vão além do econômico. A Organização Internacional do Trabalho aponta que mais de 840 mil pessoas morrem anualmente por consequências de problemas psicossociais ligados ao trabalho, como burnout, acidentes vasculares cerebrais e doenças cardiovasculares. Pesquisa da Boston College mostrou que funcionários de empresas que reduziram dias de trabalho tiveram diminuição significativa de burnout, melhora na saúde mental e física, maior satisfação profissional e até aumento de produtividade. Há também argumentos sobre desenvolvimento de crianças e adolescentes com pais mais presentes, possíveis melhoras educacionais e questões religiosas.

Os números contra, porém, são também substanciais. Estudo do economista Daniel Duque, da FGV-Ibre, projeta redução de cerca de 638 mil postos de trabalho e queda de 0,7% no PIB. A Confederação Nacional da Indústria calcula que o fim da escala 6x1 elevaria os custos das empresas brasileiras em até R$ 267,2 bilhões por ano — 7% da folha de pagamento. Se as empresas optarem por pagar horas extras em vez de contratar, o custo seria menor, chegando a R$ 178,2 bilhões anuais. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada projeta alta de 7,84% no custo da mão de obra, a ser absorvida pela economia.

A maioria das federações e associações de empregadores se opõe à medida, com setores como agronegócio e indústria apresentando estudos sobre impactos econômicos negativos e tentando derrubar a PEC no Senado. Há, porém, empresários favoráveis que já implementam mudanças. Países como França, Holanda e Reino Unido já aboliram a escala 6x1: a França estabeleceu 35 horas semanais em 1998, a Holanda funciona com 32 horas na escala 4x3, e várias empresas britânicas já adotam o modelo 4x3, embora sem determinação oficial. A votação desta quarta-feira marca o próximo passo de um debate que divide economistas, empresários e trabalhadores sobre o futuro do trabalho no país.

Mais de 840 mil pessoas morrem por ano por consequências de problemas psicossociais decorrentes do trabalho, como burnout, AVC, doenças cardiovasculares e suicídio
— Organização Internacional do Trabalho
Funcionários de empresas que reduziram dias de trabalho tiveram diminuição significativa de burnout, melhora na saúde mental e física, maior satisfação com o trabalho e aumento da produtividade
— Pesquisa da Boston College
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