OMS expressa preocupação com avanço da varíola dos macacos em 71 países

Risco potencial de discriminação e estigmatização contra comunidades afetadas, particularmente homens que fazem sexo com homens em países onde enfrentam perseguição.
O medo da discriminação afasta as pessoas dos testes e do tratamento
Tedros Adhanom alertou que a estigmatização da comunidade afetada tornaria o surto ainda mais difícil de controlar.
Mark

Por que a OMS não declarou emergência internacional na primeira reunião, em junho, se o surto já tinha 6 mil casos?

Mimi

Porque naquele momento o surto ainda estava concentrado em um padrão específico — principalmente em homens que fazem sexo com homens — e havia esperança de que intervenções direcionadas pudessem contê-lo. A emergência internacional é um alerta máximo, reservado para situações que escapam ao controle.

Mark

Mas agora, com 14 mil casos em 71 países, a situação mudou?

Mimi

Mudou significativamente. O número de países aumentou de 58 para 71 em duas semanas, e seis nações relataram seus primeiros casos apenas na semana anterior. Isso sugere que o vírus está encontrando novos ambientes de transmissão.

Mark

O diretor-geral mencionou que a testagem é um desafio. O que isso significa na prática?

Mimi

Significa que os números oficiais provavelmente subestimam a realidade. Se muitos casos não estão sendo testados, o surto pode ser muito maior do que os 14 mil casos confirmados. É como tentar navegar no escuro.

Mark

Por que a concentração em homens que fazem sexo com homens é simultaneamente uma oportunidade e um desafio?

Mimi

É uma oportunidade porque você pode direcionar campanhas de saúde pública, testes e informações para comunidades específicas. Mas é um desafio porque em muitos países essas comunidades enfrentam discriminação severa, e o medo dessa discriminação afasta as pessoas dos testes e do tratamento.

Mark

Adhanom mencionou risco de estigmatização. Como isso piora a situação?

Mimi

Quando uma doença fica associada a um grupo específico, as pessoas desse grupo têm medo de procurar ajuda. Elas escondem sintomas, não se testam, continuam transmitindo. A estigmatização transforma um problema de saúde pública em um problema de controle de surto muito mais difícil.

Mark

Qual é a diferença entre as duas cepas do vírus?

Mimi

A cepa do Congo mata até 10% das pessoas infectadas. A cepa da África Ocidental mata cerca de 1%. O surto atual parece estar dominado pela cepa menos letal, o que é uma pequena graça, mas ainda assim preocupante em escala global.

  • Os números quase triplicaram em pouco mais de duas semanas desde a primeira reunião do comitê, sinalizando que o surto não dava sinais de desaceleração.
  • A testagem insuficiente cria uma zona de sombra epidemiológica: os 14 mil casos confirmados provavelmente subestimam a real dimensão do problema.
  • A concentração de casos entre homens que fazem sexo com homens abre caminho para intervenções direcionadas, mas o estigma pode afastar exatamente quem mais precisa de cuidado.
  • A OMS avalia se declara emergência de saúde pública de importância internacional — uma designação usada apenas seis vezes desde 2007 e que atualmente pertence apenas à covid-19 e ao poliovírus.
  • O mundo aguarda a decisão do comitê enquanto seis novos países relatam seus primeiros casos, expandindo a geografia de um vírus que raramente havia saído da África.

Em julho de 2022, a Organização Mundial da Saúde reuniu pela segunda vez seu comitê de emergência diante de um surto que havia quase triplicado em semanas: mais de 14 mil casos de varíola dos macacos em 71 países, com seis nações registrando suas primeiras ocorrências apenas na semana anterior. O diretor-geral Tedros Adhanom colocou em palavras a tensão que pairava sobre a reunião — o crescimento não cessava, a testagem permanecia insuficiente, e a concentração de casos em comunidades já vulneráveis à discriminação tornava a resposta ao surto tão delicada quanto urgente. A humanidade se via, mais uma vez, diante da pergunta que define os momentos de crise: o que constitui uma emergência suficientemente grave para exigir uma resposta global coordenada?

Na quinta-feira, 21 de julho de 2022, a OMS reuniu seu comitê de emergência pela segunda vez para avaliar o avanço da varíola dos macacos. O cenário era mais grave do que na primeira reunião, no final de junho: os casos haviam saltado de 6 mil em 58 países para mais de 14 mil em 71 nações, com seis países relatando suas primeiras ocorrências apenas na semana anterior. O diretor-geral Tedros Adhanom abriu os trabalhos expressando preocupação com o crescimento contínuo — e apontou que a testagem insuficiente tornava provável uma subnotificação significativa.

Na reunião anterior, o comitê havia decidido que o surto ainda não atingia o nível de emergência de saúde pública de importância internacional, a designação máxima da OMS. Agora, com os números quase triplicados, a reavaliação era inevitável. Adhanom destacou a importância de entender quais intervenções de saúde pública funcionavam em diferentes contextos — e reconheceu a complexidade do padrão epidemiológico: a maioria dos casos ocorria entre homens que fazem sexo com homens, o que permitia ações direcionadas, mas também criava o risco de estigmatização. Em países onde essas comunidades enfrentam perseguição, o medo da discriminação poderia afastar as pessoas dos serviços de saúde, dificultando ainda mais o controle do surto.

O primeiro caso europeu havia sido confirmado em maio, em um indivíduo que retornou da Nigéria à Inglaterra. A partir daí, países da Europa, além de Estados Unidos, Canadá e Austrália, passaram a registrar casos de uma doença que raramente havia se propagado fora da África Ocidental e Central. O surto atual parece ser dominado pela cepa da África Ocidental, com taxa de mortalidade de cerca de 1% — menos letal do que a cepa do Congo, que pode chegar a 10%. A transmissão ocorre por contato com lesões cutâneas, gotículas ou objetos compartilhados, e os sintomas — febre, dores musculares, erupções e pústulas — duram tipicamente de duas a três semanas.

A questão central que pairava sobre a reunião era se a varíola dos macacos se tornaria a sétima emergência de saúde pública de importância internacional declarada pela OMS desde 2007 — juntando-se, entre outros, à covid-19 e ao poliovírus. A resposta ainda estava em aberto.

Na quinta-feira, 21 de julho de 2022, a Organização Mundial da Saúde reuniu seu comitê de emergência para fazer uma avaliação sombria: a varíola dos macacos havia ultrapassado a marca de 14 mil casos confirmados, espalhando-se por 71 países em um ritmo que não desacelerava. Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, abriu a reunião com uma frase que capturava a tensão do momento: continuava preocupado com o número crescente de casos em um número crescente de nações. Seis países haviam relatado seus primeiros casos apenas na semana anterior.

Era a segunda vez que o comitê se reunia para avaliar o surto. Na primeira reunião, no final de junho, quando havia 6 mil notificações vindas de 58 países, a organização havia decidido que o surto ainda não constituía uma emergência de saúde pública de importância internacional — a designação máxima de alerta que a OMS pode emitir. Adhanom havia anunciado então que convocaria os especialistas novamente, e apontou um problema que permanecia: a testagem continuava sendo um desafio crítico, e era altamente provável que um número significativo de casos não estivesse sendo detectado.

Agora, com os números quase triplicados em pouco mais de duas semanas, a situação havia evoluído. Adhanom destacou que as considerações da reunião anterior haviam ajudado a delinear a dinâmica do surto, e que era importante avaliar continuamente a eficácia das intervenções de saúde pública em diferentes ambientes — entender o que funcionava e o que não funcionava. O padrão epidemiológico do surto apresentava uma característica marcante: a maioria dos casos continuava a ser relatada por homens que fazem sexo com homens, incluindo gays e bissexuais. Para Adhanom, isso representava simultaneamente uma oportunidade e um desafio. Era uma oportunidade porque permitia implementar intervenções de saúde pública direcionadas e específicas. Mas era um desafio porque em muitos países, as comunidades afetadas enfrentavam discriminação com risco de vida. Havia também o risco real de estigmatização, que tornaria o surto ainda mais difícil de controlar — quanto mais as pessoas temessem a discriminação, menos procurariam testes e tratamento.

O primeiro caso europeu havia sido confirmado em 7 de maio em um indivíduo que retornou à Inglaterra vindo da Nigéria, onde a varíola dos macacos é endêmica. Desde então, países europeus, assim como Estados Unidos, Canadá e Austrália, confirmaram casos. A doença viral, identificada pela primeira vez em macacos, geralmente se espalha por contato próximo e ocorre principalmente na África Ocidental e Central. Raramente havia se propagado para fora do continente, então essa nova onda de casos globais causava preocupação genuína.

Existem duas cepas principais do vírus. A cepa do Congo é mais grave, com uma taxa de mortalidade de até 10%. A cepa da África Ocidental, que parece estar predominando no surto atual, tem uma taxa de mortalidade de cerca de 1%. O vírus se transmite por contato com lesões na pele e gotículas de uma pessoa contaminada, além de objetos compartilhados como roupas de cama e toalhas. O período de incubação geralmente varia de seis a 13 dias, embora possa se estender de cinco a 21 dias.

Os sintomas iniciais — febre, dor de cabeça, dores musculares e nas costas — aparecem nos primeiros cinco dias. Depois surgem erupções cutâneas no rosto, palmas das mãos e solas dos pés, seguidas de lesões, pústulas e, eventualmente, crostas. A doença dura tipicamente de 14 a 21 dias. As medidas de prevenção incluem evitar contato com animais doentes que possam abrigar o vírus — roedores, marsupiais e primatas — e abster-se de comer ou manusear caça selvagem. Higiene das mãos com água e sabão ou álcool gel, além de evitar contato com pessoas infectadas, são ferramentas essenciais.

O que permanecia incerto era se a OMS declararia uma emergência de saúde pública de importância internacional. Essa designação, emitida apenas seis vezes desde 2007, é reservada para eventos extraordinários que apresentam risco através da propagação internacional e requerem resposta internacional coordenada. Atualmente, apenas a covid-19 e o poliovírus possuem esse status. A questão agora era se a varíola dos macacos se juntaria a eles.

Continuo preocupado com o número de casos, em um número crescente de países
— Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS
Em alguns países, as comunidades afetadas enfrentam discriminação com risco de vida, e há risco de estigmatização que tornará o surto ainda mais difícil de controlar
— Tedros Adhanom
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