Nos anos que se seguiram à pandemia, consultórios de neurologia passaram a registrar um padrão inquietante: o esquecimento tornou-se queixa universal, atravessando gerações. O neurologista Jamyllo Sales observa que a COVID-19 não apenas agrediu o cérebro diretamente — por meio da neuroinflamação — mas também deixou feridas psicológicas coletivas que aceleraram o declínio cognitivo e intensificaram casos de Alzheimer. Diante desse cenário, a medicina é chamada a uma distinção fundamental: nem todo esquecimento é doença, e confundir sintoma com diagnóstico pode custar anos preciosos de tratament
Pandemia intensifica esquecimento e alzheimer, alerta neurologista
O vírus pode se alojar no cérebro e causar dano que a ansiedade amplifica
Por que a pandemia especificamente intensificou esses problemas de memória? Não seria natural que as pessoas esquecessem mais durante um período de estresse?
O estresse é parte da história, mas não é tudo. O vírus em si causou dano direto ao cérebro — neuroinflamação que mata neurônios. Combine isso com o trauma psicológico coletivo e você tem uma situação que vai além do esquecimento normal.
Então uma pessoa que esquece coisas agora, depois da pandemia, pode ter Alzheimer?
Pode ter, mas provavelmente não. O esquecimento é um sintoma que aparece em depressão, ansiedade, falta de sono, diabetes. A maioria das pessoas que se queixam de memória não tem Alzheimer. É por isso que o diagnóstico correto importa tanto.
Como alguém sabe quando é hora de procurar ajuda?
Quando o esquecimento começa a prejudicar a vida real — o trabalho, as relações, a rotina diária. Esquecer ocasionalmente é humano. Esquecer com frequência e sofrer as consequências disso é um sinal de que algo precisa ser investigado.
E se for Alzheimer? Existe tratamento?
O Alzheimer é incurável. Mas a esperança está em detectá-lo muito cedo, na fase pré-clínica, antes dos sintomas. Nesse ponto, talvez seja possível desacelerar a progressão. A tecnologia está avançando nessa direção.
Então a pandemia deixou um legado neurológico que ainda estamos descobrindo?
Exatamente. Estamos vendo as consequências agora, mas provavelmente há muito mais que ainda não entendemos completamente sobre como o vírus afetou o cérebro das pessoas.
El Pulso
- A COVID-19 abriu uma rota de acesso ao sistema nervoso central, desencadeando inflamações que danificam os neurônios responsáveis pela memória e pelo aprendizado.
- O isolamento e o pânico coletivo da pandemia elevaram os níveis de ansiedade a ponto de criar, junto com a agressão viral, uma tempestade perfeita para o declínio cognitivo precoce.
- Milhões chegam aos consultórios confundindo esquecimento — que pode ser sintoma de depressão, ansiedade ou TDAH — com Alzheimer, uma doença neurodegenerativa de natureza e tratamento completamente distintos.
- O Alzheimer instala-se silenciosamente no cérebro por até uma década antes de qualquer sintoma, e a janela para intervenção precoce permanece, na maioria dos casos, fechada.
- Novas tecnologias diagnósticas acenam com a possibilidade de identificar a doença na fase pré-clínica, abrindo caminho para tratamentos mais individualizados e potencialmente mais eficazes.
Nos anos que se seguiram à pandemia, consultórios de neurologia passaram a registrar um padrão inquietante: o esquecimento tornou-se queixa universal, atravessando gerações. O neurologista Jamyllo Sales observa que a COVID-19 não apenas agrediu o cérebro diretamente — por meio da neuroinflamação — mas também deixou feridas psicológicas coletivas que aceleraram o declínio cognitivo e intensificaram casos de Alzheimer. Diante desse cenário, a medicina é chamada a uma distinção fundamental: nem todo esquecimento é doença, e confundir sintoma com diagnóstico pode custar anos preciosos de tratamento.
Nos anos seguintes à pandemia de COVID-19, consultórios de neurologia passaram a registrar um padrão perturbador: pessoas de todas as idades chegavam com a mesma queixa — a memória já não funcionava como antes. O neurologista Jamyllo Sales percebeu que havia algo mais profundo por trás dessas queixas. O vírus, segundo ele, pode se alojar no bulbo olfatório e acessar o sistema nervoso central, desencadeando uma neuroinflamação capaz de danificar neurônios ligados à memória. Somado a isso, o isolamento forçado e o pânico coletivo elevaram drasticamente os níveis de ansiedade, criando condições favoráveis ao declínio cognitivo e à intensificação do Alzheimer.
Sales, porém, insiste em um ponto crucial: esquecimento e Alzheimer não são a mesma coisa. O esquecimento é um sintoma que pode surgir em diversas condições — depressão, ansiedade, TDAH, autismo. O Alzheimer é uma doença, e nem sempre se manifesta primeiro pela memória; em alguns pacientes, alterações de comportamento e humor aparecem antes. Essa distinção é decisiva, pois o tratamento de um sintoma é fundamentalmente diferente do tratamento de uma doença neurodegenerativa.
O critério prático oferecido pelo especialista é claro: esquecer ocasionalmente é normal. O sinal de alerta surge quando o esquecimento se torna frequente e começa a comprometer o trabalho, as relações e a rotina. Antes de qualquer diagnóstico de Alzheimer, fatores como qualidade do sono, apneia, hipertensão, diabetes e ansiedade precisam ser investigados.
O maior desafio permanece no tempo: o Alzheimer já está instalado no cérebro cerca de dez anos antes de qualquer sintoma aparecer. Avanços tecnológicos recentes abrem a possibilidade de identificar essa fase pré-clínica, permitindo intervenções mais precoces e individualizadas. Por ora, a melhor estratégia é estar atento aos sinais, investigar as causas do esquecimento e resistir à tentação de transformar toda perda de memória em diagnóstico definitivo.
Nos anos que se seguiram à pandemia de covid-19, consultórios de neurologia começaram a registrar um padrão perturbador: pessoas de todas as idades chegavam com a mesma queixa — a memória não funcionava mais como antes. Alguns não conseguiam lembrar se tinham fechado a porta ao sair de casa. Outros perdiam o fio da meada no meio de uma conversa. O neurologista Jamyllo Sales, que acompanha esses pacientes, viu algo mais profundo acontecendo. Não era apenas esquecimento comum. Era um sinal de que o vírus havia deixado marcas no próprio tecido cerebral.
A covid-19, segundo Sales, pode se alojar no bulbo olfatório — a estrutura responsável pelo olfato — e de lá acessar o sistema nervoso central. Uma vez dentro, desencadeia um processo chamado neuroinflamação, uma inflamação que danifica neurônios específicos ligados à memória e ao aprendizado. Mas o dano não parou ali. A pandemia em si, com seu isolamento forçado e o pânico coletivo que gerou, elevou drasticamente os níveis de ansiedade nas pessoas. Esse trauma psicológico, combinado com a agressão viral ao cérebro, criou uma tempestade perfeita para o declínio cognitivo. O resultado foi um aumento visível em casos de esquecimento precoce e, mais preocupante ainda, uma intensificação do Alzheimer — a doença neurodegenerativa incurável que leva à demência.
Mas aqui está o ponto que Sales enfatiza com insistência: é preciso não confundir esquecimento comum com Alzheimer. São coisas diferentes. O esquecimento é um sintoma, uma queixa de falta de memória que pode aparecer em muitas condições — depressão, ansiedade, TDAH, autismo. O Alzheimer, por outro lado, é uma doença. E curiosamente, nem sempre vem acompanhado de esquecimento. Alguns pacientes com Alzheimer apresentam antes alterações de comportamento ou de humor. Essa distinção importa porque o tratamento é completamente diferente. Tratar um sintoma não é o mesmo que tratar uma doença.
Quando deve alguém se preocupar? Sales oferece um critério prático: esquecer ocasionalmente é normal. Todos nós saímos de casa e ficamos em dúvida se fechamos a porta. O problema começa quando isso acontece com frequência e começa a prejudicar a vida cotidiana, o trabalho, as relações. Nesse ponto, é hora de procurar um especialista. Mas antes de chegar a um diagnóstico de Alzheimer, há muitos fatores que precisam ser investigados. A qualidade do sono, por exemplo. Roncar ou ter apneia do sono pode prejudicar a memória. Hipertensão e diabetes também são fatores de risco. Ansiedade, como mencionado, é outro. Tudo isso pode estar por trás do esquecimento.
O desafio diagnóstico é real. O Alzheimer geralmente é identificado apenas quando o paciente já está em algum estágio avançado da doença. Mas Sales aponta para uma esperança: pesquisas mostram que o Alzheimer já está instalado no cérebro cerca de dez anos antes de qualquer sintoma aparecer — uma fase que os médicos chamam de pré-clínica. Durante toda essa década, a pessoa não sente nada. Mas a doença está lá, progredindo silenciosamente. Os avanços tecnológicos recentes oferecem a possibilidade de identificar essa instalação precoce, antes mesmo dos sintomas emergirem. Se isso for possível em larga escala, o tratamento poderia começar muito mais cedo, de forma mais individualizada e potencialmente mais eficaz. Por enquanto, porém, a melhor estratégia é estar atento aos sinais, investigar as causas do esquecimento e não assumir que toda perda de memória é Alzheimer.
Citas Notables
A pandemia influenciou na piora cognitiva da população. O vírus pode se alojar no bulbo olfatório e acessar o sistema nervoso central causando neuroinflamação— Neurologista Jamyllo Sales
Quando a perda de memória começa a influenciar e trazer prejuízo no dia-a-dia e no trabalho é o momento de procurar um profissional para fazer o correto diagnóstico— Neurologista Jamyllo Sales