OMS pede moratória sobre doses de reforço para vacinar países pobres

Milhões de pessoas em países pobres, especialmente africanos, permanecem desprotegidas contra covid-19 enquanto países ricos avançam com doses de reforço.
Necessitamos urgentemente de mudar as coisas para os países pobres
Tedros Adhanom Ghebreyesus apelava para uma reorientação radical da distribuição global de vacinas.
Mark

Por que é que a OMS pede especificamente uma moratória até setembro e não indefinidamente?

Mimi

Setembro era o prazo que Tedros tinha estabelecido para vacinar dez por cento de cada país. Era um objetivo simbólico mas concreto — dar tempo suficiente para reorientar a produção e começar a reduzir o fosso. Depois disso, talvez houvesse margem para doses de reforço. Mas naquele momento, em agosto, ainda havia bilhões de pessoas sem uma única injeção.

Mark

O Covax parecia ser a solução perfeita. Por que falhou?

Mimi

Porque a solução perfeita depende de vontade política e de abastecimento. O Covax foi bem desenhado, mas os países ricos não priorizaram o seu abastecimento. As empresas farmacêuticas vendiam para quem pagava mais. O mecanismo existia; o que faltava era poder para o fazer funcionar.

Mark

Tedros fala em "um punhado de países e empresas". Quem controla realmente a produção?

Mimi

Os grandes fabricantes — Pfizer, Moderna, AstraZeneca, Johnson & Johnson. E os países que tinham capacidade de negociação: Estados Unidos, Reino Unido, União Europeia. Eles compraram em massa, assinaram contratos exclusivos, deixaram o resto do mundo à espera.

Mark

Qual era o risco real de não vacinarem os países pobres?

Mimi

Variantes. Quanto mais pessoas não vacinadas, mais o vírus circulava e mutava. A Delta era já um exemplo. Um país pobre sem vacinação era um laboratório para novas variantes que depois voltavam para o mundo rico. Não era caridade; era epidemiologia.

Mark

Israel começou as terceiras doses enquanto isso. Que mensagem isso enviava?

Mimi

Que a segurança individual importava mais do que a segurança coletiva global. Israel tinha o direito de proteger os seus cidadãos, mas o timing — quando bilhões de pessoas ainda não tinham uma dose — era uma declaração de prioridades.

Mark

O apelo de Tedros teve efeito?

Mimi

Não o suficiente. Alguns países ouviram, mas a maioria dos países ricos continuou com os seus planos de reforço. A moratória nunca foi implementada globalmente. A inequidade persistiu.

  • A desigualdade vacinal atingiu proporções chocantes: apenas 1,5 em cada 100 pessoas foram vacinadas nos países mais pobres, enquanto nações ricas preparam já a terceira dose.
  • Israel começou a administrar reforços a maiores de 60 anos, e Alemanha e Espanha anunciam planos semelhantes, aprofundando o fosso entre o Norte e o Sul globais.
  • Tedros exige uma moratória imediata nas doses de reforço até setembro, pedindo que farmacêuticas e governos priorizem o mecanismo Covax para os 92 países mais pobres.
  • O Covax, criado precisamente para garantir equidade, falhou na sua missão central por falta de abastecimento, deixando dezenas de países africanos e asiáticos à espera da primeira dose.
  • O objetivo da OMS de vacinar 10% da população de todos os países até setembro torna-se cada vez mais improvável sem cooperação urgente dos países e empresas que controlam a produção global.

Num mundo onde quatro mil milhões de doses foram administradas mas oitenta por cento chegaram a menos de metade da humanidade, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, pediu esta semana uma pausa nas doses de reforço nos países ricos até ao final de setembro. O apelo, feito de Genebra, é um espelho da velha tensão entre o interesse nacional e a responsabilidade global: enquanto Israel, Alemanha e Espanha preparam terceiras doses, países inteiros mal vacinaram um por cento das suas populações. A pergunta que Tedros coloca ao mundo não é apenas logística — é moral.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, lançou esta quarta-feira um apelo direto aos países ricos: suspender as doses de reforço de vacinas contra a covid-19 pelo menos até ao final de setembro e redirecionar essas doses para as nações mais pobres. O contraste que justifica o pedido é difícil de ignorar — dos quatro mil milhões de doses administradas no mundo, oitenta por cento foram aplicadas em países de médios e altos rendimentos, que representam menos de metade da população global.

Enquanto Israel já começou a vacinar maiores de 60 anos com uma terceira dose da Pfizer/BioNTech para conter a variante Delta, e a Alemanha planeia fazer o mesmo a partir de setembro, países africanos e asiáticos lutam para garantir sequer uma primeira dose aos seus cidadãos. Nos países mais pobres, apenas 1,5 em cada 100 habitantes foram vacinados.

Tedros, médico etíope e voz recorrente sobre esta inequidade global, falou durante a conferência de imprensa semanal da OMS em Genebra. Pediu que os grupos farmacêuticos priorizem o Covax — o mecanismo de distribuição equitativa que serve 92 países pobres —, mas reconheceu que este programa tem falhado na sua missão por falta de doses disponíveis.

Em maio, o diretor-geral tinha lançado o desafio de vacinar dez por cento da população de todos os países até setembro. Esse objetivo, admitiu agora, está a tornar-se cada vez mais difícil de alcançar. Sem uma moratória nos reforços, sem cooperação das potências produtoras e sem o fortalecimento do Covax, o abismo continuará a alargar-se — e milhões de pessoas permanecerão desprotegidas enquanto o mundo desenvolvido avança para a terceira dose.

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, fez um apelo direto esta quarta-feira: os países ricos devem parar de administrar doses de reforço de vacinas contra a covid-19 e canalizar essas doses para as nações mais pobres. A moratória que propõe duraria pelo menos até ao final de setembro, tempo suficiente para reorientar a produção global e começar a fechar o abismo de imunização que separa o mundo rico do mundo pobre.

O contraste é brutal. Nos países de rendimentos altos, praticamente toda a gente recebeu pelo menos uma dose. Nos países pobres, apenas 1,5 pessoas em cada 100 foram vacinadas. Dos quatro mil milhões de doses administradas globalmente até essa data, oitenta por cento foram injetadas em nações de médios e altos rendimentos — países que representam menos de metade da população mundial. O resto do mundo, onde vivem bilhões de pessoas, fica à espera.

Tedros falava durante a videoconferência de imprensa semanal da OMS, transmitida de Genebra. O seu apelo era uma resposta direta a decisões tomadas por países europeus e Israel. Israel tinha começado recentemente a administrar uma terceira dose da vacina Pfizer/BioNTech a maiores de 60 anos, tentando conter a variante Delta. A Alemanha anunciou que faria o mesmo a partir de 1 de setembro, focando-se em idosos e populações vulneráveis. Espanha, sem datas definidas, também planeava avançar com terceiras doses das vacinas Pfizer/BioNTech e Moderna. Enquanto isso, dezenas de países africanos e asiáticos mal conseguiam vacinar os seus cidadãos com uma primeira dose.

O médico etíope tem sido uma voz consistente sobre esta inequidade. Repetidamente alertou que a distribuição desigual de vacinas prejudica sobretudo os países mais pobres, muitos deles em África. Agora, com países ricos a prepararem-se para doses de reforço, a urgência do seu apelo intensificou-se. "Necessitamos urgentemente de mudar as coisas", disse, pedindo que a maioria das vacinas disponíveis fosse para os países pobres, não para os ricos.

Parte da solução deveria passar pelo Covax, o mecanismo global de distribuição equitativa de vacinas que beneficia 92 países pobres. Tedros apelou aos grupos farmacêuticos para priorizarem este programa. Mas o Covax tem-se revelado um instrumento fraco. Cogerido pela OMS, não conseguiu cumprir a sua missão fundamental: distribuir vacinas de forma justa. Até à data, tinha apenas distribuído uma pequena fração das doses necessárias, limitado pela falta de abastecimento.

Em maio, Tedros tinha lançado um desafio ambicioso: vacinar dez por cento da população de todos os países do mundo até setembro. Esse objetivo, reconheceu, estava a tornar-se cada vez mais difícil de alcançar. Para o conseguir, disse, seria necessária a cooperação de todos, especialmente de um punhado de países e empresas que controlam a produção global de vacinas. Sem essa cooperação, sem a priorização do Covax, sem uma moratória nas doses de reforço nos países ricos, o abismo continuaria a alargar-se. Milhões de pessoas em países pobres permaneceriam desprotegidas enquanto o mundo desenvolvido avançava para a terceira dose.

Necessitamos urgentemente de mudar as coisas: de uma maioria de vacinas para os países ricos para uma maioria para os países pobres
— Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS
Para chegar lá precisamos da cooperação de todos, especialmente de um punhado de países e empresas que controlam a produção global de vacinas
— Tedros Adhanom Ghebreyesus
Fale Conosco FAQ