O futebol de elite não é apenas um esporte, mas uma encruzilhada de destinos
Quarenta anos após uma das partidas mais míticas da história do futebol, O Globo revisita os destinos dos vinte e dois homens que disputaram as quartas de final entre Argentina e Inglaterra na Copa de 1986. O que começou como um jogo — eternizado pelo gênio e pela transgressão de Maradona — desdobrou-se em vinte e duas histórias distintas de reinvenção, perda e continuidade. O esporte revelou-se apenas o ponto de partida de trajetórias que a vida conduziu para estúdios de televisão, salas de fisioterapia, campanhas de conscientização e, para alguns, para o silêncio definitivo.
- Quatro jogadores já não estão mais entre os vivos: Cuciuffo morreu por acidente de caça, Brown sucumbiu ao Alzheimer, Maradona partiu em 2020 e Sansom travou uma batalha pública e dolorosa contra o alcoolismo.
- A camisa usada por Maradona naquele jogo histórico tornou-se um artefato de valor incalculável — e seu dono, Steve Hodge, carrega esse peso como parte de sua identidade pública até hoje.
- Peter Beardsley, ídolo inglês daquela geração, viu sua reputação desmoronar em 2019 após ser suspenso por injúria racial enquanto treinava jovens no Newcastle United.
- Enquanto alguns, como Nery Pumpido e Jorge Valdano, ascenderam a posições de prestígio no futebol global, outros precisaram abandonar completamente o esporte para reconstruir suas vidas.
- A partida de 1986 permanece um espelho coletivo: o que ela revela sobre seus protagonistas, décadas depois, diz mais sobre a condição humana do que qualquer placar poderia expressar.
Quarenta anos depois, a tarde em Cidade do México em que Maradona marcou com a mão e conduziu a Argentina à vitória sobre a Inglaterra ainda ressoa — não apenas como memória esportiva, mas como ponto de partida de vinte e duas histórias humanas que o tempo tratou de forma muito desigual.
Do lado argentino, quatro jogadores já faleceram. José Cuciuffo morreu em 2004, vítima de um disparo acidental durante uma caçada. José Luis Brown sucumbiu ao Alzheimer em 2019. Maradona, o maior de todos, partiu em 2020 aos 60 anos. Os sobreviventes seguiram rumos distintos: Nery Pumpido chegou à cúpula da CONMEBOL; Oscar Ruggeri tornou-se rosto da ESPN Argentina; Jorge Valdano consolidou-se como um dos comentaristas mais respeitados do mundo, além de escritor. Sergio Batista treinou a seleção argentina e depois equipes no Oriente Médio.
Do lado inglês, a trajetória foi igualmente variada. Peter Shilton migrou para palestras e comentários. Gary Stevens deixou o futebol para trás e se formou em Fisioterapia na Austrália. Glenn Hoddle tornou-se um dos analistas mais respeitados da Inglaterra. Terry Butcher e Peter Reid passaram pelo banco antes de chegarem aos estúdios.
Mas há histórias mais pesadas. Kenny Sansom enfrentou o alcoolismo e transformou essa luta em missão, tornando-se palestrante em campanhas de conscientização. Steve Hodge carrega consigo, literalmente, a camisa que Maradona vestiu naquele jogo — um artefato que define parte de sua vida pública. E Peter Beardsley viu sua reputação desmoronar em 2019, quando foi suspenso por sete meses após ser considerado culpado de injúria racial contra jogadores do Newcastle United sub-23.
O que esse levantamento revela é que o futebol de elite é uma encruzilhada, não um destino. Alguns encontraram continuidade natural no esporte. Outros precisaram reinventar-se completamente. E alguns simplesmente não estão mais aqui para contar o que veio depois daquela tarde histórica no México.
Quarenta anos depois, a partida entre Inglaterra e Argentina nas quartas de final da Copa de 1986 segue viva na memória do futebol mundial — não apenas pelo que aconteceu em campo, mas pelo que se tornou de cada um dos vinte e dois homens que estiveram ali. Naquela tarde em Cidade do México, Diego Maradona marcou duas vezes, a primeira com a mão, um lance que entraria para a história como a "Mão de Deus". A Argentina venceu 2 a 1 e seguiu para a final. Mas o que importa agora é rastrear onde a vida levou esses atletas — alguns para as telas de televisão, outros para salas de aula, alguns para túmulos.
Da seleção argentina que saiu do campo naquele dia, quatro jogadores já se foram. José Cuciuffo morreu em 2004, aos 43 anos, atingido por um disparo acidental durante uma caçada. José Luis Brown resistiu mais tempo, mas sucumbiu ao Mal de Alzheimer em 2019, aos 62 anos. Maradona, o maior ídolo do futebol argentino, faleceu em 2020 aos 60 anos. Os que ficaram trilharam caminhos diversos. Nery Pumpido, o goleiro, ascendeu na estrutura do futebol sul-americano e agora é Secretário-Geral Adjunto e Diretor de Desenvolvimento do Futebol da CONMEBOL. Oscar Ruggeri virou rosto conhecido da ESPN Argentina. Jorge Valdano transformou-se em um dos comentaristas mais respeitados do mundo, além de escritor e colunista. Sergio Batista seguiu como treinador, comandando a seleção argentina e depois equipes no Oriente Médio. Outros encontraram seus nichos: Julio Olarticoechea em palestras e formação de jovens; Jorge Burruchaga na direção esportiva e depois na análise; Héctor Enrique como auxiliar técnico e comentarista.
Do lado inglês, a trajetória foi igualmente variada, mas marcada por suas próprias perdas. Peter Shilton, considerado um dos maiores goleiros da história inglesa, agora fala em palestras e comenta jogos. Gary Stevens mudou-se para a Austrália e se formou em Fisioterapia, deixando o futebol para trás. Terry Fenwick levou seu conhecimento para treinar no Caribe e na Ásia. Terry Butcher e Peter Reid também abraçaram a carreira de treinador antes de migrarem para os estúdios de transmissão. Glenn Hoddle consolidou-se como um dos analistas mais respeitados da Inglaterra.
Mas há histórias mais pesadas aqui. Kenny Sansom enfrentou o alcoolismo após encerrar a carreira e transformou essa luta em propósito, tornando-se palestrante em campanhas de conscientização. Steve Hodge ganhou uma notoriedade inesperada: é o proprietário da camisa que Maradona usou naquele jogo histórico, um artefato que o acompanha até hoje enquanto trabalha como palestrante. Peter Beardsley, por sua vez, viu sua reputação abalada em 2019, quando foi suspenso do futebol por sete meses após ser considerado culpado de injúria racial contra jogadores negros enquanto treinava a equipe sub-23 do Newcastle United.
O que emerge desse levantamento é um retrato de como o futebol de elite não é apenas um esporte, mas uma encruzilhada de destinos. Alguns encontraram continuidade natural nas estruturas do jogo. Outros precisaram reinventar-se completamente. Alguns não conseguiram sair ilesos das batalhas pessoais que enfrentaram fora dos campos. E alguns simplesmente não estão mais aqui para contar suas histórias. A partida de 1986 permanece um marco, mas seus protagonistas seguiram caminhos que o futebol sozinho não consegue explicar.
Notable Quotes
Nery Pumpido ascendeu na estrutura do futebol sul-americano e agora é Secretário-Geral Adjunto e Diretor de Desenvolvimento do Futebol da CONMEBOL— Trajetória profissional de Nery Pumpido
Kenny Sansom enfrentou o alcoolismo após encerrar a carreira e transformou essa luta em propósito, tornando-se palestrante em campanhas de conscientização— Trajetória pessoal de Kenny Sansom
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que uma partida de quarenta anos atrás ainda importa o suficiente para rastrear onde cada jogador está agora?
Porque aquele jogo não foi apenas um resultado. Foi um momento que definiu gerações inteiras — a "Mão de Deus" virou símbolo de uma nação. Quando você acompanha esses homens depois, está vendo como o futebol de elite realmente molda uma vida.
Você notou que vários jogadores argentinos morreram, enquanto a maioria dos ingleses ainda está viva?
Sim, e é perturbador. Maradona, Brown, Cuciuffo — três dos onze. Não é coincidência que Maradona tenha tido uma trajetória tão turbulenta depois do futebol. O peso de ser um ídolo nacional, de carregar uma nação nas costas, deixa marcas.
E quanto aos que viraram comentaristas? Parece que muitos encontraram um lugar confortável na televisão.
É verdade, mas confortável é relativo. Alguns, como Valdano, realmente transcenderam o futebol e se tornaram intelectuais do jogo. Outros estão ali porque é o que sabem fazer. Há uma diferença entre escolher a análise e cair nela por falta de alternativa.
A história de Peter Beardsley é a mais perturbadora, não é?
Sim. Aqui está um homem que jogou em um dos maiores momentos da história inglesa, e décadas depois sua carreira como treinador termina em desgraça por injúria racial. Mostra que o futebol não redime ninguém automaticamente.
E Steve Hodge com a camisa de Maradona — isso é irônico ou apenas estranho?
É ambos. Ele virou guardião de um artefato que representa o momento em que foi humilhado. Agora faz palestras carregando essa história. Há algo quase poético nisso, mas também há algo de melancólico.