Quase 50 casos confirmados desde junho nos EUA, principalmente em gado do Texas, o maior produtor de carne de vaca do país. O surto originou-se na América Central em 2023 com mais de 185 mil casos em animais e 2.100 em humanos no México e América Central.
Parasita devorador de carne regressa aos EUA e ameaça encarecer a carne de vaca
Se não forem tratadas, as infestações matam o animal em sete a 14 dias.
Como é que um inseto que foi erradicado há 60 anos consegue regressar com tanta força?
A barreira de contenção no Panamá falhou. A estirpe de moscas estéreis que estavam a usar não era tão eficaz quanto era necessário, e entretanto houve muito movimento de animais através das fronteiras — migrantes, gado contrabandeado — tudo sem os controlos sanitários adequados. A mosca não voa longas distâncias; viaja em animais infestados.
Então isto é realmente um problema de fronteira e de movimento de gado?
É parte disso, sim. Mas também é um problema de manutenção. A técnica de esterilização de moscas funcionou extraordinariamente bem, mas requer vigilância constante e investimento. Quando baixamos a guarda, o parasita encontrou uma maneira de regressar.
Qual é o risco real para as pessoas?
Baixo, segundo as autoridades. O parasita pode tecnicamente infectar humanos, mas não há casos confirmados neste surto nos EUA. O verdadeiro impacto é económico e no gado. Um animal infestado morre em uma ou duas semanas se não for tratado. Antes da erradicação original, os criadores perdiam dezenas de milhões de dólares por ano.
E agora?
Os especialistas estimam que se isto não for controlado, poderá custar milhares de milhões de dólares apenas no sudoeste. Isso vai fazer subir o preço da carne de vaca, que já está muito caro. Mas também há um impacto na vida selvagem — o Texas tem 5,4 milhões de veados-de-cauda-branca, e a caça ao veado contribui com 9,6 mil milhões de dólares para a economia do estado.
Conseguem repetir o que fizeram nos anos 50 e 60?
Estão a tentar. Estão a investir 750 milhões de dólares numa nova instalação de produção de moscas estéreis no Texas, a modernizar instalações no México e no Panamá, e a transportar 100 milhões de moscas estéreis por semana para as zonas afetadas. Mas desta vez também estão a explorar novas tecnologias — drones, armadilhas, até moscas geneticamente modificadas. O desafio é que tudo isto leva tempo, e o parasita não espera.
O Pulso
- Quase 50 casos confirmados desde junho de 2026 nos EUA, principalmente em gado do Texas
- Mais de 185 mil casos em animais e 2.100 em humanos no México e América Central desde 2023
- Investimento de 750 milhões de dólares numa nova instalação de produção de moscas estéreis no Texas
- Antes da erradicação em 1966, criadores perdiam 50-100 milhões de dólares por ano
- O parasita mata animais em 7-14 dias se não for tratado
Quase 50 casos confirmados desde junho nos EUA, principalmente em gado do Texas, o maior produtor de carne de vaca do país. O surto originou-se na América Central em 2023 com mais de 185 mil casos em animais e 2.100 em humanos no México e América Central.
A mosca-da-carne do Novo Mundo, erradicada nos EUA há décadas, ressurgiu no Texas em junho de 2024. O parasita que mata animais em 7-14 dias pode custar milhares de milhões de dólares e aumentar significativamente os preços da carne.
No início de junho, o governador do Texas pediu aos residentes que se preparassem para um verão extraordinariamente difícil. Um parasita que havia desaparecido dos Estados Unidos há mais de meio século tinha regressado. A mosca-da-carne do Novo Mundo, um inseto que devora a carne de animais vivos, foi oficialmente erradicada em 1966 após uma campanha de décadas. Agora estava de volta, e desta vez ameaçava não apenas o gado, mas também a vida selvagem, os animais de estimação e, potencialmente, os preços que os americanos pagam pela carne de vaca.
O primeiro caso foi confirmado a 3 de junho num bezerro de três semanas no sul do Texas. O animal recuperou, mas esse caso marcou o início de um surto que se espalharia rapidamente. Quase 50 casos foram identificados desde então, principalmente em gado, embora também se tenham registado infestações em ovelhas, cabras e um cão no Novo México. O Texas, o maior produtor de carne de vaca do país e, por sua vez, o maior produtor mundial, registou a maioria dos casos. Nenhum caso foi confirmado em humanos nos EUA, embora o parasita seja tecnicamente capaz de infectar pessoas.
O ciclo de vida do parasita é brutalmente eficiente. A mosca fêmea deposita os ovos numa ferida aberta ou numa membrana mucosa — no olho, no nariz, em qualquer abertura vulnerável. Os ovos eclodem entre 12 e 24 horas. As larvas emergem e começam imediatamente a alimentar-se, rasgando o tecido do animal hospedeiro, expandindo e aprofundando as feridas. Podem romper artérias, causando hemorragias graves. Se não forem tratadas, as infestações matam o animal em sete a 14 dias. Mesmo feridas tão pequenas como picadas de carraça podem atrair as moscas. O odor da decomposição atrai mais moscas, que depositam mais ovos, criando um ciclo de infestação que se agrava rapidamente.
O surto atual começou na América Central em 2023. Até agora, registaram-se mais de 185 mil casos em animais e mais de 2.100 em seres humanos no México e na América Central. Os especialistas apontam várias razões para o regresso do parasita. A barreira de contenção no Panamá falhou. A estirpe de moscas machos estéreis utilizada recentemente não era tão eficaz, permitindo que as fêmeas acasalassem com sucesso. O aumento do fluxo de migrantes através da fronteira entre o Panamá e a Colômbia incluiu animais potencialmente infestados. O gado foi contrabandeado através das fronteiras sem controlos sanitários adequados. A mosca não percorre grandes distâncias por si própria; desloca-se principalmente em animais infestados.
Os custos potenciais são enormes. Antes da erradicação na década de 1960, os criadores de gado nos estados afetados perdiam entre 50 milhões e 100 milhões de dólares por ano. Se o avanço do parasita não puder ser travado, os especialistas estimam que o surto poderá custar milhares de milhões de dólares apenas no sudoeste dos Estados Unidos. Embora não seja uma questão direta de segurança alimentar — os animais que recuperam podem entrar na cadeia alimentar após inspeção rigorosa — a infestação fará subir o preço da carne de vaca numa altura em que os americanos já estão a pagar preços recorde.
Os EUA estão a mobilizar recursos significativos para combater o parasita. O USDA investiu milhões para modernizar uma instalação no México que produz moscas estéreis, que deverá abrir em breve. Está a construir uma unidade de produção de moscas no Texas, no valor de 750 milhões de dólares, com abertura prevista para o próximo ano. Semanalmente, transporta 100 milhões de moscas estéreis das suas instalações no Panamá para as zonas afetadas nos EUA. Solicitou aprovação para a NovoFly, uma mosca geneticamente modificada composta exclusivamente por machos, que permitiria criar moscas mais resistentes num espaço de tempo mais curto, embora a Agência de Proteção Ambiental dos EUA ainda não tenha indicado quando decidirá sobre a aprovação.
O USDA transferiu temporariamente a sua equipa de laboratório do Iowa para Kerrville, no Texas, para aproximar os testes da zona afetada. Lançou uma iniciativa de inovação no valor de 100 milhões de dólares para incentivar cientistas a encontrarem novas formas de erradicar o parasita, incluindo tecnologia de drones, novas armadilhas e iscos, e estirpes genéticas para produzir moscas mais rapidamente. Vários estados reforçaram a vigilância, estabeleceram restrições sanitárias à circulação interestatal de animais de sangue quente, e o Texas alargou uma declaração de catástrofe para autorizar a utilização de todos os recursos do governo estatal. O estado desenvolveu um curso gratuito para aumentar o número de inspetores especializados em todo o território.
A história da erradicação anterior oferece esperança. Na década de 1950, o cientista Edward Knipling descobriu que conseguia esterilizar moscas com radiação. Como as fêmeas da mosca-da-carne do Novo Mundo acasalam apenas uma vez, Knipling teorizou que, se criasse moscas estéreis em número suficiente, a população desapareceria. Em 1958, os EUA criaram a sua primeira instalação de criação de moscas na Florida e lançaram moscas estéreis nas áreas afetadas. No ano seguinte, os surtos na Florida, no Alabama e na Louisiana foram controlados. Novas instalações no Sudoeste contribuíram para a erradicação em toda a região, e em 1966 os EUA foram oficialmente declarados livres da mosca-da-carne. Embora tenham surgido alguns surtos depois disso — o maior em 1972, com 90 mil casos apenas no Texas — a iniciativa foi amplamente bem-sucedida. Agora, os EUA enfrentam a tarefa de repetir esse feito.
Citações Notáveis
O Texas é resiliente. Os nossos produtores, veterinários e funcionários públicos estão entre os melhores dos Estados Unidos. Já prevenimos e erradicámos isto no passado; podemos voltar a fazê-lo.— Governador Greg Abbott do Texas
A utilização da técnica do inseto estéril foi uma das principais conquistas do USDA no século XX. Ao longo de um período de 50 anos, o USDA conseguiu erradicar esta mosca até à fronteira entre o Panamá e a Colômbia.— Max Scott, entomologista da Universidade Estatal da Carolina do Norte