Paula Fernandes retorna a Barretos após dez anos e critica machismo no sertanejo

Para emocionar, tem que ser humano, vulnerável, profundo.
Paula Fernandes explica por que recusa usar inteligência artificial na composição de suas músicas.
Mark

Por que voltar agora, depois de dez anos? O que mudou?

Mimi

Barretos sempre foi importante para mim. Mas eu precisava daquele tempo longe — para respirar, para lembrar por que comecei. Quando você faz 220 shows por ano, perde a si mesma.

Mark

Você fala muito sobre machismo. Isso ainda dói?

Mimi

Não dói mais. Mas preciso falar porque ainda está acontecendo. Veja o line-up de sexta-feira: 13,6% de mulheres. Isso não é coincidência.

Mark

E aquelas fofocas sobre sua carreira? Como você segue em frente?

Mimi

Você aprende que as pessoas vão inventar histórias de qualquer forma. O que importa é você saber quem você é. Eu era uma menina que trabalhava, ponto final.

Mark

Sua mãe parece ter sido tudo.

Mimi

Ela me salvou. Literalmente. Aos 18 anos eu queria morrer, e ela disse que pulava antes de mim. Como você esquece disso? Como você não luta?

Mark

Você recusa inteligência artificial na composição. Por quê?

Mimi

Porque música é vulnerabilidade. É você colocando seu coração em palavras. IA não tem coração. Se eu usar, estou traindo minha natureza de criadora.

Mark

E política? Por que não se posiciona?

Mimi

Porque minha arte alcança todos. Se eu escolho um lado, perco metade do meu público — e mais importante, perco a universalidade da arte. Meu voto é meu, guardado comigo.

  • Após dez anos de ausência, Paula Fernandes sobe novamente ao palco de Barretos montada a cavalo, cantando Ave Maria — o mesmo gesto de estreia que marcou o início de tudo.
  • O line-up de sexta-feira em Barretos expõe a tensão ainda viva: apenas 3 mulheres entre 22 artistas, 13,6% de representação em um dos maiores eventos do país.
  • Fernandes descreve uma indústria moldada para homens — sem espelho, sem banheiro, sem palco seguro para salto — e fofocas que tentaram reduzir sua imagem a algo que ela nunca foi.
  • Ela recusa o uso de inteligência artificial na composição por convicção ética, defendendo que a emoção verdadeira exige vulnerabilidade humana — algo que algoritmos não alcançam.
  • Ao desacelerar a carreira em busca de equilíbrio, a artista encontrou não o fim do sucesso, mas uma definição mais honesta dele: casa, animais, tempo, e a liberdade de ser uma pessoa comum.

Dez anos depois de sua última aparição no maior rodeio da América Latina, Paula Fernandes retorna à Festa do Peão de Barretos carregando não apenas sucessos, mas as marcas de uma indústria que durante muito tempo não tinha banheiro no camarim para mulheres. Sua trajetória — da zona rural sem luz elétrica em Minas Gerais ao estrelato de 1,6 milhão de discos vendidos — é também a história de um gênero musical que ainda aprende, lentamente, a dividir o palco. Ela volta sem pedir espaço de ninguém, apenas o seu.

Paula Fernandes retorna à Festa do Peão de Barretos na noite de quinta-feira montada a cavalo, cantando Ave Maria — a mesma abertura que inaugurou sua presença no maior rodeio da América Latina, uma década atrás. Na sexta-feira, sobe ao palco Amanhecer para um show solo em que celebra seus 42 anos, revisita clássicos e apresenta músicas do novo álbum, 30 & Poucos Anos.

A história que a trouxe até ali começa longe dos holofotes: uma zona rural de Minas Gerais sem eletricidade nem saneamento, uma infância descalça, e os primeiros shows em botecos por R$ 40 a noite. O salto veio em 2011, quando se tornou a artista mais tocada nas rádios brasileiras e vendeu 1,6 milhão de discos — chegando a 220 shows em um único ano.

Mas o sucesso conviveu com resistências. Pedir um banheiro no camarim ou um palco sem buracos para usar salto era tratado como capricho. A indústria era feita para homens que chegam de botina e trocam de roupa em qualquer canto. E as fofocas não poupavam: em uma semana, inventaram cinco namorados para ela. A narrativa era cruel e contraditória — discreta, trabalhadora, solteira, e ainda assim alvo constante.

Fernandes celebra que artistas como Ana Castela enfrentam menos barreiras hoje, mas insiste que o problema persiste. No line-up de sexta em Barretos, apenas 13,6% dos artistas são mulheres. Na programação completa dos seis dias, 11,6%. Ela não quer o espaço de ninguém — apenas o seu.

Desacelerou os shows em busca de equilíbrio, palavra que hoje define seu conceito de sucesso. Sobre versões de músicas estrangeiras — como Shallow, que virou meme e acabou sendo uma de suas mais ouvidas no Spotify — mudou de ideia: o que parecia crítica virou marketing positivo. O que não negocia é o uso de inteligência artificial na composição. 'Para emocionar, tem que ser humano, vulnerável, profundo. E IA não tem profundidade', afirma.

Em política, mantém postura apartidária — seu voto é íntimo, sua arte é universal. E por trás de tudo, há sua mãe: a mulher que, quando Paula aos 18 anos escolheu uma janela para pular, respondeu que pularia antes. A mesma que ouvia a filha voltar dos botecos e dizia que ela seria uma das maiores artistas do Brasil. 'Talvez eu seja real demais', conclui Fernandes. 'Mas não vou mudar.'

Paula Fernandes retorna à Festa do Peão de Barretos na noite de quinta-feira, 27 de agosto, montada a cavalo e cantando Ave Maria — a mesma abertura que marcou o início de sua carreira, dez anos atrás. É assim que ela reaparece no maior rodeio da América Latina, antes de subir ao palco Amanhecer na sexta-feira para um show só seu, onde celebrará seus 42 anos revisitando sucessos como Pássaro de Fogo e apresentando músicas de seu novo álbum, 30 & Poucos Anos.

A trajetória que a trouxe até aqui começou longe dos holofotes. Nascida em uma zona rural de Minas Gerais sem eletricidade nem saneamento básico, Fernandes cresceu descalça, montando a cavalo, e chegou à cidade para estudar. Seus primeiros anos na música foram marcados por apresentações em botecos, ganhando R$ 40 por noite, de terça a domingo. O salto veio em 2011, quando se tornou a artista mais tocada do ano nas rádios brasileiras e vendeu 1,6 milhão de discos. Naquele ano, chegou a fazer 220 shows.

Mas o sucesso não apagou as cicatrizes de uma indústria construída para homens. Quando começou, Fernandes enfrentava espanto e rejeição. Pedidos simples — um banheiro no camarim, um espelho, um palco sem buracos para usar salto — eram tratados como luxo, não necessidade. "Era tudo moldado para homens, que chegam de botina, trocam de roupa em qualquer lugar, colocam uma camisa xadrez e está tudo certo", relembra. Além da resistência estrutural, havia as fofocas: em uma semana, inventaram cinco namorados para ela. A narrativa era cruel: "boazinha, mas passa o rodo, né?". Ela era solteira, discreta, uma máquina de trabalho.

Embora celebre que artistas da nova geração como Ana Castela não enfrentem o mesmo, Fernandes insiste que o problema persiste. No line-up de sexta-feira em Barretos, apenas três mulheres entre 22 artistas — 13,6%. Na programação completa dos seis dias, elas representam 11,6% das atrações. "Posso parecer repetitiva, mas a gente ainda precisa de mais espaço nas grades de shows dos grandes eventos", diz. Ela não quer o espaço de ninguém, apenas o seu.

Desacelerou o ritmo de shows em busca de equilíbrio — uma palavra que, para ela, é sinônimo de sucesso. Precisava de sua casa, sua cama, seus animais, tempo para ser uma pessoa normal. Hoje compõe com mais liberdade, embora reconheça que sua vivência mudou: já não é a menina anônima e sem recursos de antes. Mas a essência permanece.

Sobre as versões em português de sucessos estrangeiros, que a tornaram uma "grande versionista", Fernandes mudou de ideia. Inicialmente tinha aversão, mas agora vê como desafio. Sua versão de Shallow virou meme — "juntos e shallow now" — e acabou sendo marketing positivo, uma das suas músicas mais ouvidas no Spotify. Os críticos sempre existirão, mas o saldo foi positivo.

O que não negocia é o uso de inteligência artificial na composição. "Como criadora, é inadmissível usar uma vírgula do Chat", afirma. Questiona o futuro dos compositores, como provarão que a obra saiu deles. "Para emocionar, tem que ser humano, vulnerável, profundo. E IA não tem profundidade." Também reclama da falta de legalização de direitos autorais nesse contexto.

Sobre política, mantém postura apartidária. "Sou uma representante da poesia, da arte, e a arte é universal", explica. Seu voto é íntimo, guardado para si. Prefere estar no lugar de quem faz algo que alcança todos igualmente, sem interferir no livre-arbítrio alheio. Quanto à renovação do sertanejo — que agora incorpora funk, samba, pagode — vê com riqueza. Nunca se rotulou nem se limitou a um gênero. "Não sou uma pessoa padrão, uma artista padrão. A gente tem que ser genuíno."

Sua mãe foi decisiva em tudo isso. Aos 18 anos, deprimida, Fernandes escolheu uma janela para pular. Sua mãe respondeu: "se você pular, eu vou pular antes". Foi ela quem acreditou no sonho quando ninguém mais acreditava, quem a ouvia voltar dos botecos e dizia: "Paula, você vai ser uma das maiores artistas do Brasil". Fernandes superou a pobreza, o preconceito, o cansaço. "Talvez eu seja real demais, e não sei se as pessoas estão preparadas", conclui. "Mas não vou mudar."

Era tudo moldado para homens, que chegam de botina, trocam de roupa em qualquer lugar, colocam uma camisa xadrez e está tudo certo. A gente pede um palco sem buracos, porque uso salto, e isso são necessidades femininas, não luxo.
— Paula Fernandes, sobre o machismo na indústria do sertanejo
Como criadora, é inadmissível usar uma vírgula do Chat. É um crime contra minha natureza, porque sou uma criadora desde que me entendo por gente.
— Paula Fernandes, sobre o uso de inteligência artificial na composição
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