Paes acelera inaugurações de obras antes do prazo eleitoral de 5 de julho

Só vou acreditar que é para valer se não parar depois de outubro
Vendedor em Campo Grande expressa desconfiança sobre a continuidade das obras após as eleições.
Mark

Por que o prefeito não pode simplesmente continuar inaugurando obras depois de 5 de julho?

Mimi

Porque a lei eleitoral é clara. O TSE estabelece que candidatos à reeleição ficam proibidos de participar de inaugurações de obras públicas ou divulgação de serviços públicos a partir de três meses antes do primeiro turno. É uma regra para evitar que o poder público seja usado como ferramenta de campanha.

Mark

Mas as obras continuam sendo feitas, certo? Ele só não pode estar lá?

Mimi

Exatamente. O que muda é a visibilidade, a foto, o evento. A obra segue seu curso. O que Paes está fazendo agora é concentrar toda a simbologia — os eventos, os anúncios, a presença dele — antes do prazo.

Mark

E por que a Zona Oeste especificamente?

Mimi

Porque é onde ele tem mais a ganhar eleitoralmente. Em Campo Grande, por exemplo, ele conquistou 22% dos votos em 2022. É um bom número, mas deixa espaço para crescimento. A região tem a maior densidade populacional da cidade, então cada ponto percentual ali vale muito mais votos.

Mark

Mas essas obras estão realmente prontas?

Mimi

Muitas não. O Morar Carioca tem 704 unidades previstas, mas apenas três blocos foram entregues. O Anel Viário é um trecho de 400 metros de um projeto que tem nove frentes e só fica pronto em 2025. A Leopoldina vai ser restaurada até 2026. Ele está inaugurando fases, começos, simbolismos.

Mark

Como as pessoas reagem a isso?

Mimi

Com ceticismo. Um vendedor em Campo Grande disse que só acredita que é para valer se as obras não pararem depois de outubro. Há uma desconfiança de que tudo isso é apenas para a campanha.

Mark

Isso é estratégia eleitoral ou é governança?

Mimi

É ambas as coisas. Segundo especialistas, a dinâmica eleitoral sempre precede as outras. Um político precisa de um mandato para colocar suas políticas em prática, então a estratégia eleitoral dirige a performance. Mas isso não quer dizer que as obras não sejam reais — apenas que o timing, o lugar e a visibilidade delas são escolhidos estrategicamente.

  • A partir de 6 de julho, o TSE proíbe candidatos à reeleição de participar de inaugurações públicas, transformando o dia 5 em um prazo irrevogável que comprime meses de agenda em dias.
  • Muitas das obras entregues estão longe de concluídas: menos de 10% do Morar Carioca foi entregue, um único trecho do Anel Viário foi inaugurado, e ruas do Bairro Maravilha seguem sem asfalto.
  • A Zona Oeste, região mais populosa e com maior potencial de crescimento eleitoral para Paes, concentra a maioria dos eventos — uma escolha que pesquisadores da UFRJ descrevem como estratégia deliberada, não coincidência.
  • O orçamento do programa Asfalto Liso saltou 67% em um ano, chegando a R$ 416 milhões, sinalizando que o esforço eleitoral também se mede em reais além de eventos.
  • A desconfiança dos moradores ecoa nas ruas: 'Só vou acreditar que é para valer se não parar depois de outubro', resume um vendedor de Campo Grande, capturando o ceticismo que acompanha cada fita cortada.

Às vésperas de um prazo eleitoral imposto pelo Tribunal Superior Eleitoral, o prefeito Eduardo Paes condensa em três semanas o que governos costumam distribuir ao longo de anos: inaugurações, cortes de fita e anúncios de obras. O ritual é antigo na democracia brasileira — a cidade como palco, o mandato como argumento. O que distingue este momento é a transparência quase confessional da urgência: a lei marca o fim do espetáculo para o dia 5 de julho, e o relógio corre mais alto do que as máquinas nas obras.

O prefeito Eduardo Paes transformou as últimas semanas de junho e os primeiros dias de julho em uma maratona de inaugurações. Mais de 25 eventos em menos de três semanas — uma média superior a uma ação por dia. O motivo é legal e preciso: a partir de 6 de julho, o TSE proíbe candidatos à reeleição de participar de inaugurações ou divulgações de obras públicas. Sexta-feira, 5 de julho, é o último dia.

O problema é que várias dessas entregas são parciais. No dia 30 de junho, ao lado do presidente Lula, Paes inaugurou o Morar Carioca na Favela do Aço, em Santa Cruz: 16 famílias receberam chaves, mas apenas 3 dos 44 blocos estão prontos. O restante deve ficar pronto em 2026. Na mesma sexta-feira do prazo final, Paes vai a Campo Grande inaugurar um trecho de 400 metros do Anel Viário — um dos nove componentes de um projeto de R$ 1 bilhão que só estará concluído no fim de 2025. O padrão se repete no Bairro Maravilha, em Padre Miguel, onde apenas 11 das 36 ruas foram entregues, e na Estação Leopoldina, fechada há 22 anos, cujo lançamento das obras foi marcado para esta semana — mas a restauração só terminará em 2026.

A concentração de eventos na Zona Oeste não é casual. A região tem a maior densidade eleitoral da cidade, e Paes tem espaço para crescer: em Campo Grande, o bairro mais populoso do Brasil, ele obteve apenas 22% dos votos no primeiro turno de 2022 — ficando na 146ª posição entre 163 bairros no segundo turno. Pesquisadores da UFRJ que mapearam a estratégia são diretos: a lógica eleitoral precede e orienta a lógica de governo.

O esforço também aparece no orçamento. O programa Asfalto Liso recebeu R$ 416,3 milhões este ano, alta de 67% sobre 2023. E a parceria com o governo federal — simbolizada pela presença de Lula em Santa Cruz e pelos projetos ligados à União, como a Leopoldina — reforça a narrativa de um prefeito bem conectado. O espetáculo tem data de encerramento marcada. O que fica depois do prazo é uma questão em aberto.

O prefeito Eduardo Paes tem pressa. Nas últimas três semanas de junho e primeiros dias de julho, sua agenda explodiu em inaugurações, anúncios de obras, cortes de fita. Mais de uma ação por dia, em média — pelo menos 25 eventos entre 15 de junho e 5 de julho. A razão é simples e obrigatória: a partir de 6 de julho, exatos três meses antes do primeiro turno das eleições municipais, o Tribunal Superior Eleitoral proíbe candidatos à reeleição de participar de inaugurações de obras públicas ou divulgação de serviços públicos. Paes é candidato à reeleição. Portanto, sexta-feira, 5 de julho, é o último dia.

Mas há um detalhe que complica a narrativa de progresso: muitas dessas obras não estão prontas. No dia 30 de junho, acompanhado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Paes foi até a Favela do Aço em Santa Cruz para inaugurar o Morar Carioca — um projeto que prevê 704 unidades habitacionais financiadas pela Caixa Econômica Federal. Dezesseis famílias receberam as chaves. Apenas três dos 44 blocos foram concluídos. Menos de 10% do total. A previsão é que tudo fique pronto em 2026. Na próxima sexta-feira, último dia do prazo, Paes vai a Campo Grande, o bairro mais populoso do Brasil com 346.721 moradores, para inaugurar um mergulhão com 400 metros de extensão. É um trecho importante, mas apenas um dos nove componentes do Anel Viário — que inclui dois túneis e a duplicação de várias vias. O projeto inteiro custará cerca de R$ 1 bilhão em empréstimo do BNDES e só deve estar concluído no fim de 2025. Um vendedor de 52 anos que trabalha em Campo Grande, Paulo Viegas, capturou a desconfiança que paira sobre essas entregas: "É muita obra, e tem eleições chegando. Só vou acreditar que é para valer se não parar depois de outubro."

O padrão se repete. No dia 23 de junho, Paes entregou parcialmente o programa Bairro Maravilha na Vila Vintém, em Padre Miguel — apenas 11 das 36 ruas foram concluídas. Uma semana antes, no dia 16 de junho, inaugurou a pavimentação de 12 ruas na comunidade Vinte e Nove de Março em Cosmos, deixando três vias faltando. Há também a Estação Ferroviária Barão de Mauá, conhecida como Leopoldina, fechada há 22 anos e tombada como patrimônio histórico. A restauração, orçada em R$ 80 milhões, deveria começar no dia 1º de julho, mas foi adiada pela chuva. A prefeitura remarcou para o dia 2. A estação só ficará pronta no fim de 2026, quando completará cem anos. Mas o evento de lançamento das obras? Isso cabe no calendário.

Não é coincidência que a maioria dessas inaugurações esteja concentrada na Zona Oeste. A região tem a maior densidade populacional da cidade — e, portanto, a maior densidade eleitoral. No dia 30 de junho, Paes se deixou filmar andando de bicicleta pela Avenida Engenheiro Souza Filho, entre Muzema e Rio das Pedras, onde havia acabado de inaugurar obras de drenagem e pavimentação que custaram R$ 34,7 milhões. Antes disso, no dia 15 de junho, inaugurou o Parque Susana Naspolini em Realengo. Mayra Goulart, professora do Departamento de Ciência Política da UFRJ, explica a lógica: ao priorizar a Zona Oeste, o prefeito visa aos bairros com mais eleitores e onde tem maior potencial de crescimento. Em Campo Grande, por exemplo, Paes conquistou 22% dos votos no primeiro turno de 2022 — um bom percentual, mas que deixa margem para crescer.

Um estudo do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada em parceria com a Coppe/UFRJ, coordenado por Goulart, mapeou essa estratégia. No ranking de votação de Paes no segundo turno das últimas eleições municipais, considerando o percentual de votos por bairro, Campo Grande aparece na 146ª posição entre os 163 bairros da cidade. Outros da região seguem a mesma trajetória: Paciência (145ª), Bangu (141ª), Realengo (128ª), Santa Cruz (120ª) e Taquara (81ª). Todos com potencial de crescimento eleitoral. Goulart observa que isso não é peculiaridade de Paes ou de sua agenda política. "A dinâmica eleitoral precede as outras. A estratégia eleitoral dirige a performance de um político."

O esforço para fazer bonito em ano eleitoral também incluiu um aumento significativo nos gastos. O programa Asfalto Liso, da Secretaria municipal de Conservação, recebeu uma turbinada orçamentária. Em 2022, a prefeitura desembolsou R$ 184,1 milhões; em 2023, R$ 249 milhões; este ano, o valor saltou para R$ 416,3 milhões — um aumento de mais de 67% em relação ao ano anterior. Esses números não incluem os recapeamentos feitos dentro do projeto Bairro Maravilha, que também implanta redes de águas pluviais e coloca asfalto novo, especialmente na Zona Oeste.

Além de acelerar gastos e inaugurações, Paes tem buscado reafirmar sua parceria com o governo federal. A presença de Lula na inauguração do Morar Carioca em Santa Cruz e a cerimônia preparada para marcar o início das obras na Estação Leopoldina — fruto direto de parceria com a União — são exemplos dessa estratégia. A Leopoldina, aliás, é um projeto ambicioso: nos 125 mil metros quadrados do terreno, a prefeitura pretende construir a Fábrica do Samba, um centro de convenções e 700 unidades de habitação popular do programa Minha Casa, Minha Vida. Mas tudo isso virá depois. Por enquanto, há apenas o lançamento simbólico das obras, agendado para hoje.

É muita obra, e tem eleições chegando. Só vou acreditar que é para valer se não parar depois de outubro
— Paulo Viegas, vendedor em Campo Grande
A dinâmica eleitoral precede as outras. A estratégia eleitoral dirige a performance de um político
— Mayra Goulart, professora do Departamento de Ciência Política da UFRJ
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