Novo governo deve sinalizar política fiscal para reduzir incertezas, diz Santander

O mercado vai poder fazer conta e até ajudar o Banco Central
Economista do Santander sobre o impacto de o governo divulgar sua política fiscal e reformas.

No limiar de uma nova era política, o Brasil se vê diante de uma escolha que transcende partidos: falar com clareza sobre suas finanças públicas ou permanecer refém da incerteza. A economista-chefe do Santander, Ana Paula Vescovi, articula em Madri o que muitos no mercado sussurram — que a confiança não nasce do silêncio, e que o próximo governo herdará não apenas o poder, mas a responsabilidade de nomear seus compromissos fiscais. Num mundo onde quase todas as economias ainda apertem os juros, o Brasil tem a rara chance de virar o ciclo antes dos demais — mas apenas se escolher a transparência.

  • A incerteza sobre a política fiscal do governo Lula paira como névoa sobre o mercado, impedindo que investidores e o Banco Central ajam com segurança.
  • O Brasil carrega uma contradição: superávit de 1% em 2022, mas déficit estrutural de 1,4% projetado para 2023 — números que revelam uma fragilidade que não pode ser ignorada.
  • O ciclo de aperto monetário mais agressivo da história recente — de 2% para 13,75% — já cobra seu preço: o crescimento deve despencar de 2,8% em 2022 para apenas 0,7% em 2023.
  • A inflação, que beirou 12% em junho, já recua e aponta para 5,4% ao fim do ano, abrindo uma janela para corte de juros em junho de 2023 — antes da maioria das economias globais.
  • Agricultura forte e recuperação da renda das famílias surgem como âncoras de esperança, mas dependem de um ambiente de confiança que só a clareza fiscal pode criar.

Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander no Brasil, foi direta durante a Conferência Internacional do banco em Madri: o governo Lula precisa falar sobre política fiscal o quanto antes. Sem essa sinalização, avalia ela, o mercado permanece paralisado e o Banco Central perde margem para agir com confiança.

Os números do Santander contam uma história de transição delicada. O superávit primário de 1% projetado para 2022 convive com a expectativa de um déficit estrutural de 1,4% do PIB em 2023 — uma diferença que ilustra por que a clareza fiscal é urgente. Vescovi aponta a reforma tributária, já madura no Congresso, como prioridade imediata para o novo governo.

O Brasil pagou um preço alto pelo combate à inflação. A taxa Selic saiu de 2% em 2020 para 13,75% em 2022, num ciclo de aperto que o país iniciou antes da maioria das economias globais. O resultado é que a inflação já cede — de quase 12% em junho para cerca de 7% em setembro —, e a projeção é de corte de juros a partir de junho de 2023, enquanto o restante do mundo ainda aperta.

Mas o custo do aperto se reflete no crescimento: de 2,8% em 2022, o PIB deve avançar apenas 0,7% em 2023. A esperança de Vescovi repousa na agricultura robusta e na recuperação gradual da renda das famílias, além dos preços elevados das commodities. O recado é claro: o Brasil tem uma janela de oportunidade, mas ela só se abre com transparência fiscal.

Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Banco Santander no Brasil, tem uma mensagem clara para o governo que Luiz Inácio Lula da Silva está prestes a assumir: fale logo sobre finanças públicas. Sem essa conversa, ela avalia, o país seguirá preso numa névoa de incerteza que impede tanto o mercado quanto o próprio Banco Central de agir com confiança.

Vescovi apresentou suas análises durante a Conferência Internacional do Santander em Madri, na Espanha, onde discutiu perspectivas econômicas para a América Latina. Sua avaliação é direta: o Brasil enfrenta um desafio estrutural em sua política fiscal, e o novo governo precisa deixar claro não apenas qual será sua estratégia nessa área, mas também quais reformas pretende implementar. A reforma tributária, que já tramita no Congresso há tempo, está madura o suficiente para ser prioridade imediata. Com essas informações em mãos, o mercado conseguirá fazer suas contas e até ajudar o Banco Central a iniciar mais cedo o processo de redução dos juros.

Os números que Vescovi apresenta revelam uma economia em transição. O Santander projeta um superávit primário de 1% para 2022, o que à primeira vista parece positivo. Mas há um porém importante: o Brasil carrega um déficit estrutural, e a expectativa é de um rombo de 1,4% do PIB em 2023. Essa diferença entre o resultado de um ano e a projeção para o próximo ilustra exatamente por que a clareza fiscal importa tanto agora.

O país já passou por um ciclo de aperto monetário agressivo. O Banco Central elevou a taxa de juros de 2% em 2020—praticamente juros negativos—para 13,75% em 2022, movimento que ganhou escala global mas que o Brasil iniciou mais cedo que a maioria. Esse adiantamento tem uma vantagem: a inflação brasileira já começou a ceder. Em junho, havia chegado perto de 12%; em setembro, caiu para cerca de 7%. A projeção é que termine 2022 em 5,4% e 2023 em 5%, ainda acima do centro da meta de 3,5%, mas em trajetória descendente. Tudo indica que o ciclo de redução de juros deve começar em junho de 2023, enquanto a maioria das outras economias ainda estará apertando o parafuso.

Mas há um custo. O aperto monetário para conter a inflação vai comprometer o crescimento econômico, subtraindo aproximadamente dois pontos percentuais do PIB. Para 2022, a projeção é de avanço de 2,8%, número que cai drasticamente para 0,7% em 2023. É um crescimento tímido, quase estagnação. Aqui entra a esperança de Vescovi: a economia brasileira pode ser sustentada por um desempenho robusto da agricultura e pela recuperação gradual da renda das famílias, que tende a impulsionar o consumo. O país também será beneficiado pelos preços das commodities, que devem permanecer elevados no próximo ano.

O recado de fundo é que o Brasil tem uma janela de oportunidade. A inflação está cedendo, o ciclo de juros pode virar mais cedo que em outras partes do mundo, e há fatores estruturais que podem sustentar a atividade. Mas tudo depende de uma coisa: o novo governo precisa remover a incerteza. Sem saber qual será a política fiscal, sem conhecer as reformas que serão priorizadas, o mercado fica paralisado, e essa paralisia pode custar caro.

O maior desafio do Brasil é implementar uma política fiscal eficiente, e estamos na expectativa do anúncio do próximo governo
— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander no Brasil
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a economista do Santander insiste tanto em política fiscal? Não é algo que qualquer governo deveria ter pronto?

Model

Deveria, mas a incerteza aqui é diferente. O Brasil tem déficit estrutural, e o mercado não sabe se o novo governo vai tentar corrigi-lo ou deixar crescer. Sem essa resposta, ninguém consegue fazer projeção confiável.

Inventor

E isso afeta os juros?

Model

Afeta completamente. Se o mercado não acredita que a fiscal está sob controle, exige taxa de juros mais alta como compensação pelo risco. Com clareza, o Banco Central consegue baixar os juros mais cedo.

Inventor

Ela menciona a reforma tributária. Por que isso é tão importante agora?

Model

Porque está madura. Já foi discutida no Congresso, tem apoio, e implementar agora sinalizaria que o governo está sério em resolver problemas estruturais. É um gesto que o mercado entende.

Inventor

Os números dela mostram crescimento muito fraco em 2023. Como isso se encaixa?

Model

É o preço do aperto monetário. Quando você sobe juros para conter inflação, a economia desacelera. Mas ela acredita que agricultura forte e consumo recuperado podem amortecer a queda.

Inventor

E se o novo governo não fizer nada disso?

Model

Aí a incerteza persiste, os juros ficam altos por mais tempo, e o crescimento fica ainda mais fraco. É um círculo vicioso que só a clareza consegue quebrar.

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