Onda de calor europeia é a mais severa de todos os tempos, diz estudo

Serviços de saúde saturados em várias cidades; mortes registadas em Itália e Espanha; risco elevado para crianças, idosos e pessoas com comorbidades devido à impossibilidade de recuperação corporal.
Precisamos mudar o ritmo de nossas vidas
O autarca de Paris reconhece que adaptar a infraestrutura europeia ao calor extremo exige transformação fundamental, não apenas investimento.
Mark

Como é que os cientistas conseguem afirmar com tanta certeza que isto é causado pela mudança climática e não apenas uma variação natural?

Mimi

O estudo comparou o planeta actual, com 1,4°C de aquecimento, com o que teria sido há 50 anos. Um evento como este seria 3,5°C mais frio nessa altura. Afastaram também a possibilidade de ser o El Niño. Os números falam por si — 500 vezes mais provável.

Mark

Mas há 23 anos houve também ondas de calor graves, certo? Em 2003 morreram dezenas de milhares de pessoas.

Mimi

Verdade. Mas nessa altura, as noites tropicais como as desta semana seriam 100 vezes menos prováveis. O planeta era mais frio. E desde 2003, investiram-se recursos em sistemas de alerta e preparação. Salvaram vidas. Mas agora a frequência e intensidade mudaram de escala.

Mark

Então o problema não é apenas o calor, mas o facto de as pessoas não conseguirem recuperar à noite?

Mimi

Exactamente. Quando a temperatura nocturna não baixa, o corpo não arrefece. Não há recuperação. O cansaço acumula-se, as doenças relacionadas com o calor multiplicam-se. É especialmente perigoso para quem já é vulnerável — crianças, idosos, doentes crónicos.

Mark

E a solução? Ar condicionado em todo o lado?

Mimi

Seria parte da resposta, mas apenas 20% dos edifícios europeus têm ar condicionado. Reformar tudo levaria anos, mesmo com dinheiro e mão-de-obra. O autarca de Paris disse algo importante: precisamos mudar o ritmo de nossas vidas. Não é apenas uma questão técnica.

Mark

Isso soa a admissão de derrota.

Mimi

Não. É realismo. Temos as soluções — energias renováveis, adaptação urbana, sistemas de alerta. O problema é que não as estamos a implementar com a velocidade necessária. E enquanto isso, o planeta continua a aquecer.

  • Onda de calor 500 vezes mais provável que há 50 anos; seria impossível sem mudança climática
  • Apenas 20% dos edifícios europeus têm ar condicionado; 5% no Reino Unido
  • França registou terceiro dia consecutivo como o mais quente da história; duas estações nucleares desligadas
  • 45% de 854 cidades analisadas em 30 países europeus bateram marcas históricas de stress térmico
  • Serviço de ambulâncias de Londres recebeu 642 chamadas na quinta-feira; mortes em Itália e Espanha

A onda de calor atual seria impossível há 50 anos; mudança climática tornou eventos deste tipo 500 vezes mais prováveis em qualquer época do ano. Apenas 20% dos edifícios europeus têm ar condicionado; infraestruturas foram projetadas para clima mais frio, especialmente no noroeste do continente.

Estudo do Imperial College confirma que a atual onda de calor na Europa é impossível sem mudança climática, tornando eventos similares 500 vezes mais prováveis que há 50 anos.

A Europa está a viver a onda de calor mais intensa e abrangente de que há registo. Um estudo publicado esta sexta-feira pelo World Weather Attribution, consórcio de cientistas liderados pelo Imperial College de Londres, deixa isso claro: o que está a acontecer esta semana seria virtualmente impossível sem as mudanças climáticas. Há 50 anos, um evento deste tipo não teria ocorrido em junho. Hoje, a probabilidade de temperaturas máximas como as registadas agora ocorrerem durante três dias seguidos aumentou mais de 500 vezes.

Os números revelam a escala da transformação climática. O planeta aqueceu 1,1°C nos últimos cinco décadas. As noites tropicais — quando os termómetros não descem abaixo dos 20°C — tornaram-se quase rotina no Reino Unido, Espanha e França, e agora alastram-se pela Alemanha, Áustria e Itália. Estas noites impedem que o solo arrefeça, projectando um dia ainda mais quente na manhã seguinte. Na quinta-feira, a França registou pelo terceiro dia consecutivo o seu dia mais quente da história, e a noite francesa foi igualmente a mais quente já medida. O impacto foi tão severo que duas estações nucleares francesas foram desligadas porque a água dos rios, usada para refrigerar os reatores, aqueceu demasiado.

O stress térmico que o corpo humano enfrenta é grave. Quando a temperatura nocturna não baixa, o organismo não consegue recuperar do esforço de um dia inteiro a lutar contra o calor. Isto provoca fadiga e doenças relacionadas com o calor, especialmente perigosas para crianças, idosos e pessoas com comorbidades. Em Londres, o serviço de ambulâncias recebeu 642 chamadas na quinta-feira — um recorde. Em Paris, as autoridades proibiram a venda de bebidas alcoólicas durante os períodos mais quentes do dia e à noite, uma medida preventiva face aos serviços de saúde saturados. Morreram pessoas em Itália e Espanha.

O problema é estrutural. Apenas 20% dos edifícios europeus têm ar condicionado. No Reino Unido, a percentagem desce para perto de 5%. Escolas, residências, sistemas de transporte e infraestruturas essenciais foram projectados para um clima mais frio, especialmente no noroeste do continente. O autarca de Paris, Emmanuel Grégoire, ilustrou a dimensão do desafio: das 600 escolas da cidade, apenas 200 estão adaptadas ao calor. Mesmo que houvesse financiamento para reformar todas, não existiriam prestadores de serviço suficientes para completar o trabalho em poucos anos. A adaptação exige, nas suas palavras, uma mudança fundamental no ritmo de vida.

O fenómeno é amplificado pela combinação de calor intenso e humidade. O corpo humano arrefece através da evaporação do suor, mas quando a humidade é elevada, este mecanismo perde eficácia. O estudo do World Weather Attribution analisou 854 cidades em 30 países europeus e descobriu que 45% delas já bateram ou estão prestes a bater marcas históricas no Índice de Bulbo Úmido Termómetro de Globo, uma medida do stress térmico.

Esta situação difere significativamente de 2003, quando uma onda de calor matou mais de 70 mil pessoas no continente, maioritariamente idosos. Desde então, muitos países investiram em sistemas de alerta precoce e planos de acção. Estes esforços salvaram muitas vidas nas últimas décadas, e a consciencialização pública cresceu. Mas, como sublinham os investigadores, isto não é suficiente. A mudança climática tornou estes eventos muito mais prováveis, e a infraestrutura europeia não está preparada para a nova realidade.

Os cientistas são claros sobre as causas. A responsabilidade pela crise climática reside sobretudo na queima de carvão, petróleo e gás — o que o chefe de clima da ONU, Simon Stiell, descreve como um "vício mundial" pela energia suja, mais cara do que as alternativas renováveis. Friederike Otto, professora de Ciência do Clima do Imperial College, resume a situação com precisão: "Sim, é a mudança climática; sim, a culpa é nossa; não, não é o El Niño. Sim, temos as soluções; não, não estamos a colocá-las em prática com a rapidez necessária." A questão, conclui, é realmente que tipo de futuro queremos.

Esta é a onda de calor mais intensa e abrangente que já atingiu essa ampla região da Europa
— Theodore Keeping, investigador associado do Imperial College
Sim, é a mudança climática; sim, a culpa é nossa; não, não é o El Niño. Sim, temos as soluções; não, não estamos a colocá-las em prática com a rapidez necessária
— Friederike Otto, professora de Ciência do Clima do Imperial College
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