Pacote dos EUA não convence e Milei enfrenta desconfiança na Argentina

O mercado não acredita em Bessent, nem mesmo com o dinheiro que ele está investindo
Gestor de fundos resume por que 40 bilhões de dólares não conseguem conter a venda de pesos na Argentina.
Mark

Por que 40 bilhões de dólares não conseguem estabilizar o peso? Parece uma quantia enorme.

Mimi

Porque o mercado não acredita que o dinheiro vai resolver o problema de fundo. Milei não tem um plano fiscal coerente, as reservas são insuficientes, e todos sabem disso.

Luke

Mas espera — Bessent realmente injetou os 40 bilhões, ou foi só um anúncio de que poderia fazer isso?

Mimi

Foi um acordo articulado, um pacote potencial. O peso se recuperou brevemente quando foi anunciado, mas logo caiu de novo.

Mark

E quanto à fuga de capitais? 300 milhões por dia parece muito.

Mimi

É. Em cinco meses, argentinos compraram 18 bilhões em dólares. Estão apostando que Milei vai perder as eleições legislativas de 26 de outubro e que o peso vai desabar depois.

Luke

Espera — essa estimativa de 300 milhões por dia vem de quem? É do Banco Central, de analistas, de onde?

Mimi

De estimativas de analistas. O Banco Central confirmou que foram 18 bilhões em cinco meses, o que dá uma média, mas a cifra diária é projeção.

Mark

E Trump? O que ele tem a ver com isso?

Mimi

Trump disse que pode retirar o apoio financeiro se Milei perder. O mercado viu isso como interferência política e ficou ainda mais nervoso.

Luke

Então a volatilidade aumentou não só por razões econômicas, mas por incerteza política também.

Mimi

Exatamente. Milei já estava enfraquecido politicamente depois de derrotas em Buenos Aires. Agora tem Trump ameaçando, eleições chegando, e ninguém sabe o que vem.

Mark

Então é realmente inevitável? O colapso?

Mimi

Segundo os analistas, sim — a menos que haja reservas suficientes e um plano fiscal real. Mas ninguém acredita que isso vai acontecer antes das eleições.

  • O pacote de US$ 40 bilhões anunciado por Washington gerou apenas um alívio passageiro — desde 29 de setembro, o peso perde valor frente ao dólar em quase todas as sessões.
  • Argentinos compram cerca de US$ 300 milhões em dólares por dia, totalizando US$ 18 bilhões nos últimos cinco meses, mesmo diante das restrições impostas pelo governo.
  • Para segurar o câmbio, o governo elevou as taxas de juros de curto prazo a 157%, medida que drena liquidez e aumenta o risco de um colapso ainda mais profundo.
  • A declaração de Trump sugerindo retirada de apoio caso Milei perca as eleições foi lida pelo mercado como interferência política, disparando nova onda de volatilidade cambial.
  • Analistas são categóricos: sem reservas suficientes e um plano fiscal coerente, o colapso cambial é apenas uma questão de tempo — e uma derrota eleitoral de Milei pode acelerar a disparada do dólar paralelo.

Há momentos na história econômica em que o dinheiro, por si só, não é suficiente para restaurar a confiança — e a Argentina vive um desses momentos. Apesar da intervenção bilionária do Tesouro americano, liderada por Scott Bessent, o mercado continua apostando contra o peso, interpretando cada resgate como confirmação de uma fragilidade que nenhum pacote externo consegue disfarçar. Com eleições legislativas marcadas para 26 de outubro e o governo Milei politicamente enfraquecido, a especulação cambial não recua: ela se alimenta, paradoxalmente, das próprias tentativas de contê-la.

Scott Bessent chegou à Argentina com um arsenal de US$ 40 bilhões e a promessa de estabilizar o peso. Chamou a moeda de 'subvalorizada', articulou com bancos internacionais e tentou sinalizar ao mercado que Washington estava do lado de Milei. O peso reagiu brevemente, na semana de 22 de setembro. Depois disso, voltou a cair — e não parou mais.

Desde o fim de setembro, a moeda perde terreno frente ao dólar em quase todas as sessões. Nos últimos cinco meses, argentinos acumularam US$ 18 bilhões em moeda estrangeira — cerca de 400 dólares por habitante. O ritmo atual é de aproximadamente US$ 300 milhões por dia, mesmo com as restrições vigentes. Para conter a sangria, o governo elevou as taxas de juros de curto prazo a 157%, uma medida que drena liquidez do sistema e amplia o risco de um colapso mais grave. Ezequiel Asensio, da Valiant Asset Management, sintetizou o impasse: cada anúncio de Bessent dura menos que o anterior, e o mercado simplesmente não acredita mais.

O cenário político aprofundou a crise. Milei já chegava enfraquecido às eleições legislativas de 26 de outubro, após derrotas em Buenos Aires. Quando Trump sinalizou que poderia retirar o apoio financeiro caso o presidente perdesse as urnas, o mercado leu a declaração como interferência e a volatilidade disparou. Fundos internacionais passaram a usar as breves recuperações do peso para liquidar ativos locais. Lucio Arrocha, da StoneX, foi direto: não há dólares suficientes no país para enfrentar a fuga de capitais em curso.

Economistas apontam que o problema é estrutural. Sem reservas robustas e um plano fiscal consistente, as intervenções de Washington apenas adiam uma desvalorização que parece inevitável. Uma eventual derrota de Milei nas eleições pode ser o gatilho que faltava para uma nova disparada do dólar paralelo — e para mais um capítulo da longa e dolorosa história cambial argentina.

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, chegou à Argentina com uma proposta ambiciosa: injetar até 40 bilhões de dólares para impedir que o peso desabasse novamente. Ele chamou a moeda de "subvalorizada", articulou com bancos internacionais e tentou conter a queda no mercado. Nada disso funcionou. Semana após semana, argentinos e investidores continuaram vendendo pesos em massa, apostando que o presidente Javier Milei seria forçado a permitir uma desvalorização logo após as eleições legislativas marcadas para 26 de outubro.

O peso se recuperou brevemente quando o pacote foi anunciado, na semana de 22 de setembro. Mas desde 29 de setembro, a moeda perdeu valor frente ao dólar em quase todas as sessões. Nos últimos cinco meses, argentinos compraram 18 bilhões de dólares em moeda estrangeira — cerca de 400 dólares por habitante, segundo dados do Banco Central. Analistas estimam que poupadores e empresas estão adquirindo aproximadamente 300 milhões de dólares por dia, mesmo com as restrições impostas pelo governo.

O governo, desesperado para sustentar o câmbio, elevou as taxas de juros de curto prazo para 157%, drenando liquidez do sistema financeiro e aumentando o risco de um novo colapso. Ezequiel Asensio, gestor da Valiant Asset Management, resumiu o fracasso em uma frase: "Os anúncios de Bessent têm retornos marginais decrescentes: cada um dura cada vez menos. O mercado não acredita em Bessent, nem mesmo com o dinheiro que ele está investindo".

O cenário piorou quando o presidente Donald Trump indicou que poderia retirar seu apoio financeiro caso Milei fosse derrotado nas urnas. O mercado interpretou a declaração como tentativa de interferência política e a volatilidade cambial disparou. Antes disso, Milei já havia enfraquecido politicamente após derrotas eleitorais em Buenos Aires, intensificando a fuga de capitais. Cada vez que o Tesouro intervinha, operadores de câmbio viam aquilo como uma oportunidade para sair do peso — um sinal claro de que a confiança havia evaporado.

Os bancos relatam demanda crescente por dólares. Os fundos internacionais aproveitam as breves recuperações do peso para vender seus ativos locais. Lucio Arrocha, estrategista da StoneX, foi direto: "Não há dólares suficientes no país para enfrentar a fuga de capitais que ocorrerá. O colapso cambial é apenas uma questão de tempo".

O economista argentino Federico Vaccarezza apontou o problema estrutural: o peso está condenado a cair enquanto não houver reservas suficientes e um plano fiscal coerente. As medidas paliativas de Washington apenas postergam uma desvalorização que parece inevitável. O governo Milei, que adotou uma política ultraliberal e busca cortar subsídios e privatizar estatais, enfrenta crescente pressão popular e interna dentro do Congresso. A proximidade das eleições legislativas aumenta a incerteza política e torna mais difícil conter a especulação. Analistas apontam que uma eventual derrota do presidente pode acelerar ainda mais a fuga de capitais e provocar uma nova disparada do dólar paralelo.

Os anúncios de Bessent têm retornos marginais decrescentes: cada um dura cada vez menos. O mercado não acredita em Bessent, nem mesmo com o dinheiro que ele está investindo.
— Ezequiel Asensio, gestor da Valiant Asset Management
Não há dólares suficientes no país para enfrentar a fuga de capitais que ocorrerá. O colapso cambial é apenas uma questão de tempo.
— Lucio Arrocha, estrategista da StoneX
O peso está condenado a cair enquanto não houver reservas suficientes e um plano fiscal coerente.
— Federico Vaccarezza, economista argentino
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