Pandemia exacerbou fatores de deslocamento, alerta diretor da OIM

Milhões de migrantes bloqueados enfrentam impossibilidade de regressar aos países de origem; aumento de recurso a traficantes e rotas irregulares coloca vidas em risco.
Estamos a regressar à normalidade da pior maneira possível
Vitorino descreve como os migrantes bloqueados começam a recorrer a traficantes na ausência de rotas legais.
Mark

Quando Vitorino diz que a pandemia "exacerbou" os fatores de migração, o que é que ele quer dizer exatamente? Não é a pandemia que causa a migração.

Mimi

Certo. A pandemia não criou os problemas — desemprego, conflito, seca, tudo isto já existia. Mas a covid-19 tornou tudo pior ao mesmo tempo. Vinte milhões de empregos perdidos em África. Cadeias de abastecimento alimentar interrompidas. Pessoas que já viviam à beira do colapso foram empurradas para além do limite.

Mark

E estes "migrantes bloqueados" — são pessoas que estão efetivamente presas?

Mimi

Não fisicamente presos, mas sim. Estavam a tentar voltar para casa quando as fronteiras fecharam. Três milhões no mundo. Não conseguem avançar, não conseguem recuar. Estão suspensos.

Mark

Isso parece criar uma pressão acumulada.

Mimi

Exatamente. Quando finalmente conseguem mover-se, não têm opções legais. Os voos comerciais estão caros ou indisponíveis. As embaixadas estão fechadas. Então recorrem aos traficantes. É um sistema que força as pessoas para a clandestinidade.

Mark

Vitorino menciona o Sahel como uma "tempestade perfeita". Porquê essa região especificamente?

Mimi

Porque tem tudo ao mesmo tempo. Conflito armado. Seca extrema. Governos frágeis. Pobreza generalizada. E agora, com as alterações climáticas a acelerar, a região está a tornar-se cada vez mais inabitável. Não é um problema que vai desaparecer.

Mark

Ele parece frustrado com a ideia de que a Europa fala de 2030 ou 2050.

Mimi

Porque essas datas são ilusórias. As pessoas pensam que têm tempo para se preparar. Mas a crise climática já está a acontecer agora. As pessoas já estão a deslocar-se agora. Não é uma ameaça futura — é presente.

  • A pandemia destruiu vinte milhões de empregos em África e amplificou cada fator clássico de migração, tornando o impulso de partir mais urgente do que antes.
  • Três milhões de pessoas ficaram presas a meio do caminho — nem em casa, nem no destino — criando uma categoria humana inédita que ninguém havia antecipado.
  • As rotas mais mortíferas, como a travessia do Mediterrâneo Central, mantiveram-se tão movimentadas quanto antes do encerramento das fronteiras europeias, revelando que as barreiras legais não detêm o desespero.
  • Os traficantes retomaram o negócio após apenas três semanas de pausa na Líbia, absorvendo os migrantes bloqueados que não encontram alternativas legais para se mover.
  • O Sahel concentra pobreza, seca, conflito e instabilidade política numa combinação que Vitorino descreve como 'tempestade perfeita', sinalizando que a pressão migratória sobre a Europa vai intensificar-se.

Perante o parlamento francês, o diretor-geral da OIM, António Vitorino, deixou um aviso que transcende a conjuntura sanitária: a pandemia não suspendeu a migração, apenas a reconfigurou, aprofundando as suas causas e gerando três milhões de 'migrantes bloqueados' presos entre fronteiras fechadas e destinos impossíveis. As forças que movem as pessoas — fome, conflito, desemprego, clima — não desapareceram com os decretos de confinamento; cresceram. A Europa, advertiu Vitorino, não pode tratar 2030 ou 2050 como datas abstratas quando a tempestade já chegou ao Sahel.

Quando António Vitorino, diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações, compareceu perante a Comissão dos Negócios Estrangeiros do parlamento francês, a sua mensagem foi direta: a pressão migratória sobre a Europa não vai desaparecer. A pandemia não travou os fluxos — transformou-os, exacerbando as causas profundas da migração e criando situações que ninguém havia previsto.

Os números revelam uma realidade contraditória. O volume global de migrações diminuiu durante a crise sanitária, mas certas rotas permaneceram tão ativas ou até mais do que antes. A travessia do Mediterrâneo Central continuou a ser percorrida apesar do encerramento das fronteiras europeias, sinal de que as forças que empurram as pessoas para o mar não enfraqueceram.

Vitorino descreveu uma sobreposição de crises. Os fatores clássicos — desemprego, fome, conflito — foram todos amplificados pela covid-19, que destruiu vinte milhões de postos de trabalho em África. A isso somam-se as alterações climáticas, já presentes e não apenas uma ameaça futura. O Sahel, com a sua combinação de pobreza, seca e instabilidade política, reúne os ingredientes de uma tempestade perfeita. A Europa, insistiu, não pode continuar a falar de 2030 ou 2050 como datas abstratas.

A descoberta mais perturbadora foi a de uma categoria inteiramente nova: os migrantes bloqueados. São três milhões de pessoas que a pandemia apanhou a meio do regresso a casa — fronteiras fechadas, voos suspensos, transportes interrompidos. Presas num limbo, sem conseguir avançar nem recuar, muitas acabam por recorrer a redes de tráfico. Os traficantes na Líbia pararam apenas três semanas antes de regressarem ao negócio. Vitorino resumiu a situação com uma frase carregada de frustração: estamos a regressar à normalidade da pior maneira possível.

O desafio não é conjuntural. Os fatores subjacentes — pobreza, insegurança, mudança climática — persistirão muito além das restrições pandémicas. A Europa terá de escolher entre políticas de migração legal e ordenada ou continuar a permitir que o desespero entregue pessoas às mãos de traficantes.

A pressão para migrar não vai desaparecer da Europa. Essa foi a advertência deixada por António Vitorino, diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações, quando compareceu perante a Comissão dos Negócios Estrangeiros do parlamento francês em Paris. A pandemia, disse ele, não travou os fluxos migratórios — apenas os transformou, exacerbando as razões pelas quais as pessoas abandonam os seus países e criando uma situação inteiramente nova que ninguém tinha previsto.

Os números contam parte da história. Embora o volume geral de migrações tenha diminuído durante a crise sanitária, certas rotas permaneceram tão movimentadas ou até mais do que eram antes. A travessia do Mediterrâneo Central, que liga o norte de África a Itália, continua a ser uma das mais percorridas, apesar do encerramento das fronteiras externas europeias. Isto sugere que as forças que empurram as pessoas para o mar não enfraqueceram — apenas encontraram novos caminhos.

Vitorino identificou uma sobreposição de crises. Os fatores clássicos que alimentam a migração — desemprego, fome, conflito — foram todos amplificados pela covid-19. A OIM estima que a pandemia destruiu vinte milhões de postos de trabalho em África. Mas há mais. As alterações climáticas, que durante anos foram tratadas como uma preocupação futura, já estão a acontecer agora, transformando-se num catalisador de deslocações em massa. O Sahel, a região que se estende através do norte de África, reúne todos os ingredientes de uma tempestade perfeita: pobreza, conflito, seca, instabilidade política. Vitorino insistiu que a Europa não pode continuar a falar de 2030 ou 2050 como se fossem datas abstratas. A realidade está aqui.

Mas talvez a descoberta mais perturbadora foi a identificação de uma categoria inteiramente nova: os migrantes bloqueados. São pessoas que tentavam regressar aos seus países de origem quando a pandemia as apanhou no meio do caminho. Fronteiras fechadas, voos suspensos, transportes interrompidos — tudo isto as prendeu longe de casa. A OIM calcula que existam três milhões destas pessoas no mundo, das quais 1,2 milhões no Médio Oriente e no Norte de África. Estão presas numa situação de limbo, sem conseguir avançar nem recuar.

O que acontece a seguir é previsível e trágico. Quando não há caminhos legais para se deslocar, as pessoas recorrem aos ilegais. Os traficantes de migrantes, que Vitorino observou terem parado apenas durante três semanas em março de 2020 na Líbia, regressaram rapidamente aos negócios. Estes migrantes bloqueados, desesperados para voltar para casa ou para encontrar segurança noutro lugar, começam a mover-se através de redes criminosas. Vitorino resumiu a situação com uma frase que captura a sua frustração: estamos a regressar à normalidade da pior maneira possível.

O que torna isto particularmente urgente é que não se trata apenas de um problema de curto prazo. A pressão migratória vai manter-se, alertou Vitorino, porque os fatores subjacentes — pobreza, insegurança, mudança climática — não desapareceram com o fim das restrições de pandemia. Se tudo correr como previsto, os próximos anos trarão mais deslocações, mais pessoas desesperadas, mais recurso a rotas perigosas. A Europa terá de decidir se quer lidar com isto através de políticas de migração legal e ordenada, ou se continuará a permitir que as pessoas se coloquem nas mãos de traficantes.

Os fatores que provocam as migrações foram exacerbados pela pandemia. O que nos preocupa é o que se vai passar nos próximos anos.
— António Vitorino, diretor-geral da OIM
Na ausência de rotas de migração legal, as pessoas tentam deslocar-se através de rotas irregulares. A pandemia mudou isto? De modo nenhum.
— António Vitorino
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