Em diferentes latitudes do Ocidente, a direita tradicional cede terreno a lideranças populistas que desafiam as estruturas democráticas construídas no pós-guerra. No Brasil, a frase de um dirigente partidário — 'Bolsonaro tem os votos' — condensa uma dependência que se repete na Europa e na América Latina: partidos convencionais reféns de suas alas mais radicais. O momento coloca a democracia representativa diante de uma encruzilhada que não é apenas eleitoral, mas civilizatória.
Os caminhos da extrema direita: quando populistas desafiam a democracia
A direita tradicional tornou-se dependente da musculatura eleitoral de sua ala mais radical
Por que a direita tradicional perdeu tanta força para esses populistas? Não era ela que tinha toda a estrutura?
Tinha, mas a estrutura não bastava. A direita tradicional estava presa às regras, aos compromissos institucionais. Os populistas ofereciam algo diferente: a promessa de quebrar o jogo, de ignorar as limitações que frustram eleitores.
E isso funciona eleitoralmente?
Funciona. Bolsonaro concentra votos que a direita tradicional depende para vencer. Trump tomou o Partido Republicano. Não é coincidência que isso aconteça simultaneamente em tantos países.
Qual é o risco real aqui? Que eles ganhem eleições?
Não apenas isso. É que, uma vez no poder, eles podem escolher destruir as próprias regras que os levaram lá. Bolsonaro tentou um golpe. Trump está testando os limites das instituições americanas.
Mas nem todos fazem isso, certo?
Certo. Alguns podem se adaptar, abandonar as promessas radicais e governar como direitistas convencionais. O problema é que não sabemos qual caminho cada um vai tomar até estar no poder.
E se escolherem destruir a democracia?
Então a incerteza que deveria caracterizar uma democracia saudável—aquela em que ninguém sabe o resultado de antemão—vira incerteza sobre se a democracia vai sobreviver.
The Pulse
- A direita tradicional perdeu autonomia: sem o apelo eleitoral de líderes populistas como Bolsonaro e Trump, ela não consegue competir sozinha.
- O avanço é global e acelerado — extrema direita governa a Itália, integra coalizões em ao menos quatro países europeus e venceu eleições recentes no Equador, Peru e Colômbia.
- A incerteza que os populismos extremistas introduzem é diferente da incerteza saudável da democracia: não se sabe se as próprias regras do jogo sobreviverão.
- Dois caminhos se abrem aos líderes eleitos: solapar as instituições — como Bolsonaro tentou e Trump parece tentar — ou adaptar-se a elas, trocando radicalismo por política conservadora convencional.
- Uruguai e Brasil permanecem como raras exceções latino-americanas com democracias representativas plenas, mas a pressão sobre esse equilíbrio é crescente.
Em diferentes latitudes do Ocidente, a direita tradicional cede terreno a lideranças populistas que desafiam as estruturas democráticas construídas no pós-guerra. No Brasil, a frase de um dirigente partidário — 'Bolsonaro tem os votos' — condensa uma dependência que se repete na Europa e na América Latina: partidos convencionais reféns de suas alas mais radicais. O momento coloca a democracia representativa diante de uma encruzilhada que não é apenas eleitoral, mas civilizatória.
Valdemar Costa Neto, presidente do PL, sintetizou uma transformação profunda com quatro palavras: 'Bolsonaro tem os votos.' A frase, dita ao comentar o apoio do ex-presidente — em prisão domiciliar — à candidatura do filho, revela algo maior do que uma disputa familiar: a direita tradicional tornou-se dependente da musculatura eleitoral de sua ala mais radical.
Esse deslocamento não é exclusivamente brasileiro. Sérgio Fausto, da Fundação Fernando Henrique Cardoso, observou que a extrema direita avança por todo o Ocidente. Nos Estados Unidos, populistas tomaram o Partido Republicano e chegaram à Casa Branca com Trump. Na Europa, a extrema direita governa a Itália e integra coalizões na Finlândia, Croácia e Eslováquia; em outros sete países tornou-se a segunda força política. Na América Latina, populistas de direita venceram no Equador, Peru e Colômbia, somando-se a vitórias anteriores no Chile, Bolívia e Argentina. Apenas Uruguai e Brasil — além de Guiana e Suriname — mantêm governos plenamente comprometidos com a democracia representativa.
Seria erro, porém, ler esse ciclo como simples alternância eleitoral. A questão decisiva é de que tipo de opositor se trata. Em democracias saudáveis, as instituições garantem que a disputa não seja um jogo marcado — e dessa incerteza genuína emerge a legitimidade do sistema. Quando populistas extremados chegam ao poder, o que se torna incerto não é apenas quem governará, mas se as próprias regras permanecerão de pé.
Uma vez eleitos, esses líderes enfrentam uma encruzilhada. Alguns escolhem manipular as regras: Bolsonaro tentou um golpe após a derrota e fracassou; Trump parece trilhar caminho semelhante. Mas existe outra saída: adaptar-se às instituições, abandonar as promessas mais radicais e governar dentro dos limites do liberalismo representativo — de forma regressiva, talvez, mas sem destruir o regime. O que acontecerá dependerá das escolhas que cada um desses líderes fizer quando o poder estiver, de fato, em suas mãos.
Valdemar Costa Neto, presidente do PL, resumiu em poucas palavras uma transformação profunda na política brasileira e mundial. "Bolsonaro tem os votos", disse ao comentar a carta do ex-presidente em prisão domiciliar apoiando a candidatura de seu filho. A frase é simples, mas carrega um peso: a direita tradicional, aquela acostumada aos rituais da democracia, tornou-se dependente da musculatura eleitoral de sua ala mais radical e populista.
Esse deslocamento do centro de gravidade não é fenômeno exclusivamente brasileiro. Sérgio Fausto, diretor-geral da Fundação Fernando Henrique Cardoso, observou em artigo recente que a extrema direita avança por todo o Ocidente, desafiando as estruturas que sustentaram a política democrática do pós-guerra. Nos Estados Unidos, lideranças populistas tomaram de assalto o Partido Republicano e chegaram ao poder com Donald Trump. Na Europa, a extrema direita governa a Itália e integra coalizões na Finlândia, Croácia e Eslováquia. Em sete países—Espanha, Portugal, Alemanha, França, Áustria, Bélgica e Suécia—transformou-se na segunda força política.
Na América Latina, o padrão se repete. Populistas de direita venceram eleições no Equador, Peru e Colômbia neste ano, somando-se a vitórias anteriores no Chile, Bolívia e Argentina. A Venezuela permanece sob controle do establishment chavista, uma variante de esquerda do mesmo fenômeno populista. Apenas Uruguai e Brasil, além de Guiana e Suriname, continuam sob governos plenamente comprometidos com os valores e regras da democracia representativa.
Mas seria erro interpretar esse ciclo como simples alternância entre esquerda e direita, frustrados eleitores desalojando incumbentes. A questão crucial é de que tipo de opositor se trata. A ascensão dos populismos extremistas inaugura uma incerteza radicalmente diferente daquela que caracteriza os sistemas democráticos saudáveis. Nesses sistemas, as instituições garantem que a disputa eleitoral não seja um jogo marcado, cujo resultado já se conhece de antemão. Daí emerge a incerteza genuína. Mas quando populistas extremados chegam ao poder, o próprio futuro da democracia torna-se imponderável.
Líderes populistas, uma vez eleitos, enfrentam uma encruzilhada. Alguns escolhem manipular as regras do jogo, solapando gradualmente as instituições democráticas. Jair Bolsonaro seguiu esse caminho: derrotado nas urnas, tentou um golpe de Estado e fracassou. Donald Trump parece estar trilhando a mesma via. Mas existe outra possibilidade, nem sempre considerada: líderes de extrema direita podem se adaptar às instituições democráticas, abandonar suas promessas mais radicais no exercício do poder e optar por políticas de direita convencionais—regressivas talvez, mas compatíveis com o regime liberal representativo. O que acontecerá dependerá das escolhas que esses líderes fizerem quando o poder estiver em suas mãos.
Notable Quotes
Bolsonaro tem os votos— Valdemar Costa Neto, presidente do PL
A eleição de populistas extremados torna imponderável o futuro da própria democracia— Análise do texto, baseada em Sérgio Fausto