Payroll forte pressiona, mas Ibovespa resiste e fecha quase estável

A bolsa está barata, e os investidores voltaram a notar
Economista explica por que o Ibovespa resistiu ao choque do payroll americano mais forte que o esperado.
Mark

Por que o Ibovespa conseguiu resistir quando tudo apontava para um dia ruim?

Mimi

Porque o choque externo do payroll perdeu força ao longo do dia, e os investidores voltaram a olhar para fatores domésticos — a situação fiscal, o cenário eleitoral, e a percepção de que os ativos brasileiros ainda estão baratos.

Luke

Mas isso é uma leitura de mercado que pode mudar. Perretti mesmo diz que essa melhora na percepção está bastante ligada à evolução do cenário político. Não é algo sólido.

Mark

Então o que realmente mudou de um lado para o outro do pregão?

Mimi

O payroll foi um choque inicial forte, mas não teve continuidade. Depois que o mercado digeriu o número, voltou a pesar o fato de que a Bolsa brasileira oferece valor.

Luke

E Vale ajudou, enquanto Petrobras puxou para baixo. Não é como se o índice tivesse tido uma reação unificada.

Mark

Os juros americanos subiram mesmo assim, certo?

Mimi

Sim. A probabilidade de o Fed aumentar juros em setembro subiu de 49,4% para 58,6%. O rendimento dos Treasuries subiu. O dólar ganhou força. Tudo isso continua sendo um problema para o Brasil.

Luke

E Perretti deixa claro que isso importa: se os juros americanos subirem, o Banco Central brasileiro tem menos espaço para cortar a Selic. Então o efeito do payroll não desapareceu, apenas não foi suficiente para derrubar o Ibovespa naquele dia.

Mark

O que vem a seguir?

Mimi

Os próximos números de inflação dos Estados Unidos. Eles vão mostrar se a força do mercado de trabalho está acompanhada de novas pressões sobre os preços.

Luke

E isso vai determinar se o Fed realmente sobe os juros em setembro, ou se recua. Tudo ainda está em aberto.

  • EUA criaram 162 mil empregos em agosto, quase 3x acima dos 55 mil esperados
  • Probabilidade de aumento de juros do Fed em setembro subiu de 49,4% para 58,6%
  • Ibovespa caiu até 183.251 pontos (-1%) mas fechou aos 185.147 pontos (-0,02%)
  • S&P 500, Dow Jones e Nasdaq caíram enquanto Ibovespa resistiu
  • Dólar subiu 0,5%, para R$ 5,13

EUA criaram 162 mil empregos em agosto, quase 3x acima da expectativa de 55 mil, elevando probabilidade de aumento de juros do Fed de 49,4% para 58,6%. Ibovespa caiu até 183.251 pontos (queda de 1%) mas recuperou completamente, fechando aos 185.147 pontos (-0,02%), enquanto S&P 500, Dow Jones e Nasdaq caíram.

Dados de emprego americano acima do esperado aumentam apostas em alta de juros do Fed, pressionando mercados globais. Ibovespa cai inicialmente mas recupera perdas, fechando praticamente estável graças a fatores domésticos.

Na sexta-feira, o mercado americano de trabalho entregou um susto. Enquanto analistas esperavam a criação de 55 mil empregos em agosto, o relatório de payroll — o principal indicador oficial do emprego nos Estados Unidos — registrou 162 mil postos de trabalho abertos. A diferença era gritante: quase três vezes acima da projeção. O número disparou as apostas de que o Federal Reserve elevaria os juros em sua próxima reunião, de 49,4% para 58,6%. O dólar ganhou força. Wall Street caiu. E o Ibovespa sentiu o baque imediatamente.

O índice brasileiro abriu o pregão aos 185.188 pontos, herdado do fechamento anterior. Minutos depois, despencou até 183.251 pontos — uma queda superior a 1%. O movimento era esperado: um mercado de trabalho mais robusto nos EUA significa inflação mais persistente, juros americanos mais altos por mais tempo, e menos apetite dos investidores por ativos de risco em economias emergentes como o Brasil. Tudo apontava para um dia vermelho.

Mas a história do pregão não terminou ali. Ao longo da manhã, compradores reapareceram. O Ibovespa recuperou cada ponto perdido, virou para alta e chegou a 186.544 pontos — uma máxima que coincidiu com uma resistência técnica importante que analistas monitoravam. À tarde, o fôlego diminuiu novamente. O índice recuou, acomodou-se e fechou aos 185.147 pontos, uma queda de apenas 0,02%. Entre a mínima e a máxima do dia, foram mais de 3.200 pontos de oscilação.

O contraste com o exterior era marcante. Enquanto o Ibovespa terminava praticamente estável, o S&P 500 caiu 0,38%, o Dow Jones recuou 0,53% e o Nasdaq perdeu 0,29%. Os Treasuries subiram — o rendimento do papel de dois anos, sensível às expectativas de juros, avançou cerca de 4 pontos-base para 4,377%. O dólar fechou em alta de 0,5%, a R$ 5,13. O ambiente externo era claramente mais difícil. Ainda assim, o mercado brasileiro encontrou compradores.

Especialistas apontam uma combinação de fatores para explicar a resistência. O choque inicial do payroll perdeu força ao longo do dia, enquanto fatores domésticos voltaram a ganhar peso. Investidores continuavam olhando para a trajetória das contas públicas, para as expectativas em torno do cenário eleitoral e para a percepção de que os ativos brasileiros permaneciam relativamente atrativos. Rafael Perretti, economista da Clear Corretora, resumiu: "O impacto imediato em relação ao payroll não trouxe continuidade porque a gente tem uma bolsa muito barata, uma bolsa atrativa." Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, complementou que o mercado brasileiro passou a mostrar um fluxo comprador sustentado por fatores locais, com investidores priorizando o cenário doméstico, especialmente as perspectivas eleitorais.

A composição do índice também ajudou a explicar o resultado. Vale subiu 0,22%, para R$ 78,62. O Itaú terminou estável, a R$ 41,92. Mas a Petrobras permanecia como contrapeso: a PETR3 caiu 1,08%, para R$ 52,01, enquanto a PETR4 recuou 0,95%, para R$ 47,11. O desempenho de Vale e de parte do setor financeiro permitiu que o índice recuperasse terreno, enquanto a queda da Petrobras limitou um avanço mais consistente.

O payroll, porém, não desapareceu do radar. Os juros americanos terminaram mais pressionados, o dólar subiu e Wall Street fechou em queda. O mercado passou a enxergar uma alta de juros pelo Fed em setembro como o cenário mais provável. Se os juros nos Estados Unidos subirem, o Banco Central brasileiro pode encontrar menos espaço para reduzir a Selic, já que o diferencial entre as taxas dos dois países influencia a atratividade dos ativos locais. Depois da surpresa do emprego, os próximos números de inflação dos Estados Unidos ganham ainda mais importância — eles poderão mostrar se a força do mercado de trabalho está acompanhada de novas pressões sobre os preços.

O impacto imediato em relação ao payroll não trouxe continuidade porque a gente tem uma bolsa muito barata, uma bolsa atrativa
— Rafael Perretti, economista da Clear Corretora
Investidores parecem priorizar mais o cenário local, especialmente sobre as perspectivas eleitorais
— Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital
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