Anderson Ângelo assumiu a paternidade de Maya, criança com síndrome de Down, após conhecer a mãe, mantendo vínculo firme mesmo após término do relacionamento. Psicóloga explica que presença paterna após separação garante estabilidade emocional e reduz ansiedade, enquanto pais ressignificam sonhos e celebram pequenas conquistas.
Pais atípicos transformam desafios em histórias de presença e afeto
Você perde todos esses sonhos, mas tem que ser forte por ele
Por que essas histórias importam agora, neste momento?
Porque há muitos homens que desistem quando descobrem que o filho tem uma deficiência ou uma doença rara. Essas cinco histórias mostram que é possível ficar, que é possível amar, que é possível ser pai de um jeito diferente do que se imaginou.
O que muda quando um pai decide ficar depois de uma separação?
Muda tudo para a criança. Ela aprende que o amor do pai não depende do relacionamento entre os adultos. Isso reduz a ansiedade, evita comportamentos de estresse, mantém a rotina de cuidados preservada.
Rodrigo abdicou de sua carreira. Isso é sacrifício ou é escolha?
É ambos. Ele sacrificou a profissão que tinha, mas escolheu dedicar-se ao filho porque acreditava que era o certo. Hoje ele diz que valeu muito a pena, porque vê seu filho com 15 anos criando autonomia.
A psicóloga fala sobre "filho idealizado". O que isso significa?
Significa aquele filho que você imaginou antes dele nascer — o que jogaria basquete com você, o que seguiria sua profissão, o que teria uma vida "normal". Quando a realidade é diferente, muitos homens não conseguem lidar com essa perda de expectativa.
E como esses pais aprendem a lidar?
Ressignificando os sonhos. Rodrigo não joga basquete com Heitor, mas o vê se tornar atleta de judô. Celebra as pequenas conquistas. Aprende que a paternidade é uma professora, como diz Luis Henrique — você aprende todos os dias.
Qual é o papel da rede de apoio?
É tudo. Helga construiu uma rede de profissionais, de amor e carinho ao redor de Caio. Quando ela partiu, Luis pôde abraçar essa paternidade porque tinha o alicerce que ela havia plantado. Autocuidado, terapia individual, conviver com outros pais atípicos — isso divide o peso da jornada.
The Pulse
- Anderson Ângelo assumiu paternidade de Maya Sol, criança com síndrome de Down, em 2023
- Rodrigo Carlos deixou carreira de professor para dedicar-se integralmente ao filho com TEA
- Psicóloga aponta que presença paterna após separação reduz ansiedade e preserva rotina de cuidados
- Cinco histórias de pais com filhos com síndrome de Down, TEA e mucopolissacaridose
Anderson Ângelo assumiu a paternidade de Maya, criança com síndrome de Down, após conhecer a mãe, mantendo vínculo firme mesmo após término do relacionamento. Psicóloga explica que presença paterna após separação garante estabilidade emocional e reduz ansiedade, enquanto pais ressignificam sonhos e celebram pequenas conquistas.
Reportagem apresenta cinco histórias de pais que assumiram a paternidade de crianças com deficiências e condições raras, transformando desafios em demonstrações de afeto e responsabilidade no Rio Grande do Norte.
Anderson Ângelo conheceu Maya Sol quando ela tinha apenas um ano de idade, recém-recuperada de uma cirurgia cardíaca. A menina, que tem síndrome de Down, chegou ao seu colo como se já se conhecessem de outras vidas — assim ele descreve aquele primeiro encontro em 2023. O editor de vídeo de 35 anos, que sempre sonhou em ser pai, assumiu a paternidade que o genitor biológico havia abandonado antes do nascimento. Hoje, aos 4 anos, Maya não fala, mas comunica através de gestos todo o carinho que sente por Anderson. Ela ainda não pronuncia a palavra "papai", mas demonstra seu afeto de formas que ele reconhece e celebra todos os dias.
Anderson está presente em cada detalhe da vida de Maya: acompanha suas terapias, participa de seus cuidados médicos, divide responsabilidades com a mãe, Amanda. O que mais o desafia é vê-la chorar; o que mais o alegra é seu sorriso quando ele a busca na escola. Ele acredita que sua presença é fundamental para que Maya cresça sabendo como merece ser tratada. A história de Anderson e Maya é uma entre cinco que esta reportagem reúne para refletir sobre a paternidade atípica — aquela que nasce não da genética, mas da escolha e do amor. Comemorado neste domingo, o Dia dos Pais rememora essas histórias de homens que decidiram ser pais apesar dos desafios, das deficiências, das doenças raras.
A psicóloga Jayany Queiroz explica que o pai funciona como uma referência de mundo e afeto para a criança. Sua presença traz diversidade às interações sociais, fortalece a segurança emocional e abre portas para inclusão na sociedade. Ainda assim, muitos casos de abandono ocorrem quando o diagnóstico de deficiência ou neurodivergência é revelado. Segundo a psicóloga, isso acontece porque muitos homens não conseguem lidar com a quebra do "filho idealizado" e com a frustração de expectativas quanto ao futuro que planejaram. Quando o pai permanece presente após o término do relacionamento, a criança aprende que o amor e a proteção paternal não dependem do relacionamento entre os adultos — isso reduz ansiedade, evita comportamentos de estresse e preserva a rotina de cuidados.
Rodrigo Carlos, 45 anos, sempre sonhou em ser pai e em jogar basquete com seu filho. Quando Heitor nasceu, há 15 anos, esse sonho parecia ao alcance. Mas quando a criança começou a mostrar características atípicas, Rodrigo e sua esposa, a médica Sulene Cunha, precisaram viajar a São Paulo para obter um diagnóstico: transtorno do espectro autista. Em 2014, Natal não tinha profissionais especializados o suficiente. A notícia impactou profundamente. Rodrigo perdeu todos aqueles sonhos que havia projetado — o basquete, o atleta que seria seu filho. Mas decidiu ser forte por ele. Tirou licença do trabalho como professor para estudar sobre TEA e, depois, nunca voltou. Abdicou de sua profissão para dedicar-se integralmente ao filho, para que frequentasse as melhores terapias, para ajudar em seu desenvolvimento. Hoje é corretor de imóveis. Heitor, aos 15 anos, é faixa laranja em judô e caminha para ser atleta. Rodrigo celebra cada pequena conquista: colocar o cinto de segurança sozinho, escolher a música que quer ouvir no carro. Para ele, ser pai é tentar ser sua melhor versão todos os dias e ser um exemplo de proteção.
Luis Henrique, 50 anos, comunicador, é pai de Pedro, 17, e Caio, 11, que tem TEA. Em junho, a família perdeu Helga Oliveira, mãe dos meninos e jornalista que se dedicou exclusivamente aos filhos após descobrir ser mãe atípica. Luis relata que sempre foi "coadjuvante" no tratamento, acompanhando todos os passos, mas Helga era mais presente nos consultórios e construiu a rede de apoio. Depois que ela partiu, Luis abraçou essa paternidade. Ele reconhece que a maternidade atípica é diferente pelos desafios que requer — mães que deixaram de trabalhar, mães que acordam de madrugada, mães que sofrem caladas com o preconceito. Mas também homenageia os pais que ficam, os tios, os avôs. Luis diz que não faria o que está fazendo hoje se não fosse o que sua esposa semeou.
José Erivan, 46 anos, ceramista, é pai de Kémilly Mabelly, 11, que tem mucopolissacaridose tipo 6, uma doença rara. A chegada dela mudou a família, diz ele, que mora em Apodi. A rotina é cansativa — cuidados com a filha, trabalho, acompanhamento de terapias, consultas, escola e momentos de lazer. José Erivan está sempre ao lado dela para que tenha qualidade de vida melhor. Diante de muitos desafios, preconceitos e direitos negados, ele continua lutando por dias melhores para que ela possa ter uma vida digna. O empresário José Augusto Santos, 61 anos, é pai de Lucas, 30, e padrasto de Patrick Dorneles, 29, ambos com mucopolissacaridose tipo 4. Lucas recebeu o diagnóstico aos 6 meses de idade. A doença é degenerativa, atinge todo o organismo, acelera o envelhecimento. Lucas é engenheiro eletricista; Patrick é político. Ambos são atuantes em suas áreas profissionais. Em 2012, Lucas participou de uma pesquisa científica em Porto Alegre que testava reposição enzimática — foi lá que José Augusto conheceu Jaqueline, mãe de Patrick. Essas histórias, todas elas, mostram que a paternidade atípica exige autocuidado, apoio profissional e redes de solidariedade. Cansaço e dúvidas não fazem de ninguém um mau pai. O que importa é estar presente, celebrar cada conquista, acolher a realidade do filho, amá-lo, respeitar suas limitações e acreditar em seu futuro.
Notable Quotes
Ela já veio direto no meu colo, como se a gente já tivesse se conhecido em outras vidas— Anderson Ângelo, editor de vídeo
Decidi abdicar da minha profissão para me dedicar a ele, para ele frequentar as melhores terapias— Rodrigo Carlos, pai de Heitor
A paternidade é uma professora, com a qual aprendo todos os dias— Luis Henrique, comunicador