Sheinbaum reforçou a fronteira, ampliou cooperação contra narcotráfico, interrompeu envio de petróleo a Cuba e extraditou 92 chefes do tráfico aos EUA. Mais de 80% das exportações mexicanas destinam-se aos EUA, mas Washington também depende do México como principal parceiro comercial e por questões de segurança e migração.
O 'método Sheinbaum': soberania no discurso, concessões na prática com Trump
Soberania embrulhada em concessão
Como uma presidente de esquerda consegue manter 69% de aprovação enquanto faz concessões tão grandes a Trump?
Porque ela separa o discurso da prática de forma muito clara. Internamente, amplia programas sociais e fala de soberania. Externamente, cede onde precisa. Os mexicanos parecem aceitar isso porque entendem a realidade econômica.
Mas quanto tempo isso dura? Eventualmente as pessoas não vão notar que a soberania é mais retórica que realidade?
Talvez. Mas por enquanto, 65% dos mexicanos aprovam sua condução com os EUA. Isso sugere que o público distingue entre o discurso necessário e as decisões pragmáticas.
E quanto aos empresários mexicanos? Eles estão satisfeitos?
Sim, porque Sheinbaum se aliou a eles contra Washington. Ela defende seus interesses nas negociações de tarifas. É um acordo tácito.
Espera — ela extraditou 92 chefes do tráfico por uma via extraordinária. Isso não é uma concessão enorme? Como isso se encaixa no discurso de soberania?
Encaixa porque ela o faz em silêncio. O discurso público é sobre independência. As ações são sobre cooperação. São duas narrativas paralelas.
Então o "método Sheinbaum" é basicamente fazer o que Trump quer mas chamar de soberania?
Não exatamente. Ela preserva algumas linhas vermelhas. Não é submissão total. É negociação onde ela cede em algumas áreas e mantém controle em outras.
Qual é a linha vermelha dela? O texto não deixa claro o que ela recusa a fazer.
Boa pergunta. O texto não especifica. Talvez seja justamente o que não aparece nos jornais — as coisas que ela disse não.
E se Trump vencer novamente em novembro? Isso muda o jogo?
Provavelmente. Mas Sheinbaum tem quatro anos de mandato. Ela está apostando que consegue navegar isso até o final.
El Pulso
- Sheinbaum reforçou fronteira, ampliou cooperação contra narcotráfico, interrompeu petróleo a Cuba e extraditou 92 chefes do tráfico aos EUA
- Mais de 80% das exportações mexicanas destinam-se aos EUA; México é principal parceiro comercial americano
- Sheinbaum mantém 69% de aprovação; 65% dos mexicanos aprovam sua condução com os EUA
- Negociações sobre tarifas correm até 3 de novembro, data das eleições legislativas americanas
Sheinbaum reforçou a fronteira, ampliou cooperação contra narcotráfico, interrompeu envio de petróleo a Cuba e extraditou 92 chefes do tráfico aos EUA. Mais de 80% das exportações mexicanas destinam-se aos EUA, mas Washington também depende do México como principal parceiro comercial e por questões de segurança e migração.
A presidente mexicana Claudia Sheinbaum equilibra discurso de soberania com concessões substanciais aos EUA, mantendo 69% de aprovação enquanto negocia tarifas antes das eleições americanas de 3 de novembro.
No coração da Cidade do México, na noite de 15 de setembro, Claudia Sheinbaum encerrou a cerimônia tradicional do Grito da Independência com uma proclamação que se tornaria o leitmotiv de seu governo: "Viva o México livre, independente e soberano". A palavra soberania ecoaria nos discursos presidenciais nos meses seguintes, repetida como um escudo retórico enquanto seu governo negociava concessões significativas com Washington.
O timing não era casual. Sheinbaum tinha uma data marcada no calendário: 3 de novembro, dia das eleições legislativas americanas. Até lá, México e Estados Unidos corriam para fechar um acordo que reduzisse tarifas sobre setores cruciais da economia mexicana. A negociação revelava o delicado equilíbrio que a presidente de esquerda havia construído: dentro de casa, ampliava programas sociais e mantinha 69% de aprovação; para fora, aliava-se aos grandes empresários mexicanos na defesa de seus interesses diante de Trump.
Mas as concessões eram substanciais. Sheinbaum reforçou a fronteira com milhares de integrantes da Guarda Nacional. Ampliou a cooperação contra o narcotráfico. Interrompeu o envio de petróleo a Cuba. Seu governo transferiu 92 chefes do narcotráfico aos Estados Unidos por uma via extraordinária, contornando os procedimentos convencionais de extradição. Cada movimento respondia a uma demanda de Washington, cada um executado enquanto o discurso público mantinha a bandeira da independência nacional tremulando.
Jorge Castañeda, ex-chanceler mexicano, descreveu o padrão com ironia: o método consistia em fazer praticamente tudo o que Washington pedia, mas preservar para o público interno o discurso da soberania. A fórmula funcionava porque a realidade econômica era inegável. Mais de 80% das exportações mexicanas tinham os Estados Unidos como destino. Mas Washington também dependia do México — seu principal parceiro comercial em bens, uma fronteira de mais de 3 mil quilômetros, questões de narcotráfico e migração, dezenas de milhões de pessoas de origem mexicana vivendo em território americano. Trump não podia tratar o México como tratava a Colômbia, o Equador ou o Peru. Para Washington, o México não era apenas América Latina. Era parte de sua política doméstica.
A relação funcionava por canais distintos daqueles usados pelo secretário de Estado Marco Rubio em suas viagens pela América do Sul. Comércio, migração, fronteira, inteligência e segurança mobilizavam diferentes áreas dos dois governos. Sheinbaum falava diretamente com Trump enquanto seus ministros negociavam com autoridades e empresários americanos. A habilidade da presidente talvez estivesse menos em ter descoberto uma fórmula para enfrentar Trump do que em saber jogar as cartas excepcionais que o México possuía: cedia onde considerava necessário, preservava algumas linhas vermelhas e transformava a soberania em elemento central do discurso interno.
Os números sugeriam que a estratégia funcionava. A mesma pesquisa que lhe dava 69% de aprovação mostrava que 65% dos mexicanos avaliavam de forma positiva sua condução da relação com os Estados Unidos. Castañeda chamava isso de concessão embrulhada em soberania. Raúl Benítez Manaut, do Observatório da Relação Binacional México-EUA da UNAM, via pragmatismo numa relação de interdependência. As duas coisas talvez coexistissem.
Mas o desafio permanecia. Trump tinha 3 de novembro no calendário. Sheinbaum tinha quatro anos de mandato pela frente. O teste seria continuar fazendo caber no mesmo governo uma agenda social de esquerda, os interesses do empresariado mexicano, as exigências de Washington e aquele México "livre, independente e soberano" que ela havia proclamado diante do Zócalo. Nenhuma dessas forças desapareceria. Todas exigiriam sua atenção simultaneamente.
Citas Notables
Viva o México livre, independente e soberano— Claudia Sheinbaum, Grito da Independência, 15 de setembro
O método consiste em fazer praticamente tudo o que Washington pede, mas preservar para o público interno o discurso da soberania— Jorge Castañeda, ex-chanceler mexicano