Em Matosinhos, o escritor Paulo Sobral apresenta um ensaio que convida à mais exigente das viagens: a que se faz para dentro de si mesmo. 'Desconfiança Útil' parte de histórias vividas para interrogar as medidas herdadas com que nos julgamos e a distância entre quem julgamos ser e quem somos na ausência de testemunhas. Num tempo em que as certezas circulam rápidas e formatadas, Sobral propõe o gesto antigo e necessário de duvidar — não como fraqueza, mas como forma de habitar a própria vida com mais honestidade.
Paulo Sobral apresenta 'Desconfiança Útil', ensaio sobre autoconhecimento e relações humanas
A vergonha transforma-se em arquitetura interior e mora lá durante anos
O que torna este livro diferente de uma simples autobiografia?
Sobral começa com histórias pessoais e reais, mas não está a contar a sua vida. Está a usar essas histórias como ponto de entrada para reflexões sobre como nos formamos, como nos medimos, como nos enganamos a nós próprios.
Mas a estrutura é clara — onze capítulos, uma narrativa que avança. Há um argumento subjacente que liga tudo isto?
Sim. A ideia de "desconfiança útil" é o fio condutor. É sobre aprender a olhar para dentro, a questionar as medidas que herdámos, a ver o que está instalado em nós sem o sabermos.
A sameira é apenas uma anedota ou tem peso real no livro?
É a metáfora fundadora. Uma criança rouba uma garrafa, mente sobre isso, e carrega a vergonha durante dezassete anos. Quando finalmente confessa, o amigo não se lembra. Mas a carga ficou só com quem a carregou.
Portanto, o livro está a dizer que as nossas histórias internas — as que ninguém conhece — nos moldam mais do que os factos objetivos?
Exatamente. O que fica não são os factos, mas como aquilo se sentiu. Somos uma sucessão de instalações, umas sobre as outras.
E qual é a utilidade dessa desconfiança?
Permite-te ver o que está instalado em ti, em vez de continuares a habitar a tua própria casa como se tudo tivesse estado sempre ali.
No final, Sobral diz que nunca possuiremos a verdade. Isso não é um pouco pessimista?
Não, porque logo a seguir diz que teremos mais facilidade em descobri-la. É um convite a duvidar das certezas, especialmente num tempo em que as redes sociais nos dão certezas prontas.
Então a apresentação de quarta-feira vai ser sobre o quê, exatamente?
Sobre a obra, sobre o que está dentro dela, mas também sobre como cada um de nós pode começar a olhar para dentro. Haverá espaço para perguntas e conversas.
The Pulse
- A pergunta central do ensaio é incómoda por design: o que fazemos com aquilo que descobrimos quando nos examinamos a sério?
- Sobral avisa logo no prólogo que o texto provoca desconforto — e que ele próprio é o primeiro a ser colocado sob escrutínio.
- A metáfora fundadora — o roubo de uma sameira aos nove anos, carregado em silêncio durante dezassete — revela como experiências aparentemente pequenas se tornam arquitetura interior invisível.
- O ensaio propõe a 'desconfiança útil' como antídoto às certezas das redes sociais: entrar na própria casa interior para ver o que está instalado, em vez de continuar a habitá-la sem questionar.
- A apresentação na Biblioteca Florbela Espanca, com Pedro Chagas Freitas, abre espaço a perguntas e conversas — o livro não se fecha, e talvez o debate também não.
Em Matosinhos, o escritor Paulo Sobral apresenta um ensaio que convida à mais exigente das viagens: a que se faz para dentro de si mesmo. 'Desconfiança Útil' parte de histórias vividas para interrogar as medidas herdadas com que nos julgamos e a distância entre quem julgamos ser e quem somos na ausência de testemunhas. Num tempo em que as certezas circulam rápidas e formatadas, Sobral propõe o gesto antigo e necessário de duvidar — não como fraqueza, mas como forma de habitar a própria vida com mais honestidade.
Paulo Sobral apresenta esta quarta-feira, às 18h30, no auditório da Biblioteca Florbela Espanca em Matosinhos, o ensaio 'Desconfiança Útil', acompanhado pelo escritor Pedro Chagas Freitas. A sessão gira em torno de uma pergunta que o livro nunca resolve completamente: como queremos viver depois de examinarmos com atenção aquilo que nos moldou.
O ensaio não é uma autobiografia, mas constrói-se a partir de histórias reais — algumas do próprio Sobral, outras de personagens que o rodearam. O primeiro capítulo começa com uma brincadeira de infância: nos anos 70, Sobral roubou a sameira de um amigo mais novo e carregou a mentira durante dezassete anos. Quando finalmente confessou, o amigo riu-se e não se lembrava de nada. A vergonha, porém, tinha-se transformado em arquitetura interior — um lugar habitado em silêncio, sem que ninguém, nem o próprio autor, soubesse que estava lá.
A sameira torna-se metáfora para o exercício central do livro: entrar na própria casa como quem a inspeciona pela primeira vez, ver o que ainda funciona, o que apodreceu, o que nunca foi aberto. A isto Sobral chama 'desconfiança útil'. Ao longo dos onze capítulos e 262 páginas, o autor desenvolve a ideia de que somos uma sucessão de instalações — algumas tão profundas que alteram o sistema operativo inteiro, outras simples atualizações. O que fica gravado não são os factos, mas o impacto: como aquilo se sentiu.
Sobral escreve sobre si esperando que os padrões se repitam o suficiente para tocar os leitores — porque é tudo o que um livro pode fazer. A parte que diz respeito a cada um não está impressa: está no momento em que alguém estranha um gesto habitual seu, um azedume sem origem, uma recusa que chega antes da pergunta. No final, o autor deixa uma certeza paradoxal: nunca possuiremos a verdade, mas teremos mais facilidade em descobri-la. Num tempo de relações formatadas pelas redes sociais, o ensaio propõe que cada um duvide — e olhe mais para dentro.
Paulo Sobral vai apresentar esta quarta-feira, às 18h30, no auditório da Biblioteca Florbela Espanca em Matosinhos, o seu novo ensaio intitulado "Desconfiança Útil". O escritor Pedro Chagas Freitas acompanha a sessão, que durará cerca de uma hora e girará em torno de uma pergunta central: como queremos viver depois de examinarmos com atenção aquilo que nos moldou.
O livro não é uma autobiografia, mas constrói-se a partir de histórias reais — algumas envolvendo o próprio Sobral, outras centradas em personagens que o rodearam, algumas ainda vivas, outras já desaparecidas. No prólogo, o autor avisa que o texto será desconfortável em certos momentos, e que ele próprio é o primeiro caso que coloca sob escrutínio. O ensaio examina as medidas que herdámos e continuamos a usar para nos avaliarmos, a lacuna entre quem acreditamos ser e quem somos quando ninguém nos observa, e a forma como antecipamos o que os outros dirão antes mesmo de abrirem a boca.
O primeiro capítulo, que dá nome ao livro, começa com uma brincadeira de infância. Nos anos 70, as crianças portuguesas divertiam-se com sameiras — as garrafas de Sumol que rodavam no ar. A de Sobral tinha personagens de banda desenhada. Aos nove anos, roubou a sameira a um amigo mais novo. A garrafa ficou com ele, mas também a mentira. Durante dezassete anos carregou esse peso sozinho, até confessar ao amigo o engano. A reação foi simples: o amigo riu-se e não se lembrava de nada. A vergonha, porém, tinha-se transformado em arquitetura interior, um lugar onde Sobral habitou durante anos sem que ninguém — nem ele próprio — soubesse que estava lá.
A sameira torna-se metáfora para compreender a importância de olhar para dentro, como quem entra numa casa herdada: ver o que ainda funciona, o que apodreceu, o que foi guardado, o que nunca ninguém abriu para inspecionar. A isto Sobral chama "desconfiança útil". Mais adiante no ensaio de onze capítulos, ele disserta sobre "O software que ninguém pediu para instalar", retomando a história da sameira sem a nomear explicitamente. O que permanece de uma experiência formadora não são os factos, mas o impacto — não importa se esquecemos o dia, o ano ou a idade exata. O que fica gravado, o que continua a dar ordens, é como aquilo se sentiu. Somos, nesse sentido, uma sucessão de instalações, umas sobre as outras, algumas tão profundas que alteram o sistema operativo inteiro, outras leves, simples atualizações. A "desconfiança útil" é a atitude de quem entra na própria casa para ver o que está instalado, em vez de continuar a habitá-la como se tudo tivesse estado sempre ali.
Ao longo das 262 páginas, Sobral tece novas histórias, novos factos, novas análises sobre o que nos formata e nos guia, mantendo um fio condutor que, como sugere o último capítulo, nunca se fecha completamente — nem o próprio livro se encerra. Ele escreve sobre si próprio esperando que os padrões se repitam o suficiente para tocar os leitores de raspão, porque é tudo o que um livro pode fazer. A parte que diz respeito a cada leitor não está impressa: está no momento em que se apercebem de um gesto seu habitual que estranha, um azedume sem origem, uma pressa desnecessária, uma recusa que chega mais depressa do que a pergunta.
No final, Sobral deixa uma certeza: nunca possuirão a verdade, mas terão mais facilidade em descobri-la. Num tempo em que as relações humanas são cada vez mais formatadas por certezas disseminadas nas redes sociais, o ensaio propõe que cada um olhe mais para dentro de si e para a sua relação com os outros. E que duvide. A apresentação de quarta-feira incluirá não apenas a discussão da obra, mas também espaço para perguntas e conversas — talvez, como sugere o texto, o ponto de partida para outro livro.
Notable Quotes
Habituem-se à ideia de que nunca possuirão a verdade. Terão mais facilidade em descobri-la.— Paulo Sobral, no encerramento do ensaio
Uma criança de nove anos, sozinha com a vergonha de uma mentira sobre uma sameira, transforma essa vergonha em arquitetura interior.— Paulo Sobral, descrevendo o episódio fundador do livro