A geração Z não acorda cedo, mas está lá para nos apoiar
O Cockroach Janta Party nasceu de um insulto do presidente do Supremo Tribunal e cresceu para 20 milhões de seguidores no Instagram em poucas semanas. O escândalo das fugas de perguntas no NEET, exame de acesso a Medicina, mobilizou estudantes contra o ministro da Educação Dharmendra Pradhan e expôs desemprego juvenil de 9,9%.
- Cockroach Janta Party atingiu 20 milhões de seguidores no Instagram em poucas semanas
- NEET foi feito por 2,3 milhões de candidatos; taxa de desemprego juvenil é 9,9%
- Sonam Wangchuk em greve de fome em Jantar Mantar, Nova Deli, perdeu 2 quilos em 4 dias
- Movimento nasceu em maio de 2026 após insulto do presidente do Supremo Tribunal
Movimento juvenil indiano nascido como piada na internet contra insulto a desempregados transformou-se em protesto de rua contra corrupção em exames e governo Modi, com ativista em greve de fome.
Uma piada na internet tornou-se um corpo na rua. Tudo começou quando o presidente do Supremo Tribunal indiano comparou jovens desempregados a "baratas" e "parasitas". Em maio, Abhijeet Dipke, um homem de 30 anos formado pela Universidade de Boston, respondeu com uma pergunta simples no X: "E se todas as baratas se juntassem?" A resposta veio primeiro como meme, depois como página, depois como partido satírico. O Cockroach Janta Party — ou Partido Popular das Baratas — apropriou-se do insulto e o transformou em identidade política. Em poucas semanas, a conta de Instagram somava mais de 20 milhões de seguidores, superando muitos partidos reais, incluindo o do primeiro-ministro Narendra Modi.
Mas a piada tinha raízes profundas. O NEET, exame nacional de acesso aos cursos de medicina na Índia, foi feito por cerca de 2,3 milhões de candidatos. Quando começaram a surgir suspeitas de fuga de perguntas, a prova foi anulada e marcada novamente sob vigilância apertada. O Governo reconheceu "falhas graves". O ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, admitiu que a agência responsável tinha confiado em professores que não cumpriram o seu dever. "Os protetores tornaram-se predadores", resumiu. Para os estudantes que tinham passado meses ou anos a preparar uma prova que lhes prometia uma saída, a frase não foi suficiente. Se a meritocracia podia ser corrompida antes de chegar à carteira, que valor tinha o esforço individual?
Ayush Shimpi tinha deixado o ensino formal durante dois anos para se preparar para o NEET. Quando saiu da sala de exame, pensou que estava finalmente fora daquela corrida desenfreada. Nove dias depois, a prova foi anulada. O mundo que tinha imaginado voltou ao ponto de partida. Quando descobriu o Partido Popular das Baratas no Instagram, não viu apenas uma piada: viu gente a falar daquilo que ele próprio tinha vivido. "Sinto que a minha voz está a ser ouvida", afirmou. A Índia tem uma juventude imensa e uma economia que cresceu sem conseguir transformar a promessa em segurança para todos. A taxa oficial de desemprego era de 3,1% em 2025, mas entre os jovens dos 15 aos 29 anos subia para 9,9%, e nas cidades chegava aos 13,6%.
Em junho, o movimento saiu dos ecrãs para Jantar Mantar, o histórico observatório astronómico de Nova Deli que se tornou um dos lugares habituais de protesto na capital. Abhijeet Dipke aterrou dos Estados Unidos e foi diretamente para a praça. Ao microfone, deu um prazo a Dharmendra Pradhan: ou o ministro se demitia, ou o protesto continuaria. Pradhan não se demitiu. O prazo passou, veio outro ultimato, e depois a decisão de ficar ali, na rua, até que a pressão deixasse de depender apenas dos ecrãs. Mas a praça não é o Instagram. Uma semana depois do primeiro protesto, as câmaras tinham diminuído, as filas rareavam, as cadeiras de plástico ficavam mais visíveis do que a multidão. Ashutosh Ranka, porta-voz do movimento, rejeitou a ideia de perda de força com uma frase que dizia muito sobre a geração que tentava representar: "A geração Z não acorda cedo, mas está lá para nos apoiar."
O movimento ganhou uma figura de peso quando Sonam Wangchuk, um ativista de 59 anos de Ladakh, entrou em greve de fome em Jantar Mantar. Wangchuk é um engenheiro, educador e ativista climático conhecido no país por desafiar o Governo central há anos. Na manhã de quarta-feira, já tinha perdido dois quilos. A tensão arterial estava a cair, o corpo começava a responder ao quarto dia de jejum. Ele afirmou à Reuters que estava preparado para seis semanas de jejum ou até para morrer. "Esperemos que não tenhamos de ir tão longe", disse, deitado num colchão. "Um governo sensível, numa democracia, escuta a dor das pessoas."
Do lado do poder, a resposta tem os seus próprios nomes de guerra. Nitin Nabin, dirigente do Bharatiya Janata Party, classificou estas formações como "partidos vírus" capazes de corroer o país por dentro. A acusação é familiar numa Índia onde estudantes, jornalistas e ativistas são muitas vezes empurrados para fora do campo patriótico quando incomodam. Abhijeet Dipke respondeu com sarcasmo, apontando que mais de 94% da audiência do movimento era da Índia, e deixou uma pergunta: "Se todos os que questionam o poder são chamados de 'paquistaneses', quem pode ser indiano?"
O movimento enfrenta desafios clássicos. Como se transforma alcance em organização? Como se transforma raiva em permanência? Saurav Das, jornalista de investigação e porta-voz do Cockroach Janta Party, reconheceu que o movimento ainda não é uma organização registada nem um sindicato. Precisa de tempo, de redes locais, de disciplina. Até lá, tenta juntar estudantes, grupos civis, pais, agricultores e figuras públicas. Alguns analistas questionam o alcance real. Ashutosh, jornalista sénior e antigo dirigente da Aam Aadmi Party, sugeriu que a autorização para os protestos continuarem talvez mostre que o Governo de Modi ainda não vê o "partido das baratas" como uma ameaça. Mas outros veem força diferente. Ajaz Ashraf, colunista político, defendeu que um protesto destes existe para "mudar o sentido moral da sociedade", para "lembrar a moralidade que esquecemos". Saba Naqvi, jornalista e escritora, chamou-lhe "um movimento único" e resumiu a conquista em termos simples: as pessoas que detestam discutir política têm curiosidade sobre o "partido das baratas" e querem falar dele. "É uma conquista importante", acrescentou. "Ajudou muitas pessoas a ultrapassar o medo de falar."
Em Jantar Mantar, a espera tem menos espetáculo do que no primeiro dia. Há calor, colchões, água distribuída por voluntários, telemóveis apontados para diretos, estudantes que chegam depois das aulas ou do trabalho. Há também Sonam Wangchuk, agora como uma espécie de relógio biológico do protesto. Cada dia de jejum transforma uma reivindicação em contagem física. A pergunta inicial de Dipke ainda paira sobre tudo: "E se todas as baratas se juntassem?" A resposta, por enquanto, não é uma revolução nem uma derrota. É uma experiência. Uma geração pegou no nome que lhe atiraram e usou-o para falar de exames, desemprego, medo, dignidade e futuro. O Governo pode esperar que se cansem. Pode tentar ridicularizá-los. Pode absorver parte da pressão numa remodelação ministerial e seguir em frente. Mas já não consegue devolver a "barata" ao canto escuro de onde ela saiu.
Notable Quotes
Sinto que a minha voz está a ser ouvida. O 'partido' está a levantar os nossos problemas e a manter a democracia viva.— Ayush Shimpi, estudante de 20 anos
Um governo sensível, numa democracia, escuta a dor das pessoas.— Sonam Wangchuk, ativista em greve de fome
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como é que um insulto de um juiz se transforma em 20 milhões de seguidores?
Porque o insulto nomeou algo que já existia. Milhões de jovens indianos estavam frustrados com exames corrompidos, desemprego, famílias endividadas em centros privados. O juiz deu-lhes um nome. Dipke perguntou: e se nos recusássemos a ser insetos? E se fôssemos uma multidão?
Mas por que é que a piada funcionou melhor do que um manifesto sério?
A piada permite falar do que dói sem parecer que se está a chorar. Permite que pessoas com medo de represálias digam a verdade. A barata é baixa, invisível, sobrevive em qualquer lugar. Era a metáfora perfeita para uma geração que o sistema via como descartável.
Sonam Wangchuk em greve de fome — isso é teatro ou é necessário?
É ambos. É necessário porque o Governo não escuta sem pressão. É teatro porque a pressão só funciona se for vista. Mas quando alguém perde dois quilos por dia por uma causa, a linha entre teatro e sacrifício desaparece.
O movimento pode durar? Ou vai desaparecer quando as câmaras se forem?
Ninguém sabe. Tem alcance digital mas não tem estrutura. Tem raiva mas precisa de organização. O que é certo é que já mudou algo: as pessoas que tinham medo de falar sobre política estão a falar. Isso não desaparece facilmente.
E se o Governo simplesmente remodelar o ministério e fingir que ouviu?
Então o movimento enfrenta a escolha que todos os movimentos enfrentam: celebra uma vitória parcial ou insiste que nada mudou realmente. A história dirá qual era a resposta certa.