Há lugares que deixam de existir como edifícios mas persistem como arquitetura interior. Uma escritora regressa à sua escola primária e descobre que o que permanece não são as paredes, mas as pessoas — uma funcionária de amor silencioso, uma professora de exigência formadora, uma colega de infância a quem nunca pediu desculpa. É uma meditação sobre o que a escola realmente nos dá: não apenas conhecimento, mas a forma que tomamos como seres humanos.
Os pés húmidos: uma reflexão sobre a escola e os que nos moldaram
Nunca saímos da escola, mesmo quando a escola já não é ali
O que a levou a revisitar a escola primária depois de tantos anos?
Estava a passar pela zona e o táxi subiu a rampa. Não era planeado, mas quando vi o portão, toda a memória voltou — os pés húmidos, as galochas vermelhas, as pessoas.
Mas a escola já não era a mesma, certo? Havia estruturas novas.
Sim, havia casas de madeira pré-fabricada. O lugar físico mudou, mas a memória permanecia intacta.
Há um arrependimento muito forte em relação à Deolinda. Porque é que isso a marca tanto agora?
Porque éramos crianças, e ninguém nos ensinou a lidar com o que era diferente. Quando alguém gritou que ela tinha piolhos, eu chorei de medo de ficar ao lado dela. Isso fica.
Mas você estava com cinco anos. Não é justo carregar isso como culpa pessoal.
Talvez não. Mas é a forma como não somos educados para o que nos destoa que nos deixa com arrependimento. Se pudesse, voltava àquele momento.
E a D. Graziela? Parece que foi muito importante.
Era uma mulher que se ocupava de nós com um amor só comparável ao que dedicamos aos nossos filhos. Fazíamos piqueniques na praia, ela nos defendia. Quando voltei, a casa dela estava coberta de vegetação selvagem.
Você sabe o que aconteceu a ela? Onde foi?
Não. Só sei que há muito que não morava ali. A D. Graziela desapareceu da minha vida como desapareceu daquele lugar.
E a professora Conceição?
A exigência dela é que fez de mim melhor. Visitei-a muitas vezes já crescida, grata. Um dia foi a D. Graziela quem me deu a notícia da sua morte.
O Pulso
- A escola primária já não é o mesmo edifício, mas o regresso a esse lugar desperta memórias tão vívidas que o passado parece mais real do que o presente.
- A lembrança da pequena Deolinda — pobre, doente, rejeitada — carrega décadas de arrependimento por uma crueldade infantil que ninguém ensinou a evitar.
- A D. Graziela, funcionária da escola, amava as crianças com uma entrega que ultrapassava qualquer obrigação, e a casa onde viveu está agora coberta de vegetação, como se o tempo tivesse apagado o que ela representou.
- A professora Conceição moldou vidas através da exigência e da austeridade, e a notícia da sua morte chegou precisamente pela voz da D. Graziela — dois mundos da infância a tocarem-se pela última vez.
- Galochas vermelhas, uma caneca laranja, luz fraca e giz no quadro: a infância cabe em poucos objetos, mas esses objetos carregam o peso de tudo o que nos tornámos.
Há lugares que deixam de existir como edifícios mas persistem como arquitetura interior. Uma escritora regressa à sua escola primária e descobre que o que permanece não são as paredes, mas as pessoas — uma funcionária de amor silencioso, uma professora de exigência formadora, uma colega de infância a quem nunca pediu desculpa. É uma meditação sobre o que a escola realmente nos dá: não apenas conhecimento, mas a forma que tomamos como seres humanos.
Há coisas que não saem de nós, mesmo quando os lugares onde aconteceram desaparecem. A autora voltou à sua escola primária anos depois e encontrou um edifício transformado — estruturas novas, espaços diferentes — mas a memória permanecia intacta, ainda molhada dos dias de chuva da infância.
No primeiro dia de aula, aos cinco anos, foi colocada ao lado de uma rapariga chamada Deolinda, que vinha de uma família muito pobre e tinha piolhos. Quando alguém o gritou na sala, a autora implorou para não ficar ao lado dela. Décadas depois, essa lembrança traz arrependimento — a consciência de que não fomos educados para lidar com o que é diferente, e de que essa falha deixa marcas que carregamos.
Mas havia presenças que marcaram de outro modo. A D. Graziela era funcionária da escola, vivia numa casa junto ao portão, e ocupava-se das crianças com um amor que a autora compara ao que se dedica aos filhos próprios. Organizavam piqueniques na praia mesmo com areia molhada e nevoeiro. Quando a autora voltou, a casa estava coberta de vegetação selvagem — a D. Graziela há muito que não morava ali.
E estava a professora Conceição: alta, esguia, óculos grandes, voz às vezes trémula, uma exigência que moldou quem a autora se tornou. Visitou-a muitas vezes já adulta, grata por tudo. Foi a D. Graziela quem lhe deu a notícia da sua morte.
A infância cabe em poucos objetos: as galochas vermelhas dos dias de chuva, a caneca laranja do lanche, a luz elétrica fraca, o giz estridente no quadro. Quase sempre chegava a casa doente. Foram tantas as vezes que um dia teve de abandonar as galochas.
No regresso àquela escola que já não existe como era, a autora reconhece que ainda há espaço para todas essas pessoas — para a Deolinda e a sua voz roufenha, para a D. Graziela e o seu amor sem medida, para a professora Conceição e a sua exigência formadora. A escola já não é aquele edifício, mas continua viva em quem fomos feitos por ela.
Há coisas que não saem de nós, mesmo quando os lugares onde aconteceram desaparecem. A autora voltou à sua escola primária anos depois — o edifício já não era o mesmo, havia estruturas novas de madeira pré-fabricada, o espaço se transformara — mas a memória permanecia intacta, molhada ainda dos dias de chuva da infância.
No primeiro dia de aula, aos cinco anos, agarrada à saia da mãe e chorando como se fosse para o fim do mundo, foi colocada ao lado de uma rapariga chamada Deolinda. Deolinda vinha de uma família muito pobre, tinha problemas de saúde graves, a voz roufenha e o cabelo áspero — e tinha piolhos. Quando alguém gritou isso na sala, a autora chorou ainda mais, implorando para não ficar ao lado dela. Décadas depois, essa lembrança traz arrependimento. A forma como não somos educados para lidar com o que nos destoa, com o que é diferente, deixa marcas que carregamos. A autora reconhece que teria voltado àquele momento para repor justiça naquela carteira de escola, se pudesse.
Mas havia outras presenças que marcaram profundamente. A D. Graziela era empregada da escola, vivia muito perto, numa casa junto ao portão. Mulher de rosto hidratado, sempre a cheirar a limpo, cabelo grisalho cortado curto como o de Elis Regina, vivia com a mãe. Ninguém sabia muito sobre aquela senhora solteira, mas ela ocupava-se das crianças com um amor que a autora descreve como comparável ao que se dedica aos filhos próprios. Faziam piqueniques na praia mesmo quando a areia estava molhada e o nevoeiro impedia ver o cabelo dela. A D. Graziela defendia essas saídas com convicção, e a autora ainda se lembra do seu riso, do cheiro da sua pele, da forma como as protegia. Quando voltou à escola, viu a casa onde ela viveu agora coberta de vegetação selvagem. A D. Graziela há muito que não morava ali.
E estava a professora Conceição. Alta, esguia, óculos grandes que lhe emolduravam o rosto, voz às vezes trémula, uma austeridade que nada tinha de inconsistente. Foi a exigência dela que fez a autora melhor. Visitou-a muitas vezes já na idade adulta, grata por tudo o que lhe havia ensinado e pela forma como o havia feito. Um dia foi a D. Graziela quem lhe deu a notícia da morte da professora Conceição.
A infância da autora cabe em poucos objetos: as galochas vermelhas que usava quando chegava à escola nos dias de chuva, deixando os pés húmidos durante toda a tarde, e a caneca laranja que trazia de casa, onde lhe serviam leite para acompanhar o lanche. Tão poucos objetos. Tão recorrentemente presentes. Lembra-se da luz elétrica fraca, do giz estridente no quadro, dos dias tristes da chuva. Quase sempre chegava a casa doente, e a mãe via-lhe a febre, ouvindo-a dizer ao pai: "A miúda está outra vez doente." Foram tantas as vezes que um dia teve de abandonar as galochas vermelhas.
No passeio até à escola que já não existe, a autora reconhece que ainda há espaço para todas essas pessoas — para a Deolinda e a sua voz roufenha, para a D. Graziela e o seu amor sem medida, para a professora Conceição e a sua exigência que moldou vidas. Admira e é grata aos professores e funcionários que dão muito mais do que o seu horário à escola, aos miúdos. Muitos deles sabem que depende deles o molde humano que sairá dali. A escola já não é aquele edifício, mas continua viva em quem fomos feitos por ela. Nunca saímos da escola, mesmo quando a escola já não é ali.
Citações Notáveis
A forma como não somos educados para o que destoa, vai levar a que muitas vezes olhemos para trás com arrependimento— Reflexão da autora sobre a educação para a diferença
Ainda hoje admiro e sou grata aos professores que dão muito mais do que o seu horário à escola, aos miúdos. Muitos sabem que depende deles o molde humano que sairá dali— Convicção central da autora