Depois de mais de uma década moldada pelas novelas, Paolla Oliveira chega ao cinema de terror não por acaso, mas por escolha — e essa distinção é o centro de tudo. Em 'Herança de Narcisa', ela habita duas mulheres opostas dentro de um mesmo corpo, espelhando sua própria jornada de quem aceitava o que aparecia para quem agora decide o que quer ser. O filme, premiado no Festival do Rio 2025, é também um sintoma de algo maior: um cinema brasileiro de horror que prefere olhar para dentro antes de assustar.
Paolla Oliveira deixa novelas e estreia no terror com papel duplo em 'Herança de Narcisa'
A maturidade traz algo libertador: o poder de escolha
Por que agora? Você tinha uma carreira sólida nas novelas. O que mudou?
A maturidade traz autonomia. Durante muito tempo, eu aceitava o que aparecia porque precisava trabalhar. Agora tenho o privilégio de escolher, e isso muda tudo.
E por que o horror especificamente? Parece um salto grande.
Porque é o oposto do que as pessoas esperam de mim. Sempre me viram de um jeito, e eu queria quebrar isso. Ana é uma mulher sem vaidade, desprovida de beleza performática. Era exatamente o que eu precisava fazer.
A diretora fala em "terror-terapia". Você sente isso no filme?
Sim. Não é apenas assustar. É usar o horror para explorar medos reais, emocionais. A casa assombrada é a angústia de Ana tornada palpável. É catártico.
Como foi interpretar um papel duplo?
Desafiador. Narcisa e Ana são opostas em tudo. Eu precisava encontrar a humanidade nas duas, entender por que nunca conseguiram se entender.
Você acha que isso vai mudar como o público te vê?
Espero que sim. As pessoas tendem a nos colocar em caixas. Eu quero sair da minha.
The Pulse
- Após mais de dez novelas na TV Globo, Paolla Oliveira rompe com a zona de conforto da teledramaturgia e mergulha no cinema de terror — um salto que ela mesma define como o exercício inédito de poder escolher.
- O papel duplo de Ana e Narcisa exige que a atriz encarne ao mesmo tempo a filha reservada e a mãe vaidosa que a assombra, desafiando diretamente a imagem pública que o público construiu sobre ela.
- A diretora Clarissa Appelt transformou o luto e o confinamento da pandemia em roteiro em apenas 15 dias, criando um 'terror-terapia' onde a casa mal-assombrada é menos cenário e mais radiografia emocional.
- Premiado pelo voto popular no Festival do Rio 2025, o filme chega às telas de São Paulo como sinal de uma virada no horror nacional — mais introspectivo, mais pessoal, menos interessado em susto e mais em catarse.
Depois de mais de uma década moldada pelas novelas, Paolla Oliveira chega ao cinema de terror não por acaso, mas por escolha — e essa distinção é o centro de tudo. Em 'Herança de Narcisa', ela habita duas mulheres opostas dentro de um mesmo corpo, espelhando sua própria jornada de quem aceitava o que aparecia para quem agora decide o que quer ser. O filme, premiado no Festival do Rio 2025, é também um sintoma de algo maior: um cinema brasileiro de horror que prefere olhar para dentro antes de assustar.
Paolla Oliveira escolhe a palavra maturidade para descrever o momento em que vive — e a escolha não é casual. Depois de Heleninha Roitman no remake de 'Vale Tudo', ela deixou as novelas para trás e estreou no cinema de horror com 'Herança de Narcisa', em cartaz em São Paulo. São mais de dez folhetins encerrados, uma zona de conforto deliberadamente abandonada.
No filme, ela vive Ana, mulher que herda a casa da mãe morta, Narcisa, ex-vedete de Carnaval que continua assombrando a filha do além. Oliveira faz papel duplo: encarna as duas — a filha reservada e modesta, e a mãe festeira, vaidosa, sempre com um laço vermelho no cabelo. Duas formas de existir que nunca se entenderam, habitando o mesmo corpo na tela.
'Eu vivi um tempo da minha carreira no modo sobrevivência, fazendo o que aparecia', diz a atriz. A maturidade, para ela, é justamente isso: a chegada do poder de escolher. Ana era um desafio que a atraía por ser o oposto do que o público espera dela — uma mulher sem vaidade, distante da estética que sempre acompanhou sua imagem pública.
O filme nasceu de um lugar íntimo. A diretora Clarissa Appelt voltou a morar com a mãe durante a pandemia e perdeu a avó nesse período. Escreveu o primeiro esboço em 15 dias e depois trabalhou com o diretor Daniel Dias para transformar a experiência em ficção. O resultado é o que ela chama de terror-terapia: uma casa mal-assombrada que respira com a angústia da personagem, onde objetos caem sozinhos e o horror serve menos para assustar do que para ajudar o espectador a enfrentar seus próprios medos.
'Herança de Narcisa' venceu o prêmio de melhor longa-metragem pelo voto popular na mostra Novos Rumos do Festival do Rio 2025, e chega às telas como parte de uma tendência do horror brasileiro — mais introspectivo, mais emocional. Para Oliveira, é apenas o começo de uma carreira que está se redesenhando. À frente, um thriller erótico para a Netflix. Por ora, ela está descobrindo quem é quando finalmente pode decidir.
Paolla Oliveira está em um momento diferente de sua carreira, e ela mesma escolhe a palavra maturidade para descrevê-lo. Depois de viver Heleninha Roitman no remake de "Vale Tudo" pela TV Globo, a atriz decidiu sair das novelas e entrar no cinema de horror com "Herança de Narcisa", que está em cartaz em São Paulo. Não é um passo pequeno: são mais de dez novelas deixadas para trás, uma zona de conforto consolidada ao longo de anos de trabalho na teledramaturgia.
No filme, ela interpreta Ana, uma mulher que herda a casa onde cresceu após a morte de sua mãe, Narcisa, uma ex-vedete de Carnaval que assombra a filha mesmo depois de morta. A relação entre as duas é o coração da história, e Oliveira faz um papel duplo: encarna tanto Ana quanto Narcisa, dando corpo e rosto aos conflitos que as separam. Ana é reservada, misteriosa, modesta. Narcisa era festeira, vaidosa, carismática, sempre com um laço de fita vermelha no cabelo. São duas mulheres em um mesmo corpo, duas formas de estar no mundo que nunca conseguiram se entender.
Mas por que fazer essa mudança agora? Oliveira é clara sobre isso. "Eu costumo dizer que vivi um tempo da minha carreira no modo sobrevivência, fazendo o que aparecia", ela diz. As oportunidades não eram escolhas; eram simplesmente coisas que você aceitava ou deixava passar. A maturidade, segundo ela, traz algo libertador: o poder de escolher. "Tem lugares que a gente só consegue chegar se tiver tempo e experiências."
O filme nasceu de um lugar pessoal. A diretora Clarissa Appelt voltou a morar com a mãe durante a pandemia de Covid-19, e com essa mudança veio também a perda de sua avó. Essas experiências se transformaram em ficção. Appelt escreveu o primeiro esboço da história em apenas 15 dias e depois trabalhou com o diretor e roteirista Daniel Dias para adaptar o material. O resultado é algo que ela chama de terror-terapia: um filme que mistura drama e horror, que quer investigar o medo não apenas para assustar, mas para ajudar as pessoas a enfrentar seus próprios medos.
Na tela, uma casa mal-assombrada funciona como extensão dos conflitos emocionais de Ana. Objetos caem sozinhos, o espaço respira com a angústia da personagem. É uma forma de exorcismo, tanto para a diretora quanto para quem assiste. "A gente quer investigar esse terror para ajudar pessoas a enfrentar medos, e não só para assustar", diz Appelt.
Para Oliveira, escolher Ana foi também uma forma de quebrar uma expectativa que o público tem dela. "As pessoas tendem a colocar algumas travas na gente. A trava que está sempre me acompanhando em algum lugar é a da vaidade, no âmbito da beleza e da estética", ela explica. Ana é justamente o oposto disso: uma mulher desprovida de vaidade, que se distancia da influência da mãe, uma figura cuidadosa mas movida pela aparência. Era um desafio que a atraía. "Como eu vou conseguir captar o meu público —ou o público que me percebe ou que me restringe— nesse filme?"
"Herança de Narcisa" foi escolhido como melhor longa-metragem pelo voto popular na mostra Novos Rumos do Festival do Rio em 2025. Agora, em cartaz em São Paulo, o filme marca uma tendência no cinema de horror brasileiro: histórias mais introspectivas, que usam o gênero não apenas para assustar, mas para explorar questões emocionais profundas. Para Oliveira, é um passo em uma carreira que está se redesenhando. Ela tem outros projetos à frente, incluindo "A Estranha na Cama", um thriller erótico para a Netflix baseado no livro de Raphael Montes, mas por enquanto, ela está descobrindo quem é quando finalmente pode escolher.
Notable Quotes
Eu costumo dizer que vivi um tempo da minha carreira no modo sobrevivência, fazendo o que aparecia— Paolla Oliveira
A gente quer investigar esse terror para ajudar pessoas a enfrentar medos, e não só para assustar— Clarissa Appelt, diretora