Padre excomunhado mantém atividades normais em Ceilândia, desafiando orientação da Arquidiocese de Brasília para que fiéis evitem a Capela Santo Atanásio. Françoá argumenta que excomunhão carece de fundamento jurídico, pois grupo preserva fé católica através da missa tridentina em latim, rejeitando reformas do Concílio Vaticano II.
Padre excomunhado do DF rejeita punição e critica Vaticano por contradizer lei da Igreja
Estamos dispostos a sofrer qualquer título, mas não vamos perder a fé
Por que o padre rejeita a excomunhão se ela foi formalmente confirmada pela Arquidiocese?
Porque ele argumenta que não há fundamento jurídico na punição. Segundo o Direito Canônico, excomunhão se aplica a quem rompe a comunhão da Igreja em questões de fé e sacramentos. Françoá diz que a Fraternidade está fazendo exatamente o oposto — protegendo a fé e os sacramentos através da tradição.
Mas o Vaticano vê isso como cisma, não como preservação.
Exatamente. Para Roma, rejeitar as reformas do Concílio Vaticano II é rejeitar a própria Igreja moderna. Para Françoá e a Fraternidade, é o contrário — é a Igreja que se desviou, e eles estão trazendo-a de volta.
Como ele consegue continuar celebrando missas se está excomunhado?
A capela funciona de forma independente da Arquidiocese há tempos. Ele não está ligado à diocese, não precisa de autorização para celebrar lá. A orientação da Arquidiocese é para que os fiéis evitem o lugar, mas não há mecanismo prático que o impeça de continuar.
E os fiéis? Eles sabem que estão em risco de excomunhão também?
Sabem. A Arquidiocese foi clara sobre o "grave risco de gradual aderência ao mesmo cisma e excomunhão". Mas as pessoas continuam vindo — buscam orientação espiritual, celebram casamentos. Para eles, a missa em latim, a liturgia tradicional, representa algo que não encontram em outras paróquias.
Isso é um conflito novo ou vem de longe?
Vem de muito longe. A Fraternidade São Pio X foi fundada nos anos 1970 em reação ao Concílio Vaticano II, que reformou a Igreja entre 1962 e 1965. Esse conflito entre tradição e modernidade nunca foi resolvido — apenas convive em tensão.
O que acontece agora?
Françoá continua celebrando. A Arquidiocese mantém sua orientação. A Fraternidade segue com seus 720 sacerdotes e meio milhão de fiéis no mundo. Ninguém cede, ninguém avança. É um impasse que pode durar indefinidamente.
The Pulse
- Padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa excomunhado pela Arquidiocese de Brasília
- Capela Santo Atanásio fundada há pouco mais de um ano em Ceilândia
- Fraternidade Sacerdotal São Pio X tem 720 sacerdotes e quase meio milhão de fiéis no mundo
- Missas celebradas em latim seguindo liturgia anterior ao Concílio Vaticano II (1962-1965)
Padre excomunhado mantém atividades normais em Ceilândia, desafiando orientação da Arquidiocese de Brasília para que fiéis evitem a Capela Santo Atanásio. Françoá argumenta que excomunhão carece de fundamento jurídico, pois grupo preserva fé católica através da missa tridentina em latim, rejeitando reformas do Concílio Vaticano II.
Padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa, excomunhado pela Arquidiocese de Brasília por vínculo com grupo tradicionalista, rejeita a punição alegando contradição com o Direito Canônico e continua celebrando missas na Capela Santo Atanásio.
Na Capela Santo Atanásio, em Ceilândia, a rotina segue como sempre. O padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa celebra suas missas, atende fiéis que procuram orientação espiritual, e neste fim de semana um casamento estava marcado para ser realizado no local. Tudo isso apesar de a Arquidiocese de Brasília ter confirmado sua excomunhão e orientado os fiéis a evitarem a capela. Para Françoá, a vida continua simples: rezar, atender quem precisa de seu ministério sacerdotal. As coisas complexas — as punições, as disputas institucionais — não o deterão.
A excomunhão chegou porque a Capela Santo Atanásio mantém um vínculo de amizade com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, um grupo tradicionalista fundado na Suíça que entrou em conflito aberto com o Vaticano. O conflito tem raízes profundas. Entre 1962 e 1965, o Concílio Vaticano II promoveu uma das maiores reformas da história recente da Igreja Católica — mudanças litúrgicas, pastorais, teológicas que modernizaram a instituição. A Fraternidade São Pio X rejeitou parte dessas reformas. Quando seus líderes ordenaram quatro bispos sem autorização papal, o Vaticano respondeu declarando que padres e fiéis formalmente ligados ao grupo estavam em situação de cisma e excomunhão.
Mas Françoá contesta a própria validade jurídica da punição. Segundo ele, o Direito Canônico prevê excomunhão para quem rompe a comunhão da Igreja em questões de fé e sacramentos. Isso não é o caso, argumenta. "Como podem nos excomungar se o que nós estamos fazendo é exatamente para proteger a fé católica e os sacramentos católicos?", pergunta. Para o padre, a Fraternidade não está rompendo com a Igreja — está preservando-a. Rejeita o rótulo de "ultraconservador". "Somos apenas católicos, conservando a tradição da Igreja", diz. E completa: "Estamos dispostos a sofrer o que for preciso para continuar anunciando a verdade dentro da própria Igreja Católica, que infelizmente foi tomada por essas ideias revolucionárias".
A Capela Santo Atanásio foi fundada há pouco mais de um ano no Setor O de Ceilândia. Françoá, que completa 22 anos de sacerdócio, conta que ao longo de sua carreira tentou introduzir elementos mais tradicionais em várias paróquias onde trabalhou, mas era expulso. "Quer dizer que não é possível conviver o modernismo com a tradição", reflete. A capela funciona de forma independente da Arquidiocese — "vivemos um pouco, entre aspas, à margem da oficialidade dessas coisas", explica. Essa situação se consolidou ao longo das últimas décadas, conforme os conflitos entre a Fraternidade e o Vaticano se aprofundaram.
Quem entra na Capela Santo Atanásio encontra um rito distinto do praticado na maioria das paróquias. As missas são celebradas em latim, com o padre voltado para o altar durante toda a celebração, seguindo a liturgia anterior ao Concílio Vaticano II — a chamada missa tridentina. Os sermões, porém, são em português, uma concessão que permite aos fiéis compreender o conteúdo da celebração enquanto preserva a forma tradicional. Françoá defende essa escolha com convicção. "O latim é a língua sagrada da Igreja Católica. Como não é uma língua falada habitualmente, os conceitos permanecem sempre os mesmos. Isso assegura muito a transmissão da verdade católica", explica. Para ele, a capela não faz nada diferente daquilo que a Igreja Católica sempre fez. "Eu batizo como sempre se batizou. Eu rezo a missa como sempre se rezou. Eu atendo a confissão como os nossos antigos fizeram."
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X, fundada pelo arcebispo Dom Marcel Lefebvre, defende o retorno das missas em latim, celebrações com o padre de costas para os fiéis, e rejeita as reformas litúrgicas e pastorais adotadas pela Igreja nas últimas décadas. Rejeita também a separação entre Igreja e Estado e a abertura ao diálogo com outras religiões. Segundo o site brasileiro da fraternidade, o objetivo de Dom Lefebvre foi "mal compreendido" — ele insistia em respeitar o Papa enquanto continuava uma tradição católica ininterrupta. Atualmente, a Fraternidade tem 720 sacerdotes e quase meio milhão de fiéis ao redor do mundo.
A Arquidiocese de Brasília, em sua nota confirmando a excomunhão, afirmou que todas as celebrações, atividades pastorais e iniciativas de formação na Capela Santo Atanásio são irregulares e devem ser "terminantemente evitados pelos fiéis, em razão do grave risco de gradual aderência ao mesmo cisma e excomunhão". Mas na prática, a vida continua. Françoá segue seu ministério. Os fiéis continuam vindo. Os casamentos continuam sendo celebrados. O conflito entre tradição e modernidade, entre Roma e seus dissidentes, permanece sem resolução — e a capela em Ceilândia segue como um pequeno reduto dessa tensão que atravessa séculos.
Notable Quotes
Eu vou fazer o meu dia a dia aqui. Rezar minhas missas, atender as pessoas que necessitem do meu trabalho, do meu ministério sacerdotal.— Padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa
Como podem nos excomungar se o que nós estamos fazendo é exatamente para proteger a fé católica e os sacramentos católicos?— Padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa