Países temem usar dólar por risco de sanções dos EUA, diz Janet Yellen

Se um dia ficassem do lado oposto, pudessem enfrentar medida semelhante
Yellen explicando por que países agora temem manter dólares em suas reservas cambiais.
Mark

Quando Yellen fala em "erosão marginal", ela está minimizando o problema ou sendo honesta sobre o ritmo?

Mimi

Ela está sendo honesta. Uma queda de 70% para 50% é real, mas ainda deixa o dólar como moeda dominante. O que a preocupa é a direção, não a velocidade. Os países estão começando a se mover.

Mark

Mas por que os EUA congelaram essas reservas se sabiam que isso criaria desconfiança?

Mimi

Porque funcionou. No momento, era uma ferramenta eficaz contra adversários. Ninguém previu que o custo seria uma lenta perda de confiança global na moeda americana.

Mark

Se o yuan não é viável, o que os países estão realmente fazendo com seu dinheiro?

Mimi

Comprando ouro, diversificando em moedas menores, criando arranjos bilaterais. Não é uma substituição do dólar — é um hedge contra ele.

Mark

Isso significa que o sistema financeiro global está se fragmentando?

Mimi

Não ainda. Mas está se tornando menos centralizado. O dólar continua dominante, mas sua hegemonia está sendo questionada de formas que não eram visíveis há dez anos.

Mark

Qual é o risco real para os EUA nesse cenário?

Mimi

Se o dólar perde sua posição de reserva, os EUA perdem a capacidade de financiar déficits tão facilmente e de exercer influência econômica como fazem hoje. É uma mudança de poder muito lenta, mas muito real.

  • O congelamento de reservas de países adversários pelo G7 entre 2021 e 2025 enviou um sinal inequívoco: o dólar pode ser usado como punição, e nenhum país está imune a essa ameaça.
  • A queda de 70% para pouco mais de 50% na participação do dólar nas reservas globais representa uma mudança estrutural de confiança, não apenas uma flutuação estatística.
  • Países estão acumulando ouro e diversificando ativos como forma de reduzir a dependência de uma moeda que um governo estrangeiro pode bloquear ou confiscar.
  • A China, principal candidata a rival do dólar, ainda impõe controles rígidos de capital, tornando o yuan incapaz de circular livremente nos mercados globais.
  • O mundo está preso em um impasse: desconfia do dólar, mas não dispõe de alternativa com profundidade e liquidez suficientes para substituí-lo no curto prazo.

Janet Yellen, ex-secretária do Tesouro dos EUA, trouxe a São Paulo um diagnóstico que ressoa além dos mercados financeiros: quando uma moeda se torna arma, as nações começam a buscar escudos. A participação do dólar nas reservas globais recuou de 70% para pouco mais de 50%, não por acaso, mas como resposta racional ao risco de que Washington possa, um dia, congelar o que hoje é guardado. O paradoxo é que nenhuma moeda rival está pronta para ocupar esse espaço — e assim o mundo caminha, lentamente, para um território sem mapa claro.

Durante painel na Expert XP 2026, em São Paulo, Janet Yellen descreveu um dilema que está remodelando as finanças globais: países estão se afastando gradualmente do dólar porque temem que ele seja usado como instrumento de coerção contra eles. A ex-secretária do Tesouro, que ocupou o cargo entre 2021 e 2025, foi uma das arquitetas da decisão do G7 de congelar reservas de países adversários — uma medida eficaz no curto prazo, mas que plantou uma desconfiança que agora se alastra.

O reflexo é mensurável: a participação do dólar nas reservas cambiais mundiais caiu de cerca de 70% para pouco mais de 50%. O raciocínio dos países é direto — se os EUA congelaram reservas uma vez, podem repetir. Diante disso, muitos estão diversificando, e o aumento nas reservas de ouro traduz exatamente esse desejo de depender menos de uma moeda que um governo estrangeiro pode bloquear.

Yellen, porém, foi categórica quanto aos limites dessa fuga: nenhuma moeda está pronta para ocupar o lugar do dólar. O yuan chinês ainda enfrenta controles rígidos de capital e não circula livremente. Os mercados americanos de títulos do Tesouro acumulam décadas de profundidade e liquidez sem equivalente no mundo. Os países vivem, assim, um impasse incômodo: desconfiam do dólar, mas não têm para onde ir.

O que está em curso é a erosão lenta de um privilégio que os EUA sustentaram por mais de setenta anos. Esse privilégio permitiu financiar déficits, captar a juros baixos e exercer influência econômica singular. Agora, o uso agressivo desse poder começa a cobrar seu preço. A transição pode durar anos ou décadas, mas já está em movimento.

Janet Yellen, que comandou o Tesouro americano entre 2021 e 2025 e presidiu o Federal Reserve em 2008, descreveu nesta quinta-feira um dilema que está redefinindo a arquitetura financeira global: países estão abandonando gradualmente o dólar porque temem que ele seja usado como arma contra eles. A declaração veio durante um painel na Expert XP 2026, em São Paulo, dedicado aos desafios econômicos de curto e longo prazo.

O fenômeno que Yellen observa é mensurável e preocupante para Washington. A participação do dólar nas reservas cambiais mundiais caiu de aproximadamente 70% para pouco mais de 50% — uma erosão que pode parecer marginal em números, mas que representa uma mudança estrutural na confiança que as nações depositam na moeda americana. Essa queda não é acidental. Ela é, em grande medida, consequência de decisões tomadas pelo próprio governo dos EUA.

Quando Yellen era secretária do Tesouro, ela e seus colegas do G7 autorizaram o congelamento de reservas de países adversários — uma medida que se mostrou extraordinariamente eficaz no curto prazo, mas que plantou uma semente de desconfiança que agora germina em escala global. O cálculo que os países fazem é simples e racional: se os EUA congelaram reservas uma vez, podem fazer novamente. Se você ficar do lado errado de Washington, seu dinheiro pode desaparecer. Por isso, muitos estão diversificando. O aumento nas reservas de ouro reflete precisamente esse desejo de depender menos de uma moeda que um governo estrangeiro pode bloquear ou confiscar.

Mas há um problema para quem busca alternativas. Yellen foi clara: nenhuma outra moeda está pronta para substituir o dólar. A China, frequentemente mencionada como rival potencial, ainda mantém controles rigorosos sobre o movimento de capital — o yuan não flui livremente pelos mercados globais como o dólar faz. Os mercados americanos de títulos do Tesouro são profundos, líquidos e estabelecidos há décadas. Não existe equivalente em outro lugar. Então os países estão presos em uma situação incômoda: desconfiam do dólar, mas não têm alternativa real.

O que Yellen descreveu é uma erosão lenta mas inexorável de um privilégio que os EUA desfrutaram por mais de setenta anos — o direito de que sua moeda seja a moeda de reserva do mundo. Esse privilégio permitiu aos americanos financiar déficits, emprestar a taxas baixas e exercer influência econômica sem precedentes. Agora, as consequências de usar esse poder de forma agressiva estão se tornando visíveis. Os países não estão abandonando o dólar rapidamente — não há alternativa suficientemente forte para isso. Mas estão começando a se preparar para um mundo em que ele não seja tão dominante. Essa transição pode levar anos ou décadas, mas está em movimento.

Ficou claro que um dos riscos era que os países passassem a temer manter dólares em suas reservas, por receio de que pudessem enfrentar uma medida semelhante
— Janet Yellen
Não existe nenhuma moeda capaz de substituir o dólar. Os Estados Unidos têm mercados profundos e líquidos
— Janet Yellen
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