Bolsonarismo explorou linguagem das igrejas, medo e pautas de costume para conquistar eleitores evangélicos, apesar de candidatos com histórico de corrupção e violência. Questões climáticas e sociais foram negligenciadas nas eleições, enquanto ministra do Meio Ambiente reconhecida internacionalmente perdeu votação para negacionistas.
O desabafo de uma evangélica diante do sequestro político da fé
O bolsonarismo não quer ajudar. Apenas nos colocou uns contra os outros.
Por que essa tristeza é tão específica? Não é só decepção política comum.
Porque é uma traição sentida de dentro. Quando sua própria fé é usada contra seus valores, quando a linguagem que você usa para falar de justiça é sequestrada para falar de medo, dói diferente.
Mas a colunista reconhece que a esquerda também foi negligente. Isso não é só culpa do bolsonarismo, certo?
Exato. A esquerda olhou de cima para baixo, viu massa manipulável. Não entrou nas igrejas, não aprendeu a linguagem, não entendeu sinceramente os anseios.
E as mulheres evangélicas especificamente? Por que elas são tão importantes nessa história?
Porque estão no chão da ação social, fazem o trabalho real de cuidado com os marginalizados. Mas seu voto foi reduzido a um rótulo, sua complexidade ignorada.
A questão climática desaparece completamente da narrativa eleitoral. Isso é fato ou interpretação da colunista?
É fato. A ministra do Meio Ambiente perdeu. Negacionistas se elegeram em estados inundados. Candidatos que levantavam justiça climática foram ignorados.
Então o que ela está pedindo no final?
Uma metanoia. Abertura de olhos, arrependimento, retorno aos valores cristãos de cuidado com os necessitados e com a Criação.
Mas ela mesma diz que esse caminho é solitário. Há esperança real aqui ou é mais um lamento?
É um lamento que clama por ação. Ela não oferece solução fácil. Apenas diz que o caminho precisa ser ocupado.
Le Pouls
- Ministra do Meio Ambiente reconhecida internacionalmente perdeu eleição para o Senado
- Enchente no Rio Grande do Sul custou mais de R$ 100 bilhões aos cofres da União
- Candidatos bolsonaristas eleitos apesar de históricos de corrupção, violência e ligações com crime organizado
- Negacionistas se elegeram em estados gravemente afetados por chuvas
Bolsonarismo explorou linguagem das igrejas, medo e pautas de costume para conquistar eleitores evangélicos, apesar de candidatos com histórico de corrupção e violência. Questões climáticas e sociais foram negligenciadas nas eleições, enquanto ministra do Meio Ambiente reconhecida internacionalmente perdeu votação para negacionistas.
Colunista evangélica lamenta apropriação bolsonarista da linguagem religiosa e negligência da esquerda com pautas climáticas e sociais, criticando incoerência das igrejas na politização.
Há uma tristeza que não sai do peito de quem acredita e vota, e que vê sua fé ser capturada por uma linguagem que não lhe pertence. Essa é a sensação que toma conta de uma evangélica que observa, eleição após eleição, seu próprio voto ser reduzido a um rótulo, sua comunidade a uma massa de manobra, sua religião a um instrumento de poder.
As pesquisas tentaram contar uma história diferente. Mostraram que nem todos os evangélicos pensam igual, que há mulheres no chão das igrejas fazendo trabalho social real, que existe feminismo pragmático entre elas, que o tecido social que tecem é mais complexo do que qualquer enquadramento político consegue capturar. Mas essas tentativas de nuance não pegaram. De um lado, a esquerda olhou de cima para baixo, vendo apenas massa manipulável. Do outro, falsos profetas distorceram textos sagrados para se promover. E muitos continuaram engolindo mentiras em nome daquele que é a verdade.
O bolsonarismo fez algo que a esquerda não fez: entrou nas igrejas. Aprendeu a linguagem, explorou o medo, capturou as pautas de costume, criou capilaridade por dentro das comunidades evangélicas. Fez isso tão bem que conseguiu convencer multidões a apoiar candidatos com históricos de corrupção, violência contra mulheres, ligações com crime organizado — tudo em nome de Jesus. A esquerda, enquanto isso, escolheu rivalidade ou distanciamento. Apenas uma parcela minúscula de lideranças progressistas se dedicou a entender sinceramente os anseios de um povo que ocupa a base da sociedade brasileira.
Mas enquanto as eleições aconteciam, o mundo colapsava. O Rio Grande do Sul havia sido inundado dois anos antes por uma cheia histórica que custou mais de cem bilhões de reais aos cofres da União. El Niño ameaçava. Negros, pobres, mulheres e crianças viviam sob risco constante em uma emergência climática cuja sirene já havia apitado há tempos. Enchentes, ondas de calor, deslizamentos de terra. Perda de safras, falta de alimento, de água, de energia. Pouco se falou disso. A ministra do Meio Ambiente, reconhecida no mundo inteiro, perdeu a eleição para o Senado. Negacionistas se elegeram em estados gravemente afetados pelas chuvas. Candidaturas sérias que levantavam a bandeira da justiça climática foram ignoradas pelas urnas.
Muitas igrejas que apostaram na politização esqueceram do órfão e da viúva, das famílias que acolhem quando a tempestade cai, das crianças que têm medo do barulho da chuva, daqueles que moram nas encostas. Ou não sabiam que é dever do Estado protegê-las e preferiram remediar danos com doações paliativas, anestesiando a consciência. É inadmissível que o bolsonarismo tenha se tornado sinônimo da fé evangélica, qualificando tudo aquilo que se pensa sobre a vida em sociedade, o próximo, as desigualdades e a natureza.
A incoerência está em todos os lados. A igreja virou as costas para a política que constrói soluções aos mais necessitados e zela pela Criação. A esquerda negligencia a estrutura social formada pela igreja evangélica no Brasil, aquela que está conectada à vida das pessoas mais marginalizadas, na convivência semanal, no socorro bem presente nos dias de angústia. E o bolsonarismo? Não quer ajudar. Apenas colocou uns contra os outros, desviando o olhar do alvo legítimo.
Para evangélicos como essa colunista, sobrou a tristeza. A tristeza de ver gente seduzida por um discurso incoerente e vazio. Pelas instituições que dizem representar valores cristãos, permitindo que sua estrutura sirva de plataforma para quem faz oposição à essência do Evangelho. A indignação pelo sequestro, a dor porque, de dentro, a voz de denúncia soa à rebeldia. É tempo de abrir os olhos, se arrepender, pedir perdão e perdoar. É isso que Cristo ensina. O Brasil precisa de uma metanoia. Esse caminho ainda é solitário, mas precisa ser ocupado.
Citations marquantes
É inadmissível que o bolsonarismo tenha se tornado sinônimo da nossa fé— Colunista evangélica
A esquerda negligencia a estrutura social formada pela igreja evangélica no Brasil, aquela que está conectada à vida das pessoas mais marginalizadas— Colunista evangélica