Em Paraty, durante a Flip 2026, o escritor Milton Hatoum afirmou que o silêncio intelectual diante da barbárie é uma forma de cumplicidade — não uma escolha neutra. Ao apresentar sua trilogia sobre exílio e ditadura militar brasileira, o autor amazonense situou a literatura no centro de uma responsabilidade ética que transcende o tempo e as fronteiras: dizer a verdade ao poder. Por trás de seus personagens e narradores hesitantes, persiste uma ferida coletiva ainda aberta — a das centenas de famílias que, sem poder enterrar seus mortos desaparecidos, habitam um luto sem fim.
'O intelectual não deve ficar calado', diz Milton Hatoum na Flip 2026
o silêncio é cúmplice da barbárie
Por que o silêncio é tão perigoso? Não há momentos em que calar é também uma forma de proteção?
Há diferença entre proteção pessoal e cumplicidade estrutural. Quando você tem voz — e um intelectual tem — o silêncio deixa de ser defesa e vira abandono dos que não têm voz.
Você mencionou que não consegue escrever sobre o passado recente. Isso é uma limitação técnica ou moral?
Técnica, principalmente. A distância temporal permite que a memória vire imaginação. Sem ela, você fica preso aos fatos brutos, sem espaço para a complexidade que a literatura exige.
E Martin, seu narrador — por que ele não é um militante?
Porque seria fácil demais. Um militante já tem suas respostas prontas. Martin duvida, hesita, sofre com a perda. Isso é mais verdadeiro do que qualquer certeza política.
Você falou sobre as famílias dos desaparecidos vivendo em luto eterno. Como a literatura pode ajudar nessa ferida?
Não cura. Mas nomeia. Torna visível o que o Estado tentou apagar. E talvez permita que essas famílias se sintam menos sozinhas naquela melancolia.
Guimarães Rosa apareceu no final. O que ele tem a nos dizer agora?
Que caímos e nos levantamos. Que medo e coragem não são opostos — são ritmos da mesma vida. E que isso continua acontecendo.
The Pulse
- Hatoum declarou sem rodeios que intelectuais com consciência histórica não podem silenciar em tempos de crise — o silêncio, nesses momentos, vira cumplicidade.
- A tensão entre o passado distante e o presente imediato atravessa sua obra: eventos recentes demais não oferecem a distância necessária para a ficção, e os personagens do Brasil recente, segundo ele, 'são apenas horrorosos — sem nuance possível'.
- A trilogia O Lugar Mais Sombrio enfrenta o luto irresolvido de famílias de desaparecidos da ditadura militar, pessoas que nunca puderam realizar o ritual do sepultamento e vivem presas em uma melancolia sem fechamento.
- Hatoum se declarou cautelosamente otimista com as eleições que se aproximam, mas alertou para riscos anunciados no Brasil de hoje — equilibrando esperança e vigilância.
- Ao encerrar com Guimarães Rosa, o autor evocou a alternância humana entre paralisia e movimento, lembrando que mesmo nos períodos mais brutais da ditadura houve pessoas extraordinariamente corajosas que saíram e combateram.
Em Paraty, durante a Flip 2026, o escritor Milton Hatoum afirmou que o silêncio intelectual diante da barbárie é uma forma de cumplicidade — não uma escolha neutra. Ao apresentar sua trilogia sobre exílio e ditadura militar brasileira, o autor amazonense situou a literatura no centro de uma responsabilidade ética que transcende o tempo e as fronteiras: dizer a verdade ao poder. Por trás de seus personagens e narradores hesitantes, persiste uma ferida coletiva ainda aberta — a das centenas de famílias que, sem poder enterrar seus mortos desaparecidos, habitam um luto sem fim.
Milton Hatoum subiu ao palco da Flip 2026, em Paraty, ao lado do escritor Hisham Matar e do mediador Paulo Roberto Pires, para falar sobre sua trilogia e sobre o papel do escritor na sociedade. Sua resposta sobre a função do intelectual foi direta: quem tem consciência histórica e sensibilidade com o sofrimento alheio precisa dizer a verdade ao poder. Seja no Oriente Médio, na Palestina ou no Brasil — de quatro anos atrás ou de hoje —, há momentos em que o silêncio deixa de ser escolha pessoal e se torna cumplicidade com a barbárie. Hatoum disse-se otimista quanto às eleições que se aproximam, mas não escondeu a preocupação com os riscos do presente.
A trilogia — A Noite de Espera, Pontos de Fuga e Dança de Enganos — nasceu quando o autor era bolsista do governo espanhol nos anos 1980 e trata de exílio, ditadura e feridas que o tempo não cicatriza. Hatoum explicou por que não escreve sobre eventos recentes: um passado muito próximo não oferece a distância necessária para transformar memória em imaginação. Com certo humor, acrescentou que os personagens do Brasil recente não têm complexidade — são simplesmente horrorosos, sem nuance possível.
O autor dedicou-se também a explicar a diferença entre pessoa e personagem, lição aprendida de um amigo argentino exilado já falecido: um personagem não é cópia de alguém real, mas uma construção que parte de pessoas conhecidas e incorpora elementos imaginários. O narrador de sua trilogia, Martin, não é um militante — é um homem hesitante cujo drama moral gira em torno da perda, especialmente da mãe. Hatoum reconheceu traços de si mesmo em Martin, embora apenas em parte. Mas a questão que o personagem carrega é real e permanece aberta: centenas de desaparecidos da ditadura, famílias que nunca puderam enterrar seus mortos e vivem em um luto eterno, sem o fechamento que o ritual do sepultamento deveria permitir.
Ao encerrar, Hatoum recorreu a Guimarães Rosa para refletir sobre medo e coragem. A alternância entre paralisia e movimento é profundamente humana: nos períodos mais brutais da ditadura, muitos se retraíram, mas houve grupos extraordinariamente corajosos que saíram e combateram. Isso aconteceu em qualquer lugar — e aconteceu no Brasil. A Flip, iniciada na quarta-feira, encerra neste domingo.
Milton Hatoum subiu ao palco da Flip 2026 em Paraty no sábado para falar sobre sua trilogia e sobre o papel do escritor na sociedade. Ao lado do escritor Hisham Matar e do mediador Paulo Roberto Pires, o autor amazonense não hesitou em responder quando perguntado sobre a função do intelectual no debate público contemporâneo. Sua resposta foi direta: quem tem consciência histórica e sensibilidade com o sofrimento alheio precisa dizer a verdade ao poder. Não importa se o cenário é o Oriente Médio, a Palestina ou o Brasil — seja o país de quatro anos atrás ou o de hoje, com seus riscos anunciados. Hatoum se declarou otimista quanto às eleições que se aproximam, mas deixou claro que há momentos em que o silêncio deixa de ser uma escolha pessoal e se torna cumplicidade com a barbárie.
A trilogia que o trouxe a Paraty — A Noite de Espera, Pontos de Fuga e Dança de Enganos — nasceu quando Hatoum era bolsista do governo espanhol, nos anos 1980. Ela trata de exílio, ditadura militar e das feridas que o tempo não cicatriza. Quando perguntado por que não escreve sobre eventos recentes, o autor foi honesto: não conseguiria. Um passado muito próximo não oferece a distância necessária para transformar memória em imaginação. Além disso, acrescentou com certo humor, os personagens do Brasil recente não têm complexidade — são apenas horrorosos. Não há nuance possível em quem é simplesmente monstro.
Hatoum dedicou tempo a explicar a diferença entre pessoa e personagem, uma lição que aprendeu de um amigo argentino exilado, já falecido. Um personagem não é uma cópia de uma pessoa real. É uma construção mais intrincada, que pode começar com alguém que você conhece, mas que incorpora elementos imaginários capazes de transformar seu comportamento. Uma única pessoa raramente fornece material suficiente para um bom personagem — é preciso cruzar muitas coisas, muitas vidas, muitas histórias.
O narrador de sua trilogia, Martin, não é um militante. Hatoum escolheu deliberadamente um narrador mais hesitante, cujo drama moral aponta não para a política, mas para o sentimento de perda. E essa perda é a mãe. O autor reconheceu em si mesmo traços de Martin, embora apenas em parte — seu próprio pai não era o monstro que o personagem enfrenta. Mas a questão que Martin carrega é real e permanece aberta no Brasil: centenas de desaparecidos durante a ditadura, famílias que nunca puderam enterrar seus mortos, que vivem em um luto eterno e irresolvido. Sem o ritual do sepultamento, sem o fechamento que a morte deveria permitir, essas famílias habitam uma melancolia sem fim.
No encerramento de sua participação, Hatoum recorreu a Guimarães Rosa para refletir sobre medo e coragem. Há momentos em que o medo nos cristaliza, nos paralisa no lugar. Há momentos em que caímos e nos levantamos. Essa alternância entre paralisia e movimento é profundamente humana. Durante os períodos mais brutais da ditadura, muitos se retraíram. Mas houve grupos de pessoas extraordinariamente corajosas, com ideais muito fortes, que saíram e combateram. Isso aconteceu em qualquer lugar — e aconteceu no Brasil. A Flip, que começou na quarta-feira, encerra neste domingo.
Notable Quotes
O intelectual, o artista, uma pessoa que tem consciência histórica e uma mínima relação sensível com os outros que estão sofrendo, essas pessoas têm que dizer a verdade ao poder.— Milton Hatoum
As famílias ainda estão numa espécie de luto, não resolveram essa questão, porque não enterraram seus entes queridos que foram assassinados. Não conseguem concluir o luto, e isso se transforma em uma eterna melancolia.— Milton Hatoum