Novo ensaio lê 'Transa' de Caetano como mapa afetivo e musical do Brasil

É quase como se ele refundasse o Brasil durante o exílio
A leitura de Baldi sobre como Caetano transformou a dor do afastamento forçado em criação musical.
Mark

Por que um verso em inglês, em uma faixa pouco conhecida, se tornou o centro de sua pesquisa sobre um disco tão comentado?

Mimi

Porque às vezes a obsessão não escolhe o óbvio. "Neolithic Man" estava ali, invisível, enquanto todos falavam de "Nine Out of Ten". Havia algo naquele verso que não conseguia soltar.

Mark

E depois de quatro anos investigando, você descobriu de onde Caetano tirou aquele verso?

Mimi

Não. E acho que essa é a beleza da coisa. A pergunta permanece. Talvez a força esteja justamente nessa ausência de resposta definitiva.

Mark

Você chama "Transa" de uma operação cartográfica. Isso significa que Caetano estava mapeando o Brasil enquanto estava longe dele?

Mimi

Exatamente. Ele estava refundando o Brasil durante o exílio. Não era melancolia. Era desbunde, experimentação, potência criativa diante do horror.

Mark

Como você conseguiu rastrear todas essas fontes — Gregório de Matos, João Gilberto, a capoeira, o candomblé?

Mimi

Mergulhei em hemerotecas, arquivos sonoros, entrevistas com Jards Macalé e Tutty Moreno. Mas o importante era ouvir obsessivamente. A pesquisa acadêmica ajuda, mas a escuta é o que revela.

Mark

Você recusa interpretações definitivas no livro. Não é frustrante deixar perguntas em aberto?

Mimi

Ao contrário. Todo mundo tem seu próprio Caetano, seu próprio "Transa". O livro é uma conversa, não um fechamento. Eu só queria trazer mais gente para essa conversa.

  • A leitura dominante de 'Transa' como álbum do sofrimento do exílio é diretamente desafiada: Baldi enxerga no disco não melancolia, mas desbunde, experimentação e potência criativa.
  • A pesquisa nasceu de uma obsessão específica — um verso quase invisível em 'Neolithic Man' que a autora nunca conseguiu explicar, e que se tornou o motor de quatro anos de investigação.
  • O ensaio percorre o disco faixa a faixa, rastreando fontes que vão de Gregório de Matos ao candomblé, da bossa nova ao rock em inglês, revelando um mapa afetivo do Brasil construído no afastamento.
  • Baldi recusa deliberadamente a interpretação definitiva, propondo o livro como conversa aberta — uma postura que desafia o modelo acadêmico tradicional de encerrar sentidos.
  • A obra chega à Flip como provocação: se todo leitor tem o seu Caetano e o seu 'Transa', o ensaio quer ampliar essa multiplicidade, não reduzi-la.

Em tempos de exílio forçado, alguns artistas não apenas sobrevivem à distância — eles redesenham o território que lhes foi tirado. É o que a pesquisadora Mateus Baldi argumenta em seu novo ensaio sobre 'Transa' (1972), de Caetano Veloso: que o disco não é um lamento pelo Brasil perdido, mas uma operação cartográfica que refunda o país a partir de dentro da dor. O livro, lançado às vésperas da participação de Baldi na Flip, convida leitores a habitar a obra sem a pretensão de esgotá-la.

Se Mateus Baldi pudesse fazer uma única pergunta a Caetano Veloso, não seria sobre a prisão na ditadura nem sobre os bastidores de gravação de 'Transa'. Seria sobre um verso quase invisível em 'Neolithic Man', penúltima faixa do disco de 1972: 'de onde veio isso?' A pergunta permanece sem resposta depois de quatro anos de pesquisa — e é exatamente essa abertura que gerou o livro 'Transa - O Brasil Dentro de Si'.

O ensaio propõe uma leitura incomum de um dos álbuns brasileiros mais discutidos das últimas décadas. Para Baldi, 'Transa' não é apenas um registro da dor do exílio, mas uma 'operação cartográfica': Caetano desenhando, a partir de Londres, um mapa afetivo e musical de um Brasil possível em contraponto à ditadura. 'É quase como se ele refundasse o Brasil durante o exílio', afirma a autora.

Em vez de reconstruir cronologicamente a gravação, o livro recua às circunstâncias que levaram Caetano até o disco e depois o percorre faixa a faixa, destrinchando suas fontes — do poeta barroco Gregório de Matos à bossa nova de João Gilberto, passando por capoeira, candomblé, samba e rock em inglês e português. A pesquisa envolveu mergulho em hemerotecas, arquivos sonoros e entrevistas com Jards Macalé e Tutty Moreno.

O que mais surpreende Baldi é o tom solar do disco diante de um exílio tão sofrido. 'Ele consegue criar uma potência. Acho isso impressionante.' Essa transformação da dor em experimentação é, para ela, o coração da obra.

O livro chega à Flip com uma declaração de intenções clara: não oferecer a interpretação definitiva de 'Transa', mas ampliar suas possibilidades. 'Todo mundo tem o seu Caetano. O livro é uma conversa. Eu só queria trazer mais gente para essa conversa.' A pergunta sobre 'Neolithic Man' segue em aberto — como se a força daquele verso dependesse justamente de não ter resposta.

Se Mateus Baldi tivesse a chance de fazer uma única pergunta a Caetano Veloso, não perguntaria sobre a prisão na ditadura, o exílio em Londres ou os bastidores de gravação de "Transa". Perguntaria sobre um verso específico, quase invisível na faixa "Neolithic Man", penúltima canção daquele disco de 1972 que se tornou clássico: "God spoke to me/ You are my son/ And my eyes swept the horizon away." A curiosidade é simples e sem resolução aparente. "A única pergunta que eu faria para o Caetano é 'de onde veio isso?'", diz a escritora e pesquisadora, que participa da programação da Flip no próximo domingo em uma mesa sobre a obra do compositor baiano. "Essa música me intriga desde o início."

Essa intriga sem resposta definitiva é exatamente o que gerou "Transa - O Brasil Dentro de Si", um ensaio que propõe uma leitura incomum de um dos discos brasileiros mais discutidos das últimas décadas. Baldi argumenta que "Transa" não é apenas um álbum sobre a dor do exílio, mas um mapa afetivo e musical do país. "Eu acho que 'Transa' é uma operação cartográfica", afirma. "Ele está desenhando um mapa de um Brasil possível em contraponto à ditadura, ao horror do exílio. É quase como se ele refundasse o Brasil durante o exílio."

A hipótese organiza o livro inteiro. Em vez de reconstruir cronologicamente a gravação do disco, Baldi recua aos acontecimentos que levaram Caetano até "Transa" e então percorre a obra faixa a faixa, destrinchando as fontes em que cada uma bebe. Elas vão do poeta barroco Gregório de Matos até a bossa nova de João Gilberto, passando por capoeira, candomblé, samba e rock em inglês e português. É um mapeamento afetivo multifacetado do país, construído durante o afastamento forçado.

O exílio continua sendo o ponto de partida, como era do disco anterior gravado em Londres. Mas na leitura de Baldi, em "Transa" esse afastamento deixa de ser melancolia para se tornar desbunde e experimentação. "É um disco solar. Tem uma força muito grande. Diante de um exílio tão sofrido, ele consegue criar uma potência. Acho isso impressionante", afirma a autora. Para ela, "Transa" sempre atuou como disparador de diversas manifestações na obra de Caetano.

Essa interpretação nasceu menos de uma tese acadêmica do que de uma escuta obsessiva. Durante o mestrado, Baldi mergulhou em hemerotecas, arquivos sonoros, vídeos de bastidores e entrevistas com Jards Macalé, diretor musical do disco, e Tutty Moreno, baterista e arranjador. Passou anos remontando as circunstâncias da gravação. "Eu acho que o bom da pesquisa e o bom do ensaio é você poder pirar nas suas obsessões."

A principal obsessão continua sendo "Neolithic Man", uma faixa frequentemente eclipsada por canções como "Nine Out of Ten" ou "Triste Bahia". "Nunca entendi por que as pessoas quase não falavam dessa música. Tem um verso ali que sempre me pegou muito forte", conta Baldi. Essa disposição para permanecer na pergunta, em vez de encerrá-la, também explica o tom do livro. Logo nas primeiras páginas, Baldi avisa que não pretende oferecer uma interpretação definitiva de "Transa". "Todo mundo tem o seu Caetano. Todo mundo tem o seu 'Transa'. O livro é uma conversa. Eu só queria trazer mais gente para essa conversa."

Essa recusa às respostas finais aparece também quando fala da própria pesquisa. Em vez de buscar uma chave única para decifrar o disco, prefere ampliar suas possibilidades de leitura. Talvez por isso a pergunta que gostaria de dirigir a Caetano permaneça sem resposta, mesmo depois de quatro anos de investigação, como se a força daquele verso estivesse ligada à ausência de uma interpretação definitiva.

Eu acho que 'Transa' é uma operação cartográfica. Ele está desenhando um mapa de um Brasil possível em contraponto à ditadura, ao horror do exílio.
— Mateus Baldi
É um disco solar. Tem uma força muito grande. Diante de um exílio tão sofrido, ele consegue criar uma potência.
— Mateus Baldi
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