Os problemas de Cuba vão além do embargo americano

População cubana sofre com apagões diários de até 20 horas, crise energética profunda e pobreza generalizada causada por política econômica insustentável.
O embargo é real, mas não é a história toda
Cuba enfrenta crises que vão além das sanções americanas, refletindo décadas de escolhas econômicas insustentáveis.
Mark

Por que Díaz-Canel insiste tanto que o embargo é a causa principal?

Mimi

Porque é a narrativa que protege o regime. Se os problemas vêm de fora, ele não precisa responder por décadas de escolhas internas ruins.

Mark

Mas o embargo realmente não importa?

Mimi

Importa muito. Reduz oportunidades, corta fornecimentos, prejudica a população. O problema é que Cuba tinha problemas estruturais muito antes de Trump apertar o cerco.

Mark

O que mudou em 2021, quando começaram os apagões?

Mimi

Nada de novo no embargo naquele momento. O que mudou foi que a infraestrutura envelhecida não conseguia mais sustentar nem o pouco que havia. As usinas eram velhas, o sistema era ineficiente.

Mark

E a Venezuela? Isso não é um golpe real?

Mimi

É absolutamente um golpe. Perder o petróleo venezuelano agravou tudo. Mas Cuba já estava em crise energética antes disso. A invasão piorou, não causou.

Mark

Então as reformas recentes podem funcionar?

Mimi

Talvez tragam algum alívio. Mas depois de décadas de economia estatizada, há desafios imensos. É como tentar reconstruir um edifício enquanto as pessoas ainda vivem dentro dele.

Mark

O que você acha que vai acontecer?

Mimi

Depende se o regime realmente se abre ou se usa essas reformas como fachada. A população está cansada. Não pode esperar indefinidamente.

  • A população cubana suporta apagões de até 20 horas diárias — uma crise energética que antecede a invasão americana à Venezuela e expõe o colapso de décadas de infraestrutura negligenciada.
  • Díaz-Canel usa o embargo como escudo retórico, mas o verdadeiro ponto de ruptura foi o fim dos subsídios soviéticos nos anos 1990, que revelou a inviabilidade estrutural do modelo econômico cubano.
  • A interrupção do fornecimento de petróleo venezuelano em 2025 agravou uma crise já severa, enquanto Trump ampliou o alcance das sanções, estreitando ainda mais as margens de manobra do regime.
  • Em resposta, Cuba aprovou em 2026 reformas radicais — incluindo a autorização de grandes empresas e bancos privados —, sinalizando um reconhecimento implícito de que o Estado não pode mais sustentar a economia sozinho.
  • O regime chega às reformas tarde e fragilizado, enfrentando desconfiança acumulada e uma população exausta que pagou o preço de décadas de política econômica insustentável.

Numa entrevista exclusiva à Folha, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel atribuiu ao embargo americano a responsabilidade quase total pela pobreza e pelo colapso econômico de Cuba — uma explicação que, embora não seja falsa, encobre décadas de escolhas políticas domésticas e de uma estrutura econômica que nunca foi autossustentável. O colapso soviético nos anos 1990, a dependência energética da Venezuela e usinas em ruínas compõem um quadro de fragilidade que nenhuma sanção externa, por si só, poderia ter criado. Cuba enfrenta agora o desafio de reformar, tardiamente, um modelo que a própria história já havia condenado.

Miguel Díaz-Canel concedeu uma entrevista exclusiva à Folha na qual atribuiu ao embargo americano a causa central da pobreza e do colapso econômico cubano. A explicação contém alguma verdade — o embargo é uma ferramenta de coerção que funciona como escudo retórico conveniente —, mas mascara uma história muito mais complexa.

O que realmente abalou Cuba foi o colapso da União Soviética no início dos anos 1990. A economia da ilha havia sido erguida sobre uma dependência profunda dos subsídios soviéticos, e quando esse suporte desapareceu, o modelo inteiro ruiu. Isso não foi obra de Washington, mas a exposição de um sistema que nunca foi viável por conta própria. Mais recentemente, a invasão americana à Venezuela em 2025 interrompeu o fornecimento de petróleo que mantinha Cuba funcionando, aprofundando uma crise energética já severa — com cortes de energia de até vinte horas por dia registrados desde 2024, muito antes desse novo golpe.

Díaz-Canel aponta para esses eventos como prova de seu argumento. Mas as usinas cubanas são obsoletas, a infraestrutura se deteriora há décadas e a falta crônica de combustível é anterior às sanções mais recentes. Uma restrição externa limita oportunidades, mas não determina como os recursos disponíveis são geridos — e as escolhas políticas domésticas importam profundamente.

Em junho de 2026, Cuba aprovou reformas radicais: autorização para grandes empresas privadas e bancos privados operarem. A medida sugere que o regime reconhece, ao menos implicitamente, que o modelo estatizado falhou. Mas o reconhecimento chega tarde, num país exausto, onde as estruturas que governam a vida cotidiana foram construídas sobre premissas que nunca funcionaram. O embargo é real e prejudicial — mas não é a história toda.

Miguel Díaz-Canel concedeu uma entrevista exclusiva à Folha que, paradoxalmente, revela muito mais do que ele provavelmente pretendia. O líder cubano atribui a pobreza visível e o colapso econômico da ilha quase inteiramente ao embargo comercial americano — uma explicação que, embora contenha verdade, mascara uma história muito mais complexa sobre como Cuba chegou aonde está.

O embargo merece crítica legítima. É uma ferramenta de coerção que não combina com diplomacia genuína, e funciona perfeitamente como escudo retórico para um regime que prefere culpar Washington a examinar suas próprias escolhas. Mas reduzir os problemas de Cuba apenas às sanções americanas é ignorar décadas de decisões econômicas que criaram uma estrutura fundamentalmente frágil e insustentável.

Quando o embargo começou, era basicamente uma questão bilateral entre Estados Unidos e Cuba. Depois de 1990, as restrições se expandiram para incluir transações envolvendo terceiros países. Ainda assim, nunca significou isolamento total — diversos países mantiveram relações comerciais e econômicas com a ilha. O que realmente quebrou Cuba foi o colapso da União Soviética no início dos anos 1990. A economia cubana havia sido construída sobre uma dependência profunda dos subsídios soviéticos, e quando aquele suporte desapareceu, o modelo inteiro entrou em colapso. Isso não foi culpa de Washington. Foi a exposição de um sistema econômico que nunca foi viável por conta própria.

Mais recentemente, a situação piorou dramaticamente. Em 2025, Donald Trump invadiu a Venezuela, o principal fornecedor de petróleo para Cuba. Esse golpe interrompeu o fluxo de combustível que mantinha a ilha funcionando, aprofundando uma crise energética que já era severa. Este ano, Trump ampliou ainda mais o alcance do embargo. Díaz-Canel aponta para isso como prova de seu argumento: "Sem o embargo, teríamos combustível e não teríamos apagões." Mas a realidade é que Cuba convive com apagões desde 2021 — muito antes da invasão da Venezuela. Em 2024, o país sofreu cortes de energia de até vinte horas por dia. As usinas são obsoletas, a infraestrutura se deteriora, e há falta crônica de combustível.

A interrupção do fornecimento venezuelano claramente piorou as coisas. Uma sanção externa reduz as oportunidades disponíveis para uma economia. Mas não determina como os recursos que existem serão utilizados. Instituições econômicas e escolhas políticas domésticas importam profundamente. Durante a crise dos anos 1990 e novamente em 2021, reformas que liberalizaram parcialmente a economia trouxeram algum alívio. Em junho deste ano, Cuba aprovou um pacote de mudanças radicais para seus padrões — autorização para grandes empresas privadas e bancos privados operarem. Essas medidas sugerem que o regime reconhece, pelo menos implicitamente, que o modelo estatizado não funciona.

Mas aqui está o problema real: após décadas de economia completamente estatizada e de infrações sistemáticas de direitos políticos, as incertezas são enormes. Um regime que produziu miséria generalizada e que claramente não tem mais razão de existir agora tenta reformas que chegam tarde demais e enfrentam desafios imensos. A população cubana continua sofrendo — não apenas por causa do embargo, mas porque as estruturas que governam sua vida foram construídas sobre premissas que nunca funcionaram. O embargo é real e prejudicial. Mas não é a história toda.

Sem o embargo, teríamos combustível e não teríamos apagões
— Miguel Díaz-Canel
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