Miguel já visitou 37 países em cinco anos, assistindo a partidas de futebol em 32 deles, desde competições de divisões menores até a Champions League europeia. Morando em Liverpool desde 2020, trabalha com entregas por aplicativo e planeja suas viagens usando o app Futbology para localizar jogos num raio de até 300 quilômetros.
O mochileiro da bola: brasileiro viaja pelo mundo só para assistir partidas de futebol
O sonho de muitos é meu dia a dia, toda semana estou em um jogo desses
Como alguém decide largar tudo e viajar só para ver futebol?
Miguel não largou tudo de uma vez. Em 2017, quando fez aquele primeiro mochilão pela Europa, já tinha essa vontade guardada. Mas percebeu que não podia esperar aposentar ou juntar uma quantidade grande de dinheiro. Então foi.
Mas ele tinha alguma estrutura? Renda, poupança?
Não sabemos os detalhes. O que a gente sabe é que desde 2020 trabalha com entregas por aplicativo em Liverpool, o que oferece flexibilidade. Antes disso, a reportagem não especifica como se mantinha.
E como ele escolhe para onde ir?
Usa um aplicativo chamado Futbology que mostra jogos num raio de 300 quilômetros. Escolhe a região, vê os jogos, consulta as federações, e monta a viagem em torno disso.
Mas isso pressupõe acesso a internet, dinheiro para passagens, documentação em dia. Não é exatamente acessível para a maioria das pessoas.
Verdade. E ele teve sorte também. Perdeu o passaporte na República Checa, dormiu no chão de um trem, teve problemas de comunicação. Poderia ter sido muito pior.
Qual foi o jogo mais importante para ele?
A final da Copa Sul-Americana de 2019 em Assunção, entre Colón e Independiente del Valle. O Colón nunca tinha chegado a uma final, e a torcida invadiu o estádio. Mesmo perdendo, foi marcante.
Mas a reportagem não diz se ele realmente sentiu a emoção do jogo ou se foi mais sobre estar lá, documentar, estar em um lugar histórico.
É uma pergunta justa. A gente sabe que ele observa a arquitetura, imagina a história. Um amigo dele brinca que ele não tem noção do que está vivendo porque o sonho de muitos é seu dia a dia.
Qual é o objetivo final?
Assistir a partidas em todos os 211 países filiados à Fifa. Começando pela Copa do Mundo do Qatar, onde quer visitar os oito estádios.
Em cinco anos visitou 37 países e assistiu a jogos em 32. Se mantiver esse ritmo, levaria décadas. E não sabemos se ele tem recursos para isso indefinidamente.
El Pulso
- 37 países visitados em cinco anos; 32 com presença em partidas de futebol
- Mora em Liverpool desde março de 2020, trabalha com entregas por aplicativo
- Usa o app Futbology para localizar jogos num raio de até 300 quilômetros
- Assistiu à final da Copa Sul-Americana 2019 em Assunção, Paraguai
- Meta: assistir a jogos em todos os 211 países filiados à Fifa
Miguel já visitou 37 países em cinco anos, assistindo a partidas de futebol em 32 deles, desde competições de divisões menores até a Champions League europeia. Morando em Liverpool desde 2020, trabalha com entregas por aplicativo e planeja suas viagens usando o app Futbology para localizar jogos num raio de até 300 quilômetros.
Miguel Freitas, torcedor do Mirassol, viaja há cinco anos visitando estádios em 37 países, tendo assistido a jogos em 32 deles, desde a 10ª divisão inglesa até a Champions League.
Miguel Freitas cresceu em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, torcedor do Mirassol desde criança. Aos 19 anos, em 2017, decidiu fazer algo que a maioria das pessoas adia indefinidamente: transformar duas paixões — futebol e viagem — em uma vida. Naquele primeiro mochilão pela Europa, visitou 19 países e passou por 70 estádios. Cinco anos depois, ele havia estado em 37 nações, assistindo a partidas de futebol em 32 delas. Não parou mais.
O apelido pegou: o mochileiro da bola. Seu Instagram, criado em 2019 (Miguel não era particularmente entusiasmado com redes sociais), reúne a documentação dessa jornada contínua. Desde março de 2020, ele mora em Liverpool, na Inglaterra, onde trabalha com entregas por aplicativo — um emprego que oferece a flexibilidade que sua vida exige. Quando chega cedo a uma cidade para um jogo, liga o aplicativo e faz algumas entregas antes de entrar no estádio. Quando viaja dentro da Inglaterra, vai de carro. O trabalho se encaixa nas brechas da paixão.
Sua logística é meticulosa. Usa um aplicativo chamado Futbology que mostra partidas num raio de até 300 quilômetros a partir de sua localização. Escolhe a cidade ou região, vê quais jogos acontecerão, consulta os sites das federações e competições, e monta a viagem em torno deles. Se não há jogo na data que planejou, muda a agenda. Tudo é calculado: custos, rotas, horários. Nada é deixado ao acaso.
Os primeiros meses na Europa foram marcados por uma ironia cruel. Uma semana após sua chegada, a pandemia de covid-19 paralisou os campeonatos. Miguel já tinha comprado ingressos para quatro jogos na Inglaterra. Todos foram reembolsados. Ficou cinco meses sem entrar em um estádio, em um país novo onde não conhecia ninguém. Quando as atividades ao ar livre começaram a ser liberadas, ele frequentou jogos da oitava até a décima divisão inglesa — qualquer futebol era melhor que nenhum. Mas a experiência britânica o decepcionou. Apesar de morar lá há dois anos e ter conhecido estádios da primeira até a quarta divisão, esperava mais. A fama dos hooligans o levou a imaginar arquibancadas vibrantes, mas encontrou torcidas tímidas.
A Alemanha foi diferente. Lá, Miguel sentiu o futebol como imaginava: torcidas apaixonadas, permissão para beber nas arquibancadas, a comida tradicional. O Borussia Dortmund era o principal estádio que queria conhecer. Comprou o ingresso online, que foi enviado por correios para a casa de um primo em Portugal. Mas já estava na estrada quando chegou. Pediu ao primo que mandasse por WhatsApp e imprimisse em uma papelaria. Na entrada do estádio, o plano desabou. O ingresso impresso não funcionou. Mandaram-no para um guichê, onde uma mulher reimprimiu o documento. Quando finalmente entrou, sentiu alívio e a sensação de objetivo alcançado.
Houve momentos em que pensou em desistir. Na Polônia, comprou uma passagem de trem sem entender completamente o que a vendedora dizia. Respondeu OK e seguiu. Só na hora de embarcar percebeu: o trem tinha assentos marcados, e um trecho de cinco horas estava lotado. Dormiu no chão do corredor. Na República Checa, perdeu o passaporte em um ônibus de Salzburgo para Praga. Após cinco minutos de pânico, raciocinou: era um ônibus de linha que voltaria para Salzburgo. Encontrou uma garagem cheia de ônibus, procurou alguns minutos, bateu na porta do veículo certo. O motorista estava limpando os bancos e já veio entregando seu passaporte. Em outra ocasião, desceu do trem muito longe do estádio onde assistiria a um jogo. Um táxi apareceu. A motorista disse que precisava deixar alguém em outro lugar primeiro, mas depois o levaria. Quando chegou ao estádio, não tinha a moeda local. Jogou algumas moedas para ela. Ela respondeu: vai meu filho, vai ser feliz. Chegou cinco minutos depois do jogo começar.
Seu jogo mais marcante aconteceu em Assunção, no Paraguai, em 2019: a final da Copa Sul-Americana entre Colón da Argentina e Independiente del Valle do Equador. Era jogo único, e o Colón nunca havia chegado a uma final. Os torcedores invadiram o estádio. Apesar da derrota, a festa o marcou. Quer assistir a jogos no campeonato argentino, onde todas as torcidas são apaixonadas. Também se surpreendeu com a paixão dos torcedores do Vitória de Guimarães, em Portugal.
Na Copa do Mundo de 2018, na Rússia, Miguel e quatro amigos gastaram cerca de 13 mil reais cada durante 20 dias visitando Espanha, Finlândia, Estônia, Rússia e Malta, assistindo a seis jogos da primeira fase. Ele não sabe quanto gastou ao todo nesses cinco anos — vai trabalhando e se mantendo durante as viagens. Mas sente-se privilegiado. Quando entra em um estádio novo, observa a arquitetura e imagina a história que ali aconteceu. Um amigo brinca que ele não tem noção do que está vivendo: o sonho de muitos é seu dia a dia. Toda semana está em um jogo de Champions ou Premier League.
Para conseguir ingressos, busca ajuda em grupos do Facebook onde torcedores que são sócios e membros de clubes repassam entradas pelo valor original, sem revenda. Às vezes pede a jogadores brasileiros pelo Instagram, embora seja difícil — alguns respondem, principalmente os times de menor expressão. Sua próxima parada é a Copa do Mundo do Qatar, onde ficará uma semana e visitará os oito estádios que sediarão o Mundial. Sua meta final é assistir a partidas de futebol em todos os 211 países filiados à Fifa. Estamos na torcida.
Citas Notables
Meu primeiro mochilão pela Europa foi em 2017, 19 países e 70 estádios. Não parei mais.— Miguel Freitas
A Inglaterra no geral foi bem decepcionante, pela fama dos hooligans eu esperava bem mais cantoria nas arquibancadas— Miguel Freitas