Pandemia e custos explodem levam Globo a abrir mão do pacote completo da Copa

Pela primeira vez, o digital foi o motor do crescimento
A transformação do consumo de mídia esportiva no Brasil, segundo executivo da LiveMode.
Mark

Por que a Globo, que transmitia Copa desde 1970, de repente abriu mão do pacote completo?

Mimi

A pandemia quebrou as finanças da empresa. Em 2020, a Globo precisou cortar R$ 1 bilhão por ano. Ao mesmo tempo, os custos de transmissão explodiram — de US$ 19,4 milhões em 1998 para US$ 4,3 bilhões em 2026. Era insustentável.

Mark

Mas a Globo ainda transmitiu 55 jogos. Não é pouco?

Mimi

Não é pouco em números absolutos. Alcançou 140 milhões de pessoas. O problema é que perdeu a exclusividade e o controle da narrativa. A CazéTV transmitiu os jogos mais comentados — a semifinal, as histórias curiosas. A Globo ficou repercutindo depois.

Mark

Como a CazéTV conseguiu fazer isso?

Mimi

A Fifa deu ao YouTube status de plataforma preferencial. O YouTube fez parceria com a LiveMode, que é dona da Cazé. Enquanto a Globo pagava valores cada vez maiores, a Cazé cresceu com custos menores e audiências digitais massivas — 23,9 milhões de dispositivos simultâneos.

Mark

Quem decidiu que a Globo não compraria o pacote completo?

Mimi

Há duas versões. Uma aponta Jorge Nóbrega, presidente-executivo até 2022, como o responsável por cortar gastos com esporte. Outra diz que foi uma decisão colegiada, envolvendo acionistas e diretores. Nóbrega não quis comentar.

Mark

A Globo vai tentar recuperar isso em 2030?

Mimi

Sim. A empresa disse que quer recuperar todos os direitos na próxima Copa e está investindo na Copa feminina de 2025 para reafirmar sua posição. Mas o mercado mudou. A Cazé provou que consegue fazer o que a Globo fazia.

Mark

Isso significa que a era da Globo como rainha das Copas acabou?

Mimi

Não necessariamente acabou, mas mudou. A Globo ainda alcança mais pessoas em números totais. Mas a Cazé conquistou a audiência digital e as histórias que viralizam. Agora dividem o protagonismo, e isso era impensável há poucos anos.

  • Globo transmitiu 55 de 104 jogos; CazéTV obteve pacote completo
  • Custos saltaram de US$ 19,4 milhões (1998) para US$ 4,3 bilhões (2026)
  • CazéTV atingiu recorde de 23,9 milhões de dispositivos simultâneos no YouTube
  • Pandemia forçou Globo a cortar R$ 1 bilhão por ano a partir de 2020
  • Globo planeja recuperar direitos completos em 2030

A Globo transmitiu apenas 55 dos 104 jogos da Copa, enquanto CazéTV obteve o pacote completo com recorde de 23,9 milhões de dispositivos simultâneos no YouTube. Custos de transmissão saltaram de US$ 19,4 milhões em 1998 para US$ 4,3 bilhões em 2026, agravados pela pandemia que forçou cortes de R$ 1 bilhão anuais na emissora.

Pela primeira vez desde 1970, a Globo não transmitiu todas as partidas da Copa do Mundo, cedendo o pacote completo à CazéTV. A decisão reflete impacto da pandemia nas finanças e explosão dos custos de direitos de transmissão.

Pela primeira vez em mais de meio século, a Globo não transmitiu todas as partidas da Copa do Mundo. A semifinal entre Espanha e França, que levou Rodri e sua seleção à final, foi exibida apenas pela CazéTV. O mesmo aconteceu com o jogo em que Vozinha, o carismático goleiro de Cabo Verde, fez uma atuação memorável contra os espanhóis na fase inicial. Algumas das histórias mais comentadas do torneio, que terminou no domingo 19 de julho, foram ao ar exclusivamente pelo canal da LiveMode, e só depois a TV Globo e seus concorrentes repercutiram os acontecimentos.

Esta ruptura com sete décadas de tradição marca uma transformação profunda no consumo de mídia esportiva no Brasil. A Globo exibiu 55 dos 104 jogos do Mundial. O pacote completo ficou com a Cazé. O SBT apresentou 32 partidas. Apesar dessa redução, os números da emissora carioca não foram desprezíveis: até as semifinais, 140,2 milhões de pessoas foram alcançadas pela Globo através de seus canais de TV aberta, por assinatura e streaming, com 34,3 milhões impactadas exclusivamente por ela, segundo dados do Ibope. Mas a Cazé reescreveu a história das transmissões ao vivo. A plataforma conquistou 29 das 30 maiores audiências de futebol do YouTube em toda a história, com um recorde de 23,9 milhões de dispositivos conectados simultaneamente e 118,7 milhões de contas únicas alcançadas.

A decisão de não comprar o pacote completo tem raízes que remontam a 2020, quando a pandemia de coronavírus atingiu as finanças do Grupo Globo. Naquele ano, a emissora acionou a Justiça para não pagar imediatamente os US$ 90 milhões previstos em contrato para o período entre 2015 e 2022, buscando renegociar os valores em razão dos impactos da crise sanitária. O Grupo precisou fazer demissões significativas e tinha uma meta de cortar R$ 1 bilhão por ano. O embate com a Fifa se estendeu por meses até um acordo em 2021. Mas em 2022 veio o revés definitivo: a Globo perdeu a exclusividade dos direitos digitais para o torneio no Qatar, e a Fifa começou a negociar com a LiveMode. Nesse mesmo ano, a emissora confirmou que não obteria os direitos digitais para o Mundial seguinte e decidiu não comprar a totalidade dos jogos da Copa sediada nos EUA, México e Canadá.

Além do impacto da pandemia, há um segundo fator financeiro crucial: a explosão dos custos de transmissão das grandes competições de futebol. O acordo para exibir a Copa de 1998 na França custou US$ 19,4 milhões, divididos entre cinco canais brasileiros. Quando a Globo conquistou a exclusividade para 2002 e 2006, pagou US$ 413 milhões. Desde então, os preços continuaram crescendo exponencialmente. Na Copa de 2022, a venda dos direitos de transmissão gerou US$ 3,4 bilhões para a Fifa. Nesta edição, saltou para US$ 4,3 bilhões. A concorrência acirrada com gigantes digitais como o Google, que deu status de plataforma preferencial ao YouTube nesta Copa, contribuiu para essa escalada de valores.

Nos bastidores da Globo, há divergências sobre as causas. Uma corrente ligada à cúpula aponta que áreas como esporte e dramaturgia foram sacrificadas a partir de 2017 para destinar mais investimentos ao Globoplay. Outra ala contesta essa narrativa, argumentando que o custo total de conteúdo do serviço de streaming é menor do que a Globo paga apenas pela Série A do Campeonato Brasileiro. Também há debate sobre quem tomou a decisão. Alguns apontam Jorge Nóbrega, presidente-executivo de 2017 a 2022, como o grande responsável pela mudança de estratégia em relação ao esporte. Nóbrega, porém, recusou-se a comentar questões internas da empresa. Outros defendem que foi uma decisão colegiada, envolvendo acionistas, Manuel Belmar, diretor de produtos digitais, finanças, jurídico e infraestrutura, e o próprio Nóbrega.

A presença constante da CazéTV ao longo do torneio a posiciona para dividir com a Globo o papel de protagonista no imaginário coletivo brasileiro ligado à Copa, uma situação impensável uma ou duas décadas atrás. Christian Mutzig, sócio da LiveMode, observa que o digital foi o motor do crescimento de audiência: os jogos da seleção foram mais assistidos do que em 2022, e esse ganho veio inteiramente do público digital. O pico de dispositivos conectados quase dobrou na estreia da seleção contra Marrocos, saltando de 6,9 milhões para 12,6 milhões. Três jogos depois, mais de 20 milhões de dispositivos estavam conectados simultaneamente.

A Globo justifica sua estratégia afirmando que priorizou a aquisição do pacote com todos os confrontos da seleção brasileira, a final e metade das outras partidas. A emissora argumenta que o desafio hoje é combinar duas realidades: a escalada dos custos de direitos e a receita que sua exploração gera. Segundo nota da comunicação da empresa, o investimento não termina na compra dos direitos; a Globo trabalha para entregar a melhor experiência, investindo em qualidade técnica, equipes, talentos, criatividade, tecnologia e inovação. Renato Ribeiro, diretor de esportes da Globo, afirmou em junho que a emissora está de olho no novo ciclo e na Copa feminina de 2025, que acontecerá no Brasil. A empresa planeja recuperar os direitos de todos os jogos da Copa de 2030, buscando demonstrar que só ela consegue entregar uma Copa em massa para a Fifa.

Pela primeira vez, o digital foi o motor do crescimento de audiência — os jogos da seleção foram mais assistidos do que em 2022, e esse ganho veio inteiramente do público digital.
— Christian Mutzig, sócio da LiveMode
Estamos de olho no novo ciclo e na Copa feminina, que acontece aqui no Brasil no próximo ano. Queremos mostrar que só nós entregamos uma Copa em massa para a Fifa.
— Renato Ribeiro, diretor de esportes da Globo
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